Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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Jade Goody, o reality show da morte

Por Ligia Martins de Almeida em 27/03/2009 na edição 530


Jade Goody morreu ontem, tristemente jovem, aos 27 anos. Não haverá um jornal neste país que deixará de dedicar páginas a este longamente esperado fato, e, depois, ao funeral dela. Estará nos noticiários de TV, no jornal das seis e no jornal das dez. E será surpreendente se você não mantiver ao menos uma conversa sobre ela hoje. Jade Goody era uma das pessoas mais famosas neste país. Mas quando minha filha de oito anos perguntou `porque Jade era famosa?´, eu não pude encontrar uma resposta. De certo modo, tudo que foi escrito sobre ela nos últimos sete anos, foi debatendo justamente esta pergunta’. (Caitlin Moran, The Times, Londres, 23/3/2009)


‘Todo o país admirava a determinação desta mulher valente na vida e na morte para assegurar o futuro de seus filhos, dizia o comunicado emitido pelo primeiro ministro britânico Gordon Brown, ao qual se somaram muitos personagens conhecidos da vida pública, incluindo os amigos de Goody tão insuspeitos como o príncipe Azim, filho do sultão de Brunei. `Acredito que a gente se identificava com ela porque era uma garota comum que ficou famosa, como pode acontecer com qualquer um que participe de um concurso´, disse Phil Gould, responsável pela revista OK, que desembolsou 700 mil libras pela matéria exclusiva de seu recente casamento. O ministro do Trabalho, Tony McNulty, lamentou tê-la criticado um dia. A decisão dela de viver diante das câmeras os estragos de um câncer cervical incurável, que se estendeu rapidamente para o fígado e o intestino, foi objeto de uma enorme controvérsia, porém também mereceu um olhar de simpatia por parte de muitos britânicos. Inclusive se destacou o impacto positivo de tanta publicidade: o número de mulheres jovens que se submetem a exames de detecção dessa enfermidade aumentou uns 20% nos últimos meses’. (Patricia Tubella, El País, Madri, 23/3/2009)


As revistas de fofocas (que os jornaleiros insistem em chamar de ‘femininas’) fizeram a festa. Uma delas, inclusive, pagou uma verdadeira fortuna pela cerimônia de casamento. Uma emissora de TV pagou para acompanhar os últimos dias de vida. Mas até os jornais mais sóbrios, como o tradicional The Times de Londres, tiveram que se render ao fenômeno. E a moça – cujo obtuário no Times Online recebeu o título ‘De monstro a fenômeno da mídia’ – conseguiu seu objetivo: morreu deixando uma respeitável fortuna para criar os filhos menores.


Percepção aguda


O mais surpreendente é que essa história – a história de Jade Goody, ex-participante do Big Brother inglês, que vendeu os direitos de cobertura de sua morte para a TV – não se passou em nenhum país subdesenvolvido ou de nível cultural inferior. O fenômeno se deu na Inglaterra e tomou conta da Europa. Jornais ingleses, franceses, espanhóis, portugueses e europeu em geral não falaram de outra coisa na segunda-feira (23/3), logo após a morte de Jade. Para alívio nosso, os jornais brasileiros foram discretíssimos. Registraram o fato e ponto.


A pergunta que os estudiosos de mídia devem estar se fazendo, a essa altura, é sobre os rumos do entretenimento e se esse é um caminho sem volta. Quando o filme O Show de Truman, citado na matéria do Times, fez sucesso, todos acreditávamos que era apenas ficção. Ficção que teve um final feliz, quando o personagem, ao perceber o que se passava, deu um basta e foi viver no mundo real.


A história de Jade Goody e o rumo que tomou na mídia européia revelam que, ao contrário do filme, as pessoas não querem viver no mundo real. O mundo real de Jade, segundo os jornais, envolvia pobreza, pais viciados em droga, infância e adolescência sem nada de bom. Ela, pelo menos, teve a capacidade de tirar proveito da TV e de seu sucesso, escrevendo biografias precoces, criando marcas de perfume e salões de beleza. No final, ao vender os direitos de seu casamento e fazendo de sua morte um reality show, conseguiu deixar um respeitável patrimônio para os filhos. E ainda prestou um serviço público ao alertar as mulheres para o perigo do câncer cervical.


O que Jade Goody mostrou, deixando que filmassem seus últimos momentos, foi uma aguda percepção do gosto popular e da mídia, que sem capacidade de prender a atenção dos espectadores com ficção, encontrou nos reality shows um jeito barato de conseguir ibope.


Tomara que um dia a ficção ganhe de volta seu lugar de destaque e volte a ser mais atraente do que a miséria humana.

******

Jornalista

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