Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE VEJA

‘Indispensável’ é duvidar

Por Júlio César Carignano em 25/05/2010 na edição 591

Coisas ‘indispensáveis’ me fizeram escrever este artigo. Três situações, para ser mais exato, interligadas e relacionadas com a mídia: valorização do ensino superior, ética e a revista Veja. As duas primeiras são verdadeiramente indispensáveis e a terceira tem a pretensão de ser ‘para o País que queremos ter (sic)’.

Algo, por vezes dispensado, é a valorização daquilo que somos ou que temos, desvalorização de identidade, algo como pensar que ‘a grama do vizinho sempre será a mais verde da vila’. Isso acontece por vezes com a Unioeste, a universidade da região Oeste do Paraná. Na hora da crítica, vemos muita gente ‘cuspindo’ juízos de valores e, aos berros, amaldiçoar a instituição, numa espécie de cruzada da Idade Média. Porém, quando se trata de reconhecimento, poucos saem a público, preferindo minimizar seus feitos. O Seminário de Políticas Públicas, a Jornada de Agroecologia, o Universidade Sem Fronteira são apenas alguns exemplos, fora a infinidade de produção de conhecimento da instituição que tem em seus quadros grandes pensadores.

Enfim, essa introdução é para especificar apenas uma situação. Recentemente, tive acesso, por meio da democrática internet, a alguns trabalhos da historiadora Carla Luciana Silva (campus Mal. Rondon). Apesar de não conhecer pessoalmente a professora, li uma entrevista em que apresenta um de seus estudos, que virou tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense, intitulado: ‘Veja o indispensável partido neoliberal’.

Privatizações, serviço público e a falência do Estado

Devido à pouca reprodução pelos meios de comunicação de massa, elenquei alguns pontos do que acredito ser uma ‘indispensável análise’, independente de posições político-ideológicas. Para aqueles que tenham interesse maior, a tese virou livro, publicado pela editora da universidade (Edunioeste, 2009). A hipótese defendida é que a revista atuou como agente partidário que colaborou com a construção da hegemonia neoliberal no país. A professora fez questão de ressaltar que a Veja não jogou esse jogo sozinha, agindo em consonância com outros veículos privados, porém tendo certo protagonismo, por ser o semanário mais lido no país na época abordada no estudo (de 1989 a 2002).

‘A revista teve papel privilegiado na construção de consenso em torno das práticas neoliberais ao longo de toda a década. Essas práticas abrangem o campo político, mas não se restringem a ele. Dizem respeito às técnicas de gerenciamento do capital e à construção de uma visão de mundo necessária a essas práticas, atingindo o lado mais explícito, produtivo, mas também o lado ideológico do processo’, afirma trecho do livro.

Já na entrevista – concedida primeiramente ao Observatório do Direito a Comunicação – e depois reproduzida pelo jornal Brasil de Fato e blogs de jornalistas como Altamiro Borges e Luiz Nassif, a professora fala dos interesses dominantes na revista, especialmente os de classe e dos anunciantes multinacionais. Ela explica a tentativa da revista de não apenas atingir aos seus leitores, mas também a classe política como um todo. Outro ponto citado é a participação da mídia hegemônica no tripé que consolida o pensamento neoliberal: as privatizações, o ataque ao serviço público e a suposta falência do Estado.

Uísque paraguaio e um sujeito moralista

Enfim, como o espaço é curto, especialmente para falarmos de malfadadas ‘políticas-editoriais’, vale como sugestão procurar os trabalhos da pesquisadora e como dica para conhecermos aqueles que se portam e têm a pretensão de serem ‘indispensáveis’ aos interesses da nação e da sociedade.

Nas últimas décadas, na minha despretensiosa, porém segura, opinião, revistas como a Veja ‘dos dossiês’ e suas similares, além daquelas que apenas reproduzem seus pensamentos ipsis literis como fonte da verdade, são realmente ‘indispensáveis’ para criação de um senso comum e um neoconservadorismo carregado de discriminação, homofobia e ranço racista, como no caso recente da ‘farsa indígena’, que ilustrou páginas – não amarelas, mas vermelhas de vergonha (ou da falta dela).

Já sobre a questão ética, da qual, inclusive, fui abordado na semana passada por uma acadêmica de Jornalismo, vale lembrar que não se pode dispensá-la, porém não se deve usá-la apenas por ‘ocasião’. Encerrando, vale a máxima do velho sábio que pregava que ‘indispensável’ mesmo é duvidar do conteúdo de uísque paraguaio e de um sujeito moralista.

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Jornalista, Cascavel, PR

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