Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > CARTA À VEJA

‘Iluminai a nós pobres velhos decrépitos’

Por Sérgio Dias Baptista em 17/04/2006 na edição 377

Isto é, veja só, imagino como Caê deva se sentir hoje com a nossa tropicália sendo elevada a ‘rodapé’ e olhando a Zélia Duncan de ‘braço dado com dois sordados’ indo pró cadafalso da ilusão…

Nós Mutantes queremos agradecer à grande luz e ins-piração dêitica (em minúsculo) do xará em questão, repórter eco de uma sombra ditatorial e imperial desassociada do compromisso verbal de Gil… ééééééé,,, ééééééé meu nego…

Sim, iluminai a nós pobres velhos decrépitos, semi-mortos que devemos realmente nos internar em um hospício, para a felicidade geral da veja contemporânea, pois afinal, a revista, assassina em baixo, em um ‘grave tom’ tão baixo de calão de um calado tão entusiasta e estapafúrdio que sim, veio até nos alegrar o coração…

Sim, a iluminação foi finalmente alcançada. Após todo o psicodelismo e tantas viagens lisérgicas encontramos a luz neste nosso doravante adorado messias ‘Sérgio não sei o que lá’ e achamos que sim, depois de tudo isto, nós realmente deveríamos encerrar a nossa já tão ridícula carreira rodeada de gente tão ínfima e ímpia, cujo pio nem assusta a uma coruja surda, como o tal dito cujo.

Mas messias é messias. Dentro desta realidade tão brasileira, da qual só nos resta mesmo é arrumar mais e mais igrejas para rezar, pois de nada adiantou até hoje o que de positivo foi feito nesta terra, pois sempre vira roda pé ou pó de sombra cadavérica no esqueleto da morte social, intelectual e burra imposta a nós. Sim, digo então, como lá na terrinha, ao povo, que ‘FICO’ e acho que então devemos seguir a orientação maestrina de nosso novo Guru, o ‘Sérgio não sei do que’, que fez eu nem sei o que… e joga búzios, pedras e predições homofóbicas em uma voz cheia de gritos estrógenos aonde pululam a fúria divina e a diabólica visão de profundidade dúbia…

Sim, seguiremos então cordeiralmente seus conselhos e agiremos como devemos corretamente e nos contentaremos em cancelar então todas as nossas aparições, pois elas já foram pré-destinadas pelo profeta ‘Bin Ladico Bushico’, fuxico do fracasso. Então nós Mutantes deveremos nos transvestir de Homus- Burridicus para podermos sim sermos aceitos pela nossa tão querida ‘ora veja só’…

Será então que assim a faima (leia fome) destes carrascos que como a Luiz XVI nos decapita, e não capta a cabeça da coisa, doutor Guilhotin, que deveria sim pegar em armas (algo mais contundente do que o computador), pois afinal a pena é mais forte… e é de dar pena …

Então acho que eu, Arnaldo, Zélia, Dinho, Rita, Caê, Gil deveríamos ir ao topo do tal hospital, antes voltando no tempo trinta anos, pois hoje não nos restaria força, e todos pularmos para a fauce abismal desta morte aleijão que tanto alegrará a nosso novo profeta, e, em sacrifício ao mesmo, gritando aos urros ‘Vivas ao Sérgio de ninguém’ antes de nos estatelarmos no chão e ensangüentados, sermos varridos de volta ao pré-roda pé… podendo cantar…em último suspiro de antigos ‘ídalos’… Nowhere man… (Sérgio Dias Baptista, 15/4/2006)

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Dinossauros psicodélicos

Sérgio Martins / copyright Veja nº 1952, de 19/4/2006

Os Mutantes chamam Zélia Duncan e voltam aos palcos depois de trinta anos. Será que funciona?

