Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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FEITOS & DESFEITAS >

Informar ou criar mitos?

Por Rafael Henrique Martins em 13/06/2005 na edição 333

No Estado de Minas do dia 29 de maio, achei uma reportagem bizarra: ‘Crimes Macabros – Mortes bárbaras em diferentes estados têm como pano de fundo culto ao satanismo, envolvendo jovens que se aventuram em jogos como o RPG’. Sob esse título ‘macabro’, algumas fotos, com a legenda: ‘No sentido horário, Aline, Heloísa, Thiago e Douglas, vitimas de crimes que envolvem o jogo de RPG ‘Vampiro, a Máscara’’.

Como jogador de RPG há seis anos eu nem precisaria ler o resto da reportagem para descobrir que a repórter Fernanda Odilla (enviada especial do jornal ao Espírito Santo) não faz a mínima idéia do que está dizendo.

A reportagem começa com uma frase digna de romances policias de segunda categoria ‘O culto ao satanismo, repleto de criaturas monstruosas e rituais macabros, ultrapassou os limites das páginas de livros e das telas de cinema’. Depois desse ótimo começo você já deve imaginar o desespero que as mães de RPGistas ficaram ao ler essa reportagem.

No texto, a repórter coloca o RPG no mesmo patamar do satanismo e da magia negra, como se fosse tudo a mesma coisa. O cúmulo foi o uso de frases como ‘família sacrificada durante a partida de RPG’ e ‘Guarapari foi ainda o esconderijo escolhido pelos metaleiros’.

Ora, quer dizer que metaleiros não se mudam, se escondem? Ou melhor: o que os metaleiros tem a ver com isso?

Mas não acaba por aí: nas duas páginas seguintes que complementam a reportagem, Fernanda entrevista Luiz Howarth, um satanista (a que ela designa ‘Papa do Diabo’) e, depois, um metaleiro satanista. Incrivelmente, não há entrevistas com RPGistas. Ou seja, a repórter conseguiu achar o Papa do Diabo, mas não conseguiu achar um RPGista… Será que eles se esconderam? Ou será que ela não aprendeu nada sobre discurso polifônico na faculdade?

Só posso imaginar que a repórter teve um lapso, amnésia ou algo parecido. Enquanto temos ótimas reportagens, como a que passou no jornal da Alterosa e no Programa do Ratinho (meu Deus, até o Ratinho conseguiu explicar o que a repórter se esforçou por não entender!), aparece essa pérola que deve ser estudada nas faculdades como grande exemplo de antijornalismo.

A repórter atropelou as qualidades de uma boa reportagem. Ao invés de informar a população sobre o acontecido, acabou criando um mito sobre um jogo que já sofre preconceitos por todos os lados. As empresas de RPG deveriam processá-la por difamação. É uma pena que pessoas assim utilizem jornais de grande circulação para causar pânico. A culpa, é claro, também cabe a seu editor, Arnaldo Viana, que permitiu a publicação.

Demônios em Itabira

No jornal Imprensa Jovem, de Itabira (cidade mineira natal da família assassinada em Guarapari), saiu há pouco tempo um artigo com o título: ‘A verdade sobre os jogos de RPG’, escrito pelo pastor Ailton Francisco de Moraes. Este artigo conseguiu ser mais bizarro que a reportagem da Fernanda Odilla, só que o pastor teve a decência de publicar seu preconceito contra o jogo na seção opinativa.

O artigo do pastor Ailton é praticamente a citação de um livro que relaciona jogos de RPG com demônios (é impressionante em como os religiosos são influenciados por qualquer escrito que cite a palavra ‘demônio’, parecem que estão mais interessados no demônio que em Deus). Ora, se fossemos acreditar em qualquer livro, os pais cristãos estariam matando filhos rebeldes a pedradas em praça pública, assim como aconselha a Bíblia em Deuteronômio 21:18/21:

‘Se alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedece à voz de seu pai e à de sua mãe e, ainda castigado, não lhes dá ouvidos, seu pai e sua mãe o pegarão, e o levarão aos anciãos da cidade, à sua porta, e lhes dirão: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz, é dissoluto e beberrão. Então, todos os homens da sua cidade o apedrejarão até que morra; assim, eliminarás o mal do meio de ti; todo o Israel ouvirá e temerá.’

Não creio que as pessoas que lêem a Bíblia estão por ai matando seus filhos (ou estão?).

O livro que o pastor ‘pesquisou’ chama-se Prepare-se para Guerra, de Rebecca Brown, que ‘prova’ que o RPG é ‘um dos maiores instrumentos de Satanás hoje em dia’. Qualquer pessoa em sã consciência não precisaria nem continuar a ler o artigo para descobrir que não passa de mais uma imensa bobagem do tipo que teremos que enfrentar por um bom tempo.

Com essa atitude completamente irresponsável, os jogadores de lá começarão a sofrer preconceito dos religiosos alienados que vêem demônios por todo lado.

E o tal assassinato?

Sobre o assassinato em si, a melhor teoria é que o envolvimento do RPG não passa de uma artimanha dos criminosos. É muito fácil um assassino culpar um filme, uma música ou um jogo para justificar seus atos – quer simplesmente achar uma brecha na lei para se safar. É uma grande pena que delegados, juizes e jurados ainda acreditem nessas bobagens.

Há uma ótima matéria aqui, com uma possibilidade mais verossímil do acontecido no Espírito Santo. Os casos comentados neste Observatório de Ouro Preto e Teresópolis [remissões abaixo] já nem são citados pela imprensa séria, pois já está comprovado que o RPG não teve nenhum envolvimento com os crimes.

Afinal, o que é o RPG?

RPG é a sigla de Role Playing Game, que numa tradução livre significa Jogo de Interpretação de Personagens. Nesse jogo as pessoas se organizam e contam histórias. Não há apostas, não há perdedores. Em uma partida de RPG, normalmente chamada de aventura, um narrador começa uma história, e os jogadores interpretam personagens que farão parte dessa história. Parece um teatro improvisado, com a diferença que as pessoas não se movimentam para demonstrar as ações, apenas falam o que o personagem faz. Ou seja, numa aventura os jogadores nem encostam um no outro.

O RPG é conhecido por ser um jogo que exige imaginação e criatividade, e os jogadores quase sempre começam a pesquisar outros livros (de psicologia, história etc) para complementar as aventuras e deixar o jogo mais interessante.

O jogo faz parte da grade curricular de algumas faculdades, e é usado por vários professores como suporte para suas aulas.

Um leitor crítico não acredita em tudo que é publicado na mídia, corre atrás de mais informações e vai direto na fonte, se for preciso. Eu convido você, leitor crítico, a consultar um livro de RPG e ler sua introdução. E que visite o site da Spell Brasil, veja a seção ‘O que é o RPG?’, se possível converse com jogadores e só depois forme sua opinião. Pois gritar por aí que RPG é coisa do demônio já não passa de demonstração explícita de ignorância.

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Estudante o terceiro período de jornalismo no Unileste-MG, programador e autor do blog

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