Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > SUPER-HERÓIS NOCIVOS

Joel Macedo

20/04/2004 na edição 273

‘Brincando de