Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > TRADUÇÕES DA MODERNIDADE

Janeiro em sete notas

Por Cláudio Rodrigues em 06/02/2007 na edição 419

I – Psitacismo

Psitacismo designa a repetição de palavras sem a compreensão do significado, conforme um papagaio, ave da ordem dos psitaciformes, da família psittacidae. Quando foi lançado o Plano Collor, por exemplo, papagaiou-se – e a mídia ajudou nisso – que havia muito dinheiro em circulação e somente com o confisco da poupança estaria controlada a inflação. Há casos mais recentes, como a adoção do câmbio fixo, o transponder, o turn-key, a ‘Força Nacional de Segurança Pública’ e o ‘Plano de Aceleração do Crescimento’ (com dinheiro da Petrobrás e do FGTS), só para citar alguns.

II – Com o dinheiro dos outros

Enfim, surgiu no noticiário a explicação da origem do dinheiro do FGTS a ser utilizado no PAC: os R$5 bilhões serão retirados do patrimônio líquido do fundo, hoje em R$21 bilhões, e não do passivo, parte do balanço que trata das obrigações. Se o atento leitor está satisfeito com a explicação (convenceu muita gente que escreve economês), favor pular para a nota seguinte.

Eis a definição de ótimo negócio: capta-se o dinheiro alheio a uma taxa desprezível de remuneração, investe-se para gerar um saldo de 21 bilhões e, no fim de semana, marca-se um churrasco para torrar a bolada obtida com o retorno do empréstimo.

Perguntar não ofende: por que não redistribuir aos trabalhadores os 21 bilhões do patrimônio líquido do FGTS?

III – Cruzadas

Vivemos tempos enevoados, tempos em que a moral é amoral. Vivemos a modernidade da barbárie, trocamos clavas, maças, escudos, fortalezas e retóricas vazias por armas de fogo, cercas eletrificadas e retóricas vazias. Retrocedemos aos primórdios da Idade Média: favelas sem saneamento, centros de saúde fétidos, sem remédios ou instrumentos adequados, hordas de bárbaros impunes, Big Brother só para maiores, enfim, vivemos tempos de estupidez. Estamos no Rio de Janeiro e o ano é 2007.

O bloqueio das rotas de peregrinação no Rio está levando à ruína os mercadores ainda estabelecidos na cidade. É necessário garantir a livre circulação dos cidadãos, reconquistando o controle do lugar. Neste cenário de violência e degradação, foi convocada a Força Nacional de Segurança Pública do Templo de Salomão, ou do Palácio da Alvorada, conhecida também, de forma abreviada, como os Templários do Alvorada.

O lema, ainda em caráter extra-oficial, é: Liberdade, antes das seis! Depois, é com vocês!

IV – Fé

No início de janeiro, como fartamente noticiado, os proprietários da Igreja Renascer foram enquadrados em Miami, extremo norte do Brasil. Não foram presos por enriquecerem à custa de inocentes fiéis brasileiros, muito menos por lesão a consumidores daqui. Foram presos por entrar nos Estados Unidos com 56 mil dólares não declarados à alfândega daquele país.

A justiça brasileira está pedindo a extradição do casal Hernandez para que eles expliquem por que não investiram no Brasil. Seria um caso de falta de fé no nosso país?

V – O buraco da imputabilidade pública

Imputabilidade (tentativa de tradução para o termo accountability) não se aplica somente àqueles que efetivamente colocaram a mão na massa. Da mesma forma que um alto executivo de uma empresa norte-americana pode ser preso por divulgação de informações contábeis falsas, mesmo que geradas por um azarado estagiário do malote, um governante deve ser passível de punição por erros durante o mandato. É aqui que, freqüentemente, o rabo tenta balançar o cachorro, ao se atribuir à gestão (ou ao modelo) a grande culpa pelos erros dos gestores. Trata-se do subterfúgio de desviar a atenção do grande público para as coisas irrelevantes, enquanto ninguém percebe os ilusionistas fugindo atrás dos panos.

Contudo, no Brasil, a platéia quer mais é entretenimento, sem mágicas explicadas.

Utilidade Pública: suspeitos das recentes tragédias no Brasil, perfilados com ajuda da mídia. O turn-key, a chuva, a seca, os partidos políticos, as empreiteiras, o capitalismo, o solo, os relâmpagos, os rios, a colonização portuguesa, a corrupção, o imperialismo norte-americano, o FMI, a dívida externa, o Sindacta, o transponder, a imprensa, o overbooking, o modelo econômico, a falta de educação, a qualidade do cimento, a corrosão, o azar.

VI – Internet só para maiores

As primeiras semanas de janeiro foram sacudidas pela decisão judicial de bloquear acesso ao YouTube onde se encontrava disponível o vídeo de relaxamento a dois daquela apresentadora da MTV. Depois de acirrados embates sobre direito, internet, direito na internet, internet séria, internet como brinquedo, sexo, sexo na praia, sexo na internet, privacidade, soberania e senso de ridículo, encerramos janeiro na calmaria, sem qualquer idéia sobre a autoria do processo: teria sido da apresentadora ou do namorado dela?

É como na célebre frase de Ivan Lessa: ‘o brasileiro é um povo com os pés no chão, e as mãos também’. E agora, com direito a vídeo no YouTube.

VII – Uma breve história do tempo

Antes da invenção do fuso horário, cada cidade possuía uma hora própria, de acordo com a passagem do sol. Assim, enquanto era meio-dia no Rio de Janeiro e em Porto Alegre os relógios marcavam 11h28.

A invenção do fuso é atribuída a Sir John Herchel que, em 1828, propôs a adoção de um sistema que ajustava as horas por regiões, não mais por cidades. Durante o governo do marechal Hermes da Fonseca, em 1913, foi promulgada a lei que dividiu o Brasil em quatro fusos distintos. Quase 100 anos depois, esta lei ainda não chegou à TV aberta brasileira, fazendo com que o Acre, fuso de duas horas a menos em relação ao horário de Brasília e três quando vigora o horário de verão, seja obrigado a assistir, a partir das 20:00 (hora local), aos programas classificados como impróprios para o centro-sul.

Desigualdade regional é isso aí! Mas, nem tudo está perdido, afinal, no Acre, as notícias acabam chegando mais cedo…

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Engenheiro, Rio de Janeiro, RJ

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