Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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FEITOS & DESFEITAS >

Imprensa sem poder, sem moral, sem nada

Por Rafael Motta em 11/08/2009 na edição 550

Podem até acreditar no que a imprensa diz, mas não lhe dão a mínima. A despeito do esforço da mídia para demonstrar que a permanência de José Sarney na presidência do Senado é inaceitável, ele só sairá de lá se quiser. Alguns dos que apontam suas fraudes têm dedos tão sujos quanto aquilo que o senador está acrescentando à própria biografia.

Os escândalos de agora chegaram a este ponto porque a grande imprensa não vigiou como deveria os atos dos congressistas. A exemplo da classe política, empresários de comunicação também defendem interesses particulares. Por vezes, à custa de fazerem vistas grossas para fatos que se contrapõem à democracia. Isso se aplica a quaisquer relações semelhantes, como a de um vereador com um dono de jornal de bairro.

O consumidor de informação não é bobo. Ele reconhece quando a imprensa cita de passagem situações que, em seu ponto de vista, mereceriam maior destaque do que as tolices e frivolidades para as quais há espaço garantido – sobretudo, se são de interesse promocional do jornal, rádio, revista, TV ou portal que as veicula.

Situações assim minam a credibilidade de toda a mídia, do mesmo modo que ‘trezentos picaretas’ contaminam a fé na política. Como escreveu Nelson Rodrigues (1912-1980) sobre o subdesenvolvimento (que não é repentino, mas ‘obra de séculos’), a imprensa não perdeu o status de Quarto Poder da noite para o dia.

Desdém pela mídia

É por isso que, agora, não adianta veículos de comunicação deixarem a isenção de lado e manchetarem que o arquivamento sumário de processos contra Sarney é ‘mais uma pizza’ e que ele fez ‘barba, cabelo e… bigode’ (como vi em jornais paulistas da última quinta-feira, 6/7) após dizer, em discurso, que não deixará de presidir o Senado.

No artigo ‘O silêncio de Gilmar‘, veiculado neste Observatório e em alusão ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, assim escreveu Alberto Dines: ‘A República vive um de seus piores momentos – a única instituição capaz de salvá-la é a imprensa. Só ela é capaz de despertar a sociedade diante das emergências.’

Boa parte dos comentários que se seguiram foi de desdém ao raciocínio do autor:

** ‘Essa é a maior piada que já ouvi em toda minha vida. Que moral tem essa imprensa, sr. Dines, que só publica aquilo que lhe interessa, que partidariza suas notícias, que falseia fatos, que inventa, que mente, que calunia?’ (Gilson Raslan, de Jaru, Rondônia)

** ‘A razão maior do descalabro em que nos encontramos, a meu ver, vem do desastre comportamental de nossa imprensa. Posso estar errado, mas não posso aceitar essa instituição como a salvadora da Pátria’ (Ubirajara Sousa, de São Luís, Maranhão)

** ‘Dines, de onde você tirou esta pérola? Não é através desta imprensa que temos hoje que vamos conseguir melhorar a República’ (José Miranda, Brasília, Distrito Federal)

** ‘Que história é esta de que só a mídia poderá salvar as instituições? É justamente ela que desqualifica a República, visando obter mais poder. A imprensa sempre foi e agora, como nunca, é a grande inimiga da democracia’ (Reni Martins, Indaial, Santa Catarina)

** ‘Se os políticos carecem – e muito – de credibilidade, os jornais caminham a passos largos na mesma direção’ (Fernando Oliveira, São Paulo, SP)

Risco para a democracia

Declarações como as transcritas acima parecem dar o tom sobre o acontecimento que motivou o artigo de Alberto Dines: a censura imposta ao jornal O Estado de S.Paulo, proibido judicialmente de abordar a Operação Boi Barrica. Trata-se do nome dado pela Polícia Federal às investigações das atividades do empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney.

Diante disso, este Observatório manteve uma enquete na qual perguntou se a censura ao jornal poderia ser considerada um atentado à liberdade de expressão. Até o início da tarde de sexta-feira (7/8), quatro em cada dez internautas que responderam à sondagem votaram ‘Não’.

Mesmo que cerca de 60% tenham optado pelo ‘Sim’ – censurar um jornal é ferir a liberdade de expressão –, não se trata de uma margem tão segura. E que, curiosamente, se verifica quase ao mesmo tempo em que parte significativa da sociedade concordou com a recente e trágica decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de acabar com a exigência de formação superior específica para o exercício do jornalismo, sob o argumento de que tal obrigatoriedade feria a liberdade de manifestação do pensamento.

Há quem discuta a possibilidade de fechamento do Senado, que dá mostras de ser uma instituição com gente interesseira. Se persistir, a conduta inadequada da mídia poderá levá-la ao mesmo caminho. E a porteira estará aberta para se pôr em risco a democracia.

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Repórter de A Tribuna, Santos, SP

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