Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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J. Hawilla, o homem forte

Por Nelson de Sá e Rafael Reis em 02/06/2015 na edição 853

Réu confesso no escândalo de corrupção entre a Fifa e empresas de marketing esportivo, o empresário brasileiro José Hawilla, conhecido apenas como J. Hawilla, 71, tem aversão à cor preta.

Desde que se envolveu em dois acidentes dirigindo um carro preto (em um deles, atropelou um ciclista, e, no outro, quase caiu em um precipício), o paulista tem contato mínimo com a cor.

Sua ascensão de jornalista a Midas da comercialização de direitos comerciais de eventos esportivos começou no fim dos anos 70 –sem nunca, claro, vestir preto.

  1. Hawilla dirigia a área de esportes da Rede Globo em São Paulo quando ajudou a organizar a greve dos jornalistas, em 1979, e acabou demitido. Foi então que o ex-repórter de campo começou como empresário, comercializando placas de publicidade em estádios. Não deixou mais o negócio, embora tenha retornado temporariamente ao jornalismo da Globo.

A partir da Traffic, empresa de publicidade em pontos de ônibus que comprou e ampliou em 1980, ele fundou em 2003 a TV TEM, acrônimo de Traffic Entertainment and Marketing, uma cadeia de afiliadas da Rede Globo no interior de São Paulo.

É hoje a maior em extensão, cobrindo quase metade do Estado, com cidades como São José do Rio Preto, onde ele nasceu, Bauru, Sorocaba e Jundiaí. No total, são 318 municípios e 7,8 milhões de habitantes, alcançando 49% do interior paulista.

Foi também do Grupo Globo que o empresário comprou, em 2009, o jornal “Diário de S.Paulo”, seu principal investimento em imprensa. Já havia montado então a Rede Bom Dia, de jornais em cidades da área coberta pela TV TEM, como Rio Preto.

O projeto não avançou e Hawilla acabou revendendo o “Diário”.

O futebol

Em 1987, assumiu a organização e a comercialização dos direitos de TV e patrocínio da Copa América. Dois anos depois, quando Ricardo Teixeira assumiu a CBF, começou a fazer negócios também com a entidade que gere o futebol brasileiro.

O primeiro acordo foi intermediar um contrato de US$ 1 milhão da confederação com a Pepsi. Outros incontáveis negócios (patrocínios da Umbro e da Coca-Cola) com a CBF se somaram até que a Traffic fez o meio-de-campo do acordo com a Nike, assinado em 1996, que foi alvo até de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito).

A partir dos anos 1990, Hawilla virou um dos principais nomes dos bastidores do futebol brasileiro. Após negociar com CBF e Conmebol, a Traffic chegou até a Fifa.

Uma parceria com a Band, com a qual dividia custos e faturamento da programação esportiva do canal, colocou mesmo os eventos menos importantes cujos direitos de transmissão pertenciam à empresa, na televisão aberta.

O ponto alto dessa parceria foi o papel fundamental que o grupo teve na realização do primeiro Mundial de Clubes da Fifa, em 2000. O torneio foi exibido na TV aberta apenas pela Band.

Já nos anos 2000, a Traffic quis deixar de ser apenas uma empresa de marketing esportivo e criou um braço para tratar dos negócios que envolvem o futebol jogado dentro de campo. A empresa deu origem a um fundo de investimentos para compra de direitos econômicos de jogadores e o repasse desses atletas a clubes parceiros.

A maior parceria foi a selada com o Palmeiras. Em 2008, impulsionado pelo dinheiro da empresa, o clube encerrou um jejum de 12 anos do clube sem vencer o Paulista.

A Traffic também criou o seu próprio centro de treinamentos para formação de jovens atletas, em Porto Feliz (120 km de São Paulo), e um clube para registrar esses jogadores, o Desportivo Brasil.

O poder adquirido pela Traffic na Conmebol passou a incomodar alguns dirigentes e empresários estrangeiros, notadamente argentinos.

Nos últimos anos, o nome de Hawilla ganhou resistência na entidade, e a empresa perdeu força. Ele foi chamado de “persona non grata” na Conmebol após entrar na Justiça para tentar recuperar direitos sobre competições.

***

Nelson de Sá e Rafael Reis, da Folha de S.Paulo

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