Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LATINOBARÓMETRO 2007

Imprensa divulga dados distorcidos

Por Eduardo Guimarães em 20/11/2007 na edição 460

O ‘Informe Latinobarómetro’ é elaborado pela ONG chilena Corporação Latinobarómetro desde 1995. Esse Informe vem sendo acompanhado e destacado fortemente pela mídia, sobretudo porque vem mostrando, de alguns anos para cá, grande desalento da população latino-americana com a democracia. A versão 2007 do Informe, porém, está sendo noticiada pela mídia de forma distorcida.

Na noite da última sexta-feira, ao noticiar o estudo de 2007, o Jornal da Globo omitiu um de seus dados mais significativos: de que, entre 18 presidentes da América Latina, Lula apareceu como o mais bem avaliado pelo conjunto da população da região. Para variar, o telejornal noticiou as informações de que gostou e ocultou as de que não gostou.

Já a Folha de S. Paulo destacou que a população venezuelana estaria ‘à direita’ do governo. A troco de que o jornal escreveu isso? O veículo simplesmente cita como indício da suposta visão ‘mais à direita’ dos venezuelanos – de um povo que, é bom lembrar, é governado por um socialista – o fato de que eles aparecem na pesquisa como os que mais apóiam as privatizações.

‘Retórica’ eficaz

Diz a Folha: ‘O país de Hugo Chávez, aliás, é o que registra a maior aprovação das privatizações [sic] da última década e meia: ali, 47% crêem que elas foram benéficas, contra uma média regional de 35%.’

A supressão de dados só enganará quem, diferentemente deste que escreve, não se der ao trabalho de ler a última edição do ‘Informe Latinobarómetro’. E quem não se lembra do quanto já foi mais alto o apoio dos venezuelanos às privatizações? Hoje, é um apoio minoritário. Apesar de ser o mais alto da América Latina, é a minoria dos venezuelanos que apóia a privatização das empresas públicas. Recentemente, com a estatização de empresas de energia elétrica como a Eletricidad de Caracas, por exemplo, ou a CanTV, na telefonia, os preços das tarifas que essas empresas cobravam caiu muito.

A pesquisa mostra, por exemplo, que a Venezuela está entre os países em que o apoio à ‘economia de mercado’ caiu mais entre 2005 e 2007 – de 62% da população para 49%, uma diferença de 13 pontos percentuais. E, de 1998 para cá, caiu de 68% para 49%, uma diferença de 19 pontos percentuais. Vale lembrar que Chávez chegou ao poder em 1999.

E a Folha continua a desinformar: ‘Embora o eleitorado não tenha pendido à esquerda, a retórica bolivariana de Chávez e do aliado [sic] Evo Morales, na Bolívia, se mostra eficaz. Os dois países lideram a escala de satisfação com a distribuição de renda, com 55% e 30% de sua população, respectivamente, considerando-a justa’.

Apoio a Chávez cresce

Ora, como é que ‘o eleitorado não pendeu à esquerda’? Será que ser majoritariamente contra a economia de mercado não é posição considerada de esquerda? E quando a opinião do pesquisado coincide com a da Folha, é tratada com respeito, como aconteceu com a opinião (minoritária) favorável às privatizações, mas quando vai contra a da mídia, é desqualificada. Note-se que o fato de os venezuelanos estarem majoritariamente satisfeitos com o processo de distribuição de renda no país é debitado à ‘retórica’ de Chávez. Ou seja: o eleitorado venezuelano seria burro e estaria sendo manipulado por acreditar que está havendo distribuição de renda no país. Mas, quando esse eleitorado se diz favorável às privatizações, não há desqualificação.

Vejam, então, outros dados da pesquisa que, diferentemente daquele dado de que gosta a mídia, se fossem noticiados mostrariam o quanto Chávez é apoiado pela maioria de seu povo.

Sobre a afirmação de que a economia de mercado é o único sistema em que um país pode se tornar desenvolvido, o apoio dos venezuelanos caiu espantosamente. Em 2005, 66% concordavam com essa afirmação. Em 2007, o percentual caiu para 41%, uma diferença de 25 pontos percentuais.

Sobre a afirmação de que o Estado – no caso, da Venezuela, de Hugo Chávez – pode ‘resolver todos os problemas’, o apoio a ela subiu de 2005 para cá. Naquele ano, 58% concordavam com a premissa, e agora são 67% que acreditam nela. Uma diferença positiva de 9 pontos percentuais.

