Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > ASSASSINATO NO LÍBANO

Imprensa clonada repete chavões

Por Jorge Saade em 28/11/2006 na edição 409

Pierre Gemayel, 34 anos, ministro da Indústria do Líbano, foi assassinado a tiros em seu carro numa rodovia de Beirute por atiradores que se evadiram. Ninguém viu quem eram os matadores. A família Gemayel é cristã maronita influente na política libanesa, há gerações comandando a Falange Libanesa. Junto com os Hariri, constituem a força da direita libanesa. São aliados dos Estados Unidos e de Israel. Sabe-se que os cristãos maronitas tiveram participação em massacres de palestinos na década de 90. Na última invasão de Israel, em julho/agosto deste ano, a direita libanesa aceitaria um cessar-fogo incondicional e eram, são, favoráveis ao desarmamento do partido e milícia Hezbollah.


A mídia local e internacional logo se apressou em noticiar que tinham assassinado um ministro ‘anti-Síria’, e não um ministro libanês ou um ministro falangista. Toda a imprensa mundial fez coro com as insinuações de envolvimento da Síria – parece ato reflexo quando acontece alguma coisa desta natureza no Líbano. O filho de Hariri falou no Parlamento, imediatamente, sem informações concretas que, por trás do atentado, estava ‘o dedo da Síria’. Sua foto apareceu em todos jornais para reforçar a credibilidade de suas declarações. Le Monde publicou comentário de especialista em Oriente Médio que concluía que a morte de Gemayel só interessava à Síria, da mesma forma que a de Rafic Hariri. Fonte oficial do governo sírio prontamente condenou o atentado como abominável. Ao mesmo tempo, em Bagdá, o ministro de Relações Exteriores sírio se pronunciava favorável a um cronograma de retirada gradual dos americanos do Iraque.


É pouco provável que os sírios estivessem envolvidos neste episódio, bem como no de Hariri. A Síria é país de diplomacia sóbria, não-agressiva como a do Irã. Está sendo alvo de intensa campanha internacional orquestrada por americanos e alardeada por toda a mídia engajada em tentar comprometer o país e envolvê-lo em todas as atividades de ‘suporte a terroristas do Hezbollah e do Hamas, ‘bem como de facilitar a introdução de armas e insurgentes no Iraque’ Chavões jornalísticos, boatos não-provados.


País de política pacifista, a Síria não se comprometeria em ações perigosas ou atentados num momento crítico. Está bem ciente da desproporção da correlação entre suas forças militares e as de Israel mais Estados Unidos. Já sofreu muito nas duas guerras de 1967 e 1973, não quer se meter em outra. Se assim não fosse já teria tentado retomar à força a rica região de Golan, ocupada pelos israelenses em 1967, onde até hoje é praticada a técnica de exclusão e limpeza étnica, como fazem covardemente em Gaza e Cisjordânia com o intuito de se apoderarem definitivamente das terras ocupadas, eliminando reações para lograr seu expansionismo na região.


Ira internacional


O presidente sírio Bashar al-Assad concedeu recentemente entrevistas ao El País espanhol e à BBC de Londres, onde esclareceu oficialmente a posição síria. Foi bombardeado pelos entrevistadores com perguntas incisivas, até deselegantes e elementares para uma BBC – por exemplo, se seus soldados teriam coragem de atirar contra forças britânicas. Esclareceu que condena fortemente o terrorismo, mas apóia movimentos de libertação em terras ocupadas. Afirmou que tanto Hamas como Hezbollah, partidos políticos oficiais, têm respaldo e apoio popular em seus países, não podendo ser considerados terroristas. Negou envolvimento no assassinato de Hariri e na infiltração de armas e combatentes através de seu território.


A posição oficial síria é a de não reconhecer Israel enquanto não forem devolvidas as terras ocupadas em 1967 e não for solucionada a questão palestina, com a formação de um Estado livre e independente. Pregou a paz e uma política justa para o Oriente Médio sem interferências de outros países. Lamentou o papel da imprensa ocidental na distorção dos acontecimentos e na contínua perseguição a seu pais. A Síria mantém relações comerciais e diplomáticas com países de Ásia, África e Europa, é parceira da Rússia e da China.


As forças de segurança sírias agiram com presteza no atentado recente à Embaixada dos EUA na Síria, matando os quatro atacantes, ativistas supostamente isolados. Mais uma vez, a mídia tentou a princípio distorcer este acontecimento, insinuando que o governo estimulava este tipo de ação. Este atentado, bem como o assassinato de Hariri, de jornalistas libaneses e de Gemayel, presta-se mais a grupos ou países que pretendem incriminar a Síria, tornando-a alvo da ira internacional, mais vulnerável e politicamente isolada.


Caldeirão fervente


Da mesma forma, manter acesa a instabilidade política do Líbano, verdadeira colcha de retalhos lidando com jogo de interesses nacionais e internacionais, de partidos de diversas etnias e tendências. A França, que possui negócios no Líbano e detém influência política, aliou-se recentemente à diplomacia dos EUA na região. Jacques Chirac era amigo de Rafic Hariri, reconstrutor do Líbano depois da guerra civil. Mudou suas posições em relação ao país. Nicolas Sarkosy, candidato da direita francesa a substituir Chirac, afinou-se com Bush em sua política de ingerência no Oriente Médio e Líbano.


Muito estranho, até hoje, não se apresentar nenhum envolvido nestes atentados. Em outros, contra EUA, Espanha, Inglaterra e Itália, imediatamente apareceram, e prenderam-se suspeitos. Só grupos de inteligência muito bem treinados e amparados ou agentes provocadores instruídos poderiam cometer atos tão vistosos sem deixar pistas. Não ouvi de nenhum analista internacional esta suspeita.


O caldeirão ferve no Oriente: Iraque, Afeganistão, Gaza, Cisjordânia, Líbano. Está na hora de ocidentais poderosos, EUA e Inglaterra à frente, repensarem suas estratégias de dominação, sem sucesso até agora, que geram destruição, morte e ódio em larga escala. Gastam bilhões de dólares na manutenção da guerra, que se fossem empregados para fins pacíficos trariam mais resultados e provavelmente a paz. A mídia não se preocupa com a paz, as guerras aumentam o interesse dos noticiários.

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Engenheiro e jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/12/2006 Daniel F. Silva

    Peraí, deixa ver se eu entendi. A Síria, país de diplomacia ‘sóbria e não-agressiva’? ‘País de política pacifista’??? E ainda tem o desplante de chamar o ditador de lá de presidente? Ora bolas, não me façam rir…

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