Mágoa de roqueiro é difícil de sarar. Que o diga Bryn Ormrod, diretor do teatro Barbican, um dos mais tradicionais de Londres. Organizador de um festival sobre a cultura brasileira dos anos 60, que a casa de espetáculos exibe atualmente, ele se viu numa encrenca ao decidir reunir os roqueiros do grupo Mutantes para uma apresentação. Criada em 1966 pelos irmãos Sérgio Dias e Arnaldo Baptista e pela cantora Rita Lee, a banda começou a se desmilingüir em 1972, quando Rita foi expulsa sob a alegação (certeira) de ‘não saber tocar nada’. Pouco depois saiu Arnaldo, arrastando outros músicos com ele – e assim se instaurou a cizânia também na família Baptista. Ormrod, portanto, se intrometeu numa rusga de três décadas ao querer levar para o palco os velhos Mutantes. E a surpresa é que ele teve sucesso, ainda que parcial. ‘Agora vou tentar resolver os conflitos do Oriente Médio’, brinca o inglês. No dia 22 de maio, na Inglaterra, Sérgio e Arnaldo voltarão a tocar juntos. Depois seguirão para os Estados Unidos, onde têm sete apresentações agendadas – a maior delas será de abertura para o grupo Flaming Lips, no Hollywood Bowl de Los Angeles, que abriga 17.000 pessoas. Só Rita Lee não topou voltar. Mas ela deu sua bênção a uma pupila. O anúncio oficial deverá ser feito nesta semana: é a voz cheia de testosterona da cantora Zélia Duncan que entoará as canções dos Mutantes em suas novas apresentações.

Sempre houve órfãos dos Mutantes no Brasil. Nos últimos dez ou quinze anos, uns tantos fãs estrangeiros se uniram à trupe. Um dos que ajudaram a propagar seu nome foi o líder do Nirvana, Kurt Cobain, morto em 1994. Ele chegou a enviar uma carta a Arnaldo Baptista, declarando seu amor à banda. David Byrne, ex-Talking Heads, também é advogado de defesa: seu selo lançou uma coletânea dos Mutantes nos Estados Unidos. Beck, Stereolab e Belle & Sebastian são outros fãs declarados. Não é difícil entender o charme dos Mutantes para os estrangeiros. Uma banda com sotaque roqueiro, surgida no Brasil de 1966, é mesmo uma coisa esquisita. Descobri-la e citá-la é como trazer um troféu de um safári – uma demonstração de espírito explorador.

Para além disso, contudo, somam-se as patacoadas. A imprensa inglesa tem procurado reforçar a aura contestadora dos Mutantes dizendo que eles ‘usaram suas guitarras para combater a ditadura militar no Brasil’ – o que simplesmente não é verdade. Qualquer tentativa de exagerar a originalidade do grupo também é ingênua. O próprio Sérgio Dias deixou isso claro anos atrás, num encontro com outro fã, Sean Lennon, filho do beatle John Lennon. O músico americano perguntou como ele tinha conseguido fazer aquele som. ‘Foi fácil. Bastou ouvir os discos do seu pai’, respondeu Baptista. A relevância dos Mutantes esteve no fato de ser um grupo jovem mais anárquico, num momento em que a alternativa era a jovem guarda. Dito isso, são uma nota de pé de página na psicodelia dos anos 60.

A volta dos Mutantes envolve uma questão técnica: saber se eles oferecerão interpretações convincentes de seus sucessos, como Ando Meio Desligado e Balada do Louco. À exceção de Rita Lee, a banda contava com ótimos instrumentistas. Mas já fazia trinta anos que o baterista Dinho Paes Leme estava sem tocar. E Arnaldo Baptista, que sempre andou meio desligado, exibe as seqüelas de uma malograda tentativa de suicídio, nos anos 80. Depois de se atirar do 3º andar de um hospital, ele teve edema cerebral e hoje fala e toca com dificuldade. Os ensaios da banda estão em marcha lenta. ‘Eles começaram a tocar num clima brincalhão, para ver se rola a química’, diz Aluizer Malab, empresário do grupo. Química no bom sentido – e não naquele dos anos 60.

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Músico, integrante da banda Mutantes

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