Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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FEITOS & DESFEITAS > PÚBLICO

Joaquim Vieira

11/03/2008 na edição 476

‘‘Um jornal também deve ter um assinalável contributo dos leitores’, escreve, de Vila Real, António Cândido Miguéis, para solicitar a concessão de mais espaço para a publicação de cartas enviadas pelo público ao Público. ‘Desde que estes revelem artigos inteligentes, bem estruturados e bem escritos. Artigos que tragam ‘revelações’, polémicas, esclarecimentos, vivências que ‘escapam’ aos jornalistas e ‘escapam’ aos seus distintos colaboradores. Alguém afirmou que ‘os jornais são os ponteiros de segundo da História’. Eu acrescento: as opiniões dos leitores são ‘estetoscópios’ que ‘auscultam’ o bem ou o mal estar político, económico, social, civilizacional…’

Na semana em que o Público atinge a maioridade, vale a pena reflectir na interacção que se estabelece entre o jornal e os seus leitores. Este conceito sofreu nos últimos tempos um extraordinário desenvolvimento devido ao advento da internet. O cidadão já não é um consumidor passivo de informação, mas um interveniente no circuito comunicacional, que pode em qualquer momento comentar notícias publicadas, difundir opiniões, enviar novas informações (em texto ou imagem) ou até mesmo, em último caso, criar o seu próprio órgão de comunicação – um blogue.

Esta nova característica tem levado os meios de comunicação tradicionais a abrirem-se a maior participação do público. Num jornal, por exemplo, dado que grande parte das notícias da edição em papel já foi difundida de véspera através do seu site na internet, é possível imprimir essas notícias já acompanhadas de comentários de leitores (prática porém ainda pouco habitual). Ou solicitar o envio de questões a serem colocadas numa entrevista agendada com uma figura pública. Neste capítulo, aliás, estamos apenas no início…

Na imprensa, as novas formas de comunicação acabam também por influenciar o desenvolvimento da tradicional zona de interactividade com o público, que é a secção de cartas dos leitores. Não se trata de mero espaço de desabafo ou de posta restante. Uma secção de cartas de leitores editada com atenção, sensibilidade e equilíbrio, além que constituir uma estimulante experiência profissional para quem o faz (testemunha-o o provedor por conhecimento directo), é quase sempre, numa publicação, uma das suas páginas mais lidas e com um público mais fiel (embora, curiosamente, os jornalistas disso não se costumem aperceber). O leitor de Vila Real explica porquê: ‘As cartas dirigidas ao director representam o verdadeiro pulsar da sociedade; explicitam o contentamento ou descontentamento das pessoas face aos governos; revelam atropelos, patenteiam injustiças dos serviços, mostram estados de alma, estados de espírito. Dão a real dimensão do país que não é aquela que os políticos propalam. Acusam. Protestam. Evidenciam insatisfações. E podem estimular polémicas interessantes e esclarecedoras’.

É natural que o provedor do leitor procure dar satisfacções aos leitores sobre esta área, que lhes pertence por direito próprio. E os primeiros dados que a esse respeito recolheu, logo que assumiu funções, não são dos mais entusiasmantes. A começar pelo facto de a secção não ser editada por um jornalista, mas sim por um elemento do secretariado da redacção. Não está em causa a dedicação com que esse trabalho é desenvolvido, mas sim tudo aquilo que nele seria obrigatório e fica por fazer: remissões, verificação factual de certas informações e alegações, moderação das palavras nos limites do civismo, da urbanidade e do bom gosto, sintetização dos textos para efeitos de clareza, rigor e abertura do espaço à participação de mais correspondentes, diálogo com os leitores, indução de foruns de debate sobre temas específicos ou elaboração de dados estatísticos acerca do correio recebido.

A segunda informação desanimadora é que – revela o responsável – as cartas recebidas em papel (seja por correio, por fax ou em mão) são automaticamente lançadas ao cesto dos papéis, por não existir na redacção do Público quem tenha disponibilidade para as teclar ao computador. Numa segunda conversa sobre o assunto tida pelo provedor com a mesma pessoa, foi admitida a possibilidade de uma ou outra dessas cartas ser repescada, mas não há dúvida de que prevalece como critério de admissão inicial o envio das mensagens por correio electrónico. Não deixa de ser preocupante que um jornal cujo Estatuto Editorial (EE) proclama que ‘a existência de uma opinião pública informada, activa e interveniente é condição fundamental da democracia e da dinâmica de uma sociedade aberta’ discrimine desta forma, logo à partida, os dois terços de portugueses que ainda não dispõem de acesso à internet.

Por outro lado, nem se pode falar propriamente de um trabalho de edição desta secção, já que o elemento responsável, com uma intervenção muito sumária, se limita a seleccionar por cada número do jornal, segundo directivas da direcção, duas cartas para eventual publicação, dado que não cabem mais. Não será até uma diminuta percentagem perante as poucas dezenas de cartas recebidas por dia (20 a 30, sendo que algumas não preenchem as condições exigidas e outras são enviadas para vários periódicos em simultâneo). O New York Times, por exemplo, publica em média, por edição, 15 das cerca de mil cartas que chegam diariamente à sua redacção, e o britânico Guardian a mesma coisa, entre 300 a 400 recebidas cada dia. Mas também é um facto que a publicação de um maior número de cartas incentivaria mais leitores a participarem.

E isto leva-nos ao problema mais visível (na opinião de muitos, pouco visível): o espaço em si. Na página onde são impressas, foi reservado às cartas, após a última reformulação gráfica do Público, um enclave entalado entre o editorial e as correcções do jornal (de referir que a revista ‘Pública’ tem um espaço à parte). Pior do que isso, estas duas secções possuem sempre prioridade sobre a colaboração dos leitores. Isto é: às cartas é destinada a área residual remanescente após elaborados os demais textos da página. Pode até acontecer que, perante um editorial prolixo (caso da passada sexta-feira), não sobre sequer lugar para cartas. Não se pode por isso considerar que os editores e directores do Público mantenham, pelo menos nesta página, grande respeito pelos leitores do jornal.

Poder-se-ia alvitrar que os leitores possuem à sua disposição o PUBLICO.PT, onde é possível a publicação de comentários sem restrições de número ou de dimensão. Trata-se, sem dúvida, de um importante forum de intervenção, como o atestam os cerca de 230mil comentários já inseridos na sua base de dados. Mas, pelo menos na fase actual, o PUBLICO.PT apenas admite uma participação reactiva – o leitor pode comentar uma notícia publicada mas não introduzir dados ou opinião sobre um novo tema, como se admite na secção de cartas da edição em papel.

O EE do PUBLICO.PT invoca o recurso ‘às novas possibilidades técnicas que se oferecem à informação, quer no domínio da produção de informação quer no da sua distribuição, explorando as capacidades de permanente comunicação e interacção com os seus leitores». Quanto à edição impressa do jornal, não existe no EE qualquer provisão respeitante à consideração e ao tratamento a dar às cartas dos leitores (embora no Livro de Estilo se estabeleçam regras para a divulgação de cartas reagindo à matéria jornalística).

Mas a questão pode ser abordada no âmbito do espírito que presidiu à elaboração do EE e que sempre esteve presente entre os princípios do Público: o reforço dos valores de cidadania. Nesse sentido, estimular os leitores à participação e conceder-lhes um espaço digno para o efeito não pode deixar de ser um desígnio deste jornal.

Recomendação do provedor. De acordo com os valores defendidos pelo Público, às cartas dos leitores deveria ser reservado um espaço fixo e maior do que o actual, a ser gerido por um editor próprio.’

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