Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > MÍDIA & SOCIEDADE

Imprensa ignora crise no transporte paulistano

Por Maurício Caleiro em 02/03/2010 na edição 579

A cobertura de graves problemas no transporte público na cidade de São Paulo, ocasionados em decorrência direta de decisões da prefeitura, tem sido, em geral, negligenciada pelos órgãos de imprensa, não obstante o transtorno que reiteradamente causam a um enorme contingente populacional.

Primeiro, algumas linhas municipais de ônibus que trafegam por regiões periféricas ou por franjas mais distantes de grandes avenidas deixaram de circular aos domingos, dia de descanso e lazer para muitos – mas nem de longe para todos. Estes, que se virassem como desse para chegar ao emprego; os demais, que passassem o dia enfurnados em suas casas ou entregues à modorra dos domingos suburbanos. Uma distância feita, em muitos casos, de um bom número de quilômetros, passou a separar, na ida e na volta, os primeiros de seus empregos e os segundos das áreas de lazer da cidade.

Mais recentemente, o sábado foi incorporado à féria, tornando inaceitável o que já era um problema perturbador. Pois se no domingo a atividade comercial consideravelmente menor tornava a questão menos premente – embora ainda assim constituísse um grave fator de exclusão social determinado por parâmetros econômicos –, a ausência de transportes também no dia anterior instaurou um pesado transtorno na vida de um número enorme de paulistanos.

Cobertura de cunho partidário

Afinal, ao contrário de domingo, tal dia da semana – em que muitos trabalham, notadamente os comerciários – tende a ser, para muitos, a única oportunidade semanal para satisfazer demandas ditadas pelo cotidiano com comércio e serviços, em sua maioria, abertos. Além disso, é a única noite da semana em que podem, se transporte até os locais de festas, shows e eventos houvesse, aproveitar a noite de forma mais intensa, contando com o sono da manhã de domingo. Ademais, a extensão da ausência de circulação de ônibus de determinadas linhas municipais aos sábados passou a submeter, de forma inescapável, muitos dos moradores de tais áreas a dois dias seguidos sem transporte público.

Pergunto: o prezado leitor foi consultado acerca de mudanças tão radicais, como é prática usual de administrações democráticas? Viu o tema ser debatido nos jornais e programas jornalísticos de TV, com abordagens que contrapusessem a visão que a prefeitura tem da questão com a de moradores das áreas atingidas? Leu editoriais indignados contra o autoritarismo excludente da medida?

Este observador, embora tenha dedicado algum tempo a pesquisar o tema, não se defrontou senão com notas eventuais e materinhas escondidas nos cadernos de cotidiano/cidades dos principais jornais paulistas. Ora, não estamos falando de uma questiúncula menor, mas de medidas que afetam muitos e por um longo período, constituindo fator de exclusão social e urbana.

Não que essa omissão, grave sob um ponto de vista jornalístico, chegue a causar espanto. Quem acompanha há tempos a cobertura dedicada às administrações municipais paulistanas sabe que ela obedece a uma ordem pendular, de cunho partidário: a tentativa da então petista Luiza Erundina de reformar o sistema de transporte municipal, instituindo prazos de renovação de frota e passando a cobrar por quilômetro rodado (e não mais por passageiro) foi, justa ou injustamente, exaustivamente criticada nos jornais, assim como ocorreu com a reforma viária dos chamados ‘corredores de ônibus’ na gestão de Marta Suplicy. Já quando a cidade era governada por Mário Covas, Geraldo Alckmin, Paulo Maluf ou por seu pupilo Celso Pitta – que legou o caos no setor de transporte municipal –, o interesse dos órgãos de imprensa decaía a olhos vistos.

Adoção de um neoliberalismo caduco

A questão, aqui, não é discutir se as prefeituras petistas atuaram, em relação à questão do transportes públicos, de forma mais ou menos eficiente do que as administrações municipais situadas mais à direita do espectro político. Claro está que tal balanço é recomendável, ou mesmo necessário, em um período pré-eleitoral, na medida em que tange à escolha do voto para o próximo governador paulista. Mas o que realmente importa, no âmbito deste artigo, é assinalar as vicissitudes da imprensa paulista no que concerne à administração municipal – particularmente em relação aos transportes –, sua recusa em adotar critérios não partidários que orientem tal questão e, especificamente no caso abordado por este artigo, sua recusa em cobrir, de forma condizente, o agravamento de um problema administrativo que afeta milhões de cidadãos, professadores dos mais diversos credos políticos.

