Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Imprensa não vê nem ensina

Por Osório Barbosa em 22/02/2005 na edição 317

A entrevista do Rei Momo do Carnaval carioca, Marcelo Reis, na revista Carta Capital (nº 328), foi uma das melhores que acredito ter lido na imprensa brasileira no ano passado e neste ano.

A lucidez de sua majestade transparece quando perguntado:

‘CC: O que o Rei Momo faria para mudar o País para melhor?

RM: Educação. Povo educado sabe reivindicar mais. Sabe onde está o direito dele e onde o dinheiro dele está sendo empregado. Mais do que isso, cobra se o dinheiro é usado de maneira correta ou não…’.

Muitos já disseram isso, muitos dirão. Mas não custa repetir, direi. E o digo porque sempre acreditei que imprensa tem papel fundamental na educação do povo – maior, muitas vezes, do que o do Estado, especialmente quando informa as mazelas deste.

Nos últimos dias, venho acompanhando uma enxurrada de desinformação e falta de compromisso com a educação, com o esclarecimento da população. Refiro-me, especialmente, aos seguintes exemplos: 1) pena de morte para brasileiros traficantes na Indonésia; 2) morte do jogador de futebol do São Caetano; 3) seqüestro do brasileiro no Iraque; 4) homicídio praticado pelo promotor de Justiça de São Paulo, e 5) recrutamento de brasileiros para servirem de segurança no Iraque.

A imprensa tem tratado todos esses casos, no meu entender, de forma absurda, transferindo a responsabilidade daqueles que deram causa ao acontecimento àqueles que em nada contribuíram para o desfecho da situação, provocando a inversão da responsabilidade que cabe a cada ser humano enquanto pessoa portadora de higidez em suas faculdades mentais.

Culpa do Itamaraty

A moda americana está chegando ao Brasil, e como quase toda moda, essa é péssima. Trata-se, exatamente, na busca de responsabilizar outros por meus atos (a indústria do dano moral). Nunca foi nem deve ser assim. Se eu pratico uma ação, obviamente, devo arcar com suas causas. Pensava que isso era claro. Mas, pelo visto, não é. Comentemos os exemplos dados acima:

** O caso dos brasileiros presos na Indonésia é um dos mais cristalinos. Um primeiro brasileiro foi preso com cocaína em sua asa-delta. No Brasil, o tráfico é proibido. Logo, o brasileiro não podia imaginar que na Indonésia seria diferente, pois, por mais que se tenha boa vontade, o homem dito médio sabe de tal proibição. Poucos dias após a prisão do primeiro brasileiro, e de ser anunciado que a Indonésia pune o tráfico com a pena de morte, um segundo brasileiro se aventurou, levando a cocaína em sua prancha de surfe. Foi também preso. Os dois traficantes foram condenados à pena de morte.

As famílias (e familiar, no crime, costuma sempre estar ao lado dos criminosos e do crime), exigem do governo providências para pedir clemência para quem não tem clemência consigo próprio e com a família.

** O jogador do São Caetano, mesmo sabendo que estava doente, assumiu o risco de continuar jogando, tanto assim que, parece, dobrou seu seguro de vida. Digo parece porque o assunto (aumento do seguro) sumiu da mídia. Como, então, responsabilizar o clube e transformar o principal responsável pelo evento em vítima?

** O engenheiro brasileiro seqüestrado no Iraque – a mídia diz, mas não leva o raciocínio às últimas conseqüências – sabia que corria risco. Se sabia, assumiu tal risco. Por que agora culpar o governo por atos criados pelo seqüestrado?

** A imprensa não deu a mínima importância à defesa apresentada pelo promotor de Justiça, a qual leva a, no mínimo, uma dúvida plausível em relação a possível legítima defesa. A mesma imprensa critica a ações de ‘pit-boys’ quando atacam vítimas indefesas. E se nesse caso ocorreu o mesmo? Os ‘pits’ não esperavam pela reação da vítima.

** Brasileiros estão sendo recrutados para trabalhar no Iraque. Seriam eles tão desinformados a respeito do que por lá está acontecendo? E se ocorrer o pior, de quem será a culpa? É claro que será do Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores)!

Se quiser assumir, assuma

Ora, também não vivemos fora da realidade, conhecemos a sociedade capitalista brutal que nos cerca, que a vida não está fácil para ninguém (exceto para os privilegiados de sempre, os banqueiros, por exemplo, que financiam as campanhas políticas), por isso poderíamos compreender alguns dos casos acima, mas daí a alguém transferir a responsabilidade por riscos voluntariamente assumidos a outrem, que não os assumiu, vai uma imensa distância.

Diz a sabedoria popular que ‘quem descasca o abacaxi deve comê-lo’, com o que concordamos, até porque uma das melhores características do ser humano é assumir a responsabilidade pelos seus atos, não negá-los apenas pelo simples fato de a polícia se aproximar.

À imprensa cabe, pensamos, dizer: isso não pode ser assim, pois pode levar às seguintes conseqüências. Porém, se você quiser assumir, assuma, mas depois não queira responsabilizar outrem pelas conseqüências advindas do risco por você assumido.

‘Eu bem que avisei’

Não cabe, acreditamos, à imprensa fazer coro com a deslealdade de alguns casos, pois os culpados acabam posando de vítimas, e isso não é construtivo. Deve a imprensa, assim, em sua missão pedagógica, ensinar, esclarecer e mostrar como se deve honestamente agir, indicando que o desvio de conduta é possível, mas a responsabilidade é única e exclusivamente de quem assume tal postura.

Quem se aventura a traficar cocaína para país que apena tal crime com a morte pode ser comparado, grosso modo, ao suicida e, como se sabe, nenhum país condena o suicídio. Hoje, ninguém pode ser proibido de se suicidar. A conduta do traficante, no caso, ao suicídio se equipara.

Por fim, os órgãos governamentais devem, sim, ser cobrados, exceto para que façam milagres e corrijam modos educativos que deveriam vir do berço.

Sabemos que o que ora dizemos pode atingir o sentimento de parentes, mas o fazemos na esperança de que os mesmos erros não venham a ser repetidos no futuro, a fim de que não possamos usar o sempre canalha ‘eu bem que avisei’.

Ia esquecendo: o Rei Momo é jornalista de profissão, razão que me leva a perguntar: por que esses profissionais não escrevem o que pensam?

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Procurador da República e mestre em Direito Constitucional

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