Governantes de esquerda

Já o apoio ao governo, a confiança no governo e a confiança no presidente são mais altos na Venezuela do que em qualquer outro país latino-americano. Os números são, respectivamente, de 61%, 66% e 60%, percentuais parecidíssimos com o percentual que deu vitória a Chávez na eleição presidencial do ano passado, uma vitória que a direita tenta atribuir a fraude eleitoral apesar de todas as eleições venezuelanas dos últimos oito anos terem sido acompanhadas por centenas de observadores internacionais.

Claro que toda a cobertura que a mídia tem dado nos últimos anos ao ‘Informe Latinobarómetro’ tem uma razão de ser. O instituto divulga teses do agrado da mídia, como a conclusão – a meu ver, mal fundamentada – de que o continente latino-americano não caminhou para a esquerda. Vejam a relação dos países pesquisados e quantos entre eles (em vermelho) elegeram governantes oriundos da esquerda e verão por que faço tal afirmação.

País População (em milhões)

Argentina 40
Bolívia 9
Brasil 190
Colômbia 44
Costa Rica 4
Chile 15
Equador 13
El Salvador 7
Guatemala 15
Honduras 7
México 100
Nicarágua 6
Panamá 3
Paraguai 6
Peru 28
Uruguai 3
Venezuela 27
República Dominicana 9

Total 526

Esquerda: 321 milhões (61%)

Outros: 205 milhões (39%)

Informações cruciais

Qual é a explicação do Latinobarómetro para dizer que a América Latina está indo para o centro, e não para a esquerda? Não fica claro. É uma avaliação no mínimo subjetiva, diante dos números demonstrados aqui. Até porque, até alguns anos atrás, a preferência latino-americana era pela direita no Latinobarómetro. Assim, a América Latina pode ter ido para governantes de centro-esquerda e não para governantes da esquerda mais ‘pura’, mas veio do centro, o que sugere que o movimento em direção à esquerda ainda não arrefeceu, podendo avançar mais.

Esse movimento da América Latina rumo à esquerda, passando pelo centro, explicaria, inclusive, os ataques da mídia conservadora de direita aos governantes de esquerda que vêm chegando ao poder. Só para que se tenha uma idéia, basta acessar os arquivos dos jornais para ver as críticas ácidas da mídia brasileira a Chávez, Kirchner, Lula, Evo Morales, Rafael Correa etc., e a benevolência com governantes legitimamente de centro-direita como Álvaro Uribe, da Colômbia, um país em que a mídia não critica o governo e sim a oposição de centro-esquerda.

O ‘Informe Latinobarómetro’, porém, apesar da tendência de promulgar a subjetiva afirmação de que os governos são mais de esquerda do que o povo, é um estudo rico, cheio de nuanças, de informações cruciais que pretendo esmiuçar mais a fundo. Aliás, em breve divulgarei uma surpresa em relação a esse estudo.

Mentira deliberada

Alguns ressaltarão minha insistência no tema Venezuela, mas essa insistência não é minha, é da mídia. Todo esse auê em torno da Venezuela e de Chávez, todas as tentativas de vender aos brasileiros a mentira de que ele é um ditador e que em seu país não há liberdade de expressão etc., decorrem de preocupação dos manipuladores da mídia, o PSDB e o PFL, com a possibilidade de Lula seguir os passos de Chávez e propor um plebiscito que lhe permita disputar um terceiro mandato. Por isso, considero importantíssimo desfazer essa teoria sobre ‘ditadura’ na Venezuela. Aliás, venho ressaltando os ataques que Lula está recebendo por ter divergido da mídia na afirmação de que Chávez seria ‘ditador’.

Mas o mais importante do estudo que analisei aqui é que mostra, apesar da resistência até de seus autores, que há um processo de deslocamento político de um continente historicamente conservador para posições progressistas. Esse é um dos dados sociológicos mais importantes da atualidade, se não for o mais importante. Contudo, as razões do fenômeno são claras: a onda neoliberal dos anos 1990 traumatizou os latino-americanos. Dizer que é coincidência estarem elegendo governantes da esquerda não é nem auto-engano: é mentira deliberada.

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Comerciante, coordenador do Movimento dos Sem Mídia, São Paulo, SP

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