Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Imprensa ignora primeira santa brasileira

Por Deonisio da Silva em 17/03/2009 na edição 529

O santinho de Albertina Berkenbrock não poderá ser a mesma imagem, presente em folhetos e livros, em que ela mais parece uma santa top model, como se Gisele Bündchen tivesse sido canonizada.

O papa Bento 16 vetou pessoalmente aquela representação, aprovando uma pintura mais condizente com o que ela foi e com os fins da efígie, diante da qual há muito tempo se reza: ‘Bem-aventurada Albertina – exemplo de ternura, meiguice e luta corajosa, obstinada pela dignidade humana –, ajuda-nos a viver por um mundo melhor, derrotando, sobretudo, aqueles inimigos mais íntimos da alma, como a tristeza, o desânimo e a falta de um amor apaixonado por Deus e pelos valores eternos da Sua Cidade Celeste’.

O santinho de Albertina é reprodução de pintura feita por seu professor, Hugo Berndt, um oficial do exército alemão que, em viagens de núpcias, em 1913, desertou, fixando-se primeiramente no Rio de Janeiro e por fim na localidade de São Luís, onde viviam os Berkenbrock.

Os fundamentos da canonização

O leitor encontrará escassos registros na mídia sobre a catarinense Albertina Berkenbrock, cujo processo de canonização está na última etapa. O papa Bento 16 já assinou o Decreto de Beatificação (em 16 de dezembro de 2006). O prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal José Saraiva Martins, veio do Vaticano para presidir a cerimônia em que ela foi proclamada bem-aventurada (20/10/2007), em Tubarão (SC). A qualquer momento, ela poderá tornar-se a primeira santa brasileira. Santa Paulina, canonizada em 2002, apesar de ter vivido muitos anos no Brasil, era italiana de nascimento.

Albertina Berkenbrock, filha de Henrique Berkenbrock e de Josefina Boeing, nasceu a 11 de abril de 1919, na localidade de São Luís, em Imaruí (SC), e ali morreu no dia 15 de junho de 1931. Tinha, pois, 12 anos! Muitos parentes seus ainda moram na mesma localidade onde ela, resistindo ao estupro, morreu virgem, degolada por um empregado da família.

No processo de canonização, obtido no Vaticano, um documento de 200 páginas – escrito em latim, com trechos em italiano e em português –, lê-se que foi assassinada ‘por não haver consentido às solicitações e à violência de quem queria abusar dela’, como escreve monsenhor José Luis Gutiérrez, o relator do processo. E é ele quem acrescenta: ‘Penso que os membros da Congregação para a Causa dos Santos poderão encontrar neste volume os elementos necessários para obter a certeza moral sobre o quesito ora submetido a seu parecer’, isto é, os fundamentos da canonização.

Processo envolve despesas

A beatificação, etapa decisiva da canonização, começou na diocese de Florianópolis e continuou na de Tubarão, cujo primeiro bispo foi dom Anselmo Pietrulla, polonês de Knorów, da voivodia da Santa Cruz, condado de Gliwicki. Voivodia designa divisão administrativa na Polônia. Voivoda era o título do príncipe herdeiro na Romênia e na Bulgária.

Originalmente habitado por índios, principalmente carijós, o estado de Santa Catarina recebeu muitos imigrantes europeus, sobretudo italianos, alemães e poloneses, entre 1870 e 1914, quando ocorreram as grandes ondas de imigração daqueles que fugiam da miséria, de doenças ou de perseguições políticas advindas das revoluções que pululavam na Europa, diz o documento. Os alemães que vieram para Imaruí (SC) eram católicos da Vestfália.

Outras duas causas incentivaram a imigração alemã: a propaganda, que descrevia o Brasil como um paraíso, e os próprios imigrantes, que escreviam do Brasil, contando maravilhas sobre a sua nova pátria.

Quem deflagrou a canonização de Albertina foi o povo catarinense, mas o processo de canonização ficou parado de 1959 a 2000, quando foi retomado por ordem do papa João Paulo II. Na internet, em www.beataalbertina.com, é informado que o processo ‘envolve muitas despesas, pois é preciso pagar todos aqueles que em Roma trabalham’. E acrescenta: ‘Há quem deve ler o processo e dar um parecer, há quem traduz para o italiano, quem imprime, quem estuda, quem questiona, quem responde aos questionamentos, quem se reúne para discuti-lo etc… e todos devem ser pagos.’

O silêncio da mídia sobre o tema é opção editorial injustificável, principalmente porque o Brasil ainda é a maior nação católica do mundo.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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