A circulação diminuta dos ônibus da maior cidade da América do Sul aos sábados e aos domingos seria negativamente notória por si só. Do modo antidemocrático e sem meios-termos como foi feita, inscreve-se como medida de cunho classista – além de anti-ecológica –, já que a locomoção por veículos automotores particulares passa a ser a principal, quando não a única, opção à disposição dos cidadãos. Quem não tem carro ou dinheiro para chamar um táxi, que passe a cultivar bolhas nos pés.

Trata-se, em última análise e em âmbito municipal, de um filme que já vimos nas esferas estaduais e federal: a adoção de um neoliberalismo caduco – pois situado na origem da grave crise econômica mundial – impondo medidas de restrição de gastos públicos que acabam por afetar os setores menos favorecidos da população.

Silêncio cúmplice

Em decorrência de tais medidas, que primam pelo autoritarismo que caracteriza a gestão Kassab, o pleno direito dos que não possuem veículo próprio de circular aos finais de semana, seja para o trabalho ou para o lazer, só se aplica aos que moram perto de estações de metrô ou de grandes avenidas. Aos demais, resta o claustro de seus bairros afastados, de suas cinzas periferias, onde as drogas e o alcoolismo se lhes oferecem como uma das poucas opções de ‘lazer’ disponível. Desses sem-ônibus a prefeitura só quer o imposto, que aos finais de semana passou a ser distribuído ao contrário do que manda o bom senso: dos mais pobres para os mais ricos.

Assim, a ausência de oferta de transporte público aos que moram nas franjas e periferias da cidade acaba por emular, em âmbito municipal, a política de desprezo pelos direitos de locomoção dos estratos sociais de baixa renda ora praticada pelo estado de São Paulo, assegurada por cobrança de taxas exorbitantes de pedágio. Em ambos os casos, embora não haja bloqueio físico a impedir o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos menos capitalizados, este é aviltado por barreiras econômicas direta ou indiretamente colocadas pelo estado.

E, em sua ampla maioria, a mídia, que tem como obrigação básica cobrir essa restrição semanal ao exercício da cidadania democrática, finge que não é com ela e se omite, em um silêncio cúmplice.

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Jornalista, cineasta e doutorando em Comunicação pela UFF; seu blog

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/03/2010 Sidnei Brito

    CMTC?!?! Orra, meu! Essa é do fundo do baú! Imagino que faz muito, mais muito tempo que o Sandro Vaia não toma ônibus na cidade de Frankfurt, digo, São Paulo!

  2. Comentou em 05/03/2010 Sidnei Brito

    CMTC?!?! Orra, meu! Essa é do fundo do baú! Imagino que faz muito, mais muito tempo que o Sandro Vaia não toma ônibus na cidade de Frankfurt, digo, São Paulo!

  3. Comentou em 03/03/2010 Marcelo Silvestre

    É o velho círculo vicioso: A empresa de transporte doa dinheiro para a campanha do político; O político, por sua vez, uma vez eleito retribui a gentileza relaxando regras que aumentariam os gastos da empresa. A imprensa, por apoiar aquele grupo político, finge que não viu. Até aí, aparentemente está tudo bem: se a doação é declarada, entende-se a formação de um lobby. O problema é que trata-se de um serviço essencial, que nunca deveria ter sido ‘privatizado’; e a empresa de transporte usufrui de uma concessão pública, jamais deveria poder fazer uma doação a um candidato a prefeito. Pena que a justiça eleitoral não entende assim. Por que será, já que é óbvio?

  4. Comentou em 03/03/2010 Marcelo Silvestre

    É o velho círculo vicioso: A empresa de transporte doa dinheiro para a campanha do político; O político, por sua vez, uma vez eleito retribui a gentileza relaxando regras que aumentariam os gastos da empresa. A imprensa, por apoiar aquele grupo político, finge que não viu. Até aí, aparentemente está tudo bem: se a doação é declarada, entende-se a formação de um lobby. O problema é que trata-se de um serviço essencial, que nunca deveria ter sido ‘privatizado’; e a empresa de transporte usufrui de uma concessão pública, jamais deveria poder fazer uma doação a um candidato a prefeito. Pena que a justiça eleitoral não entende assim. Por que será, já que é óbvio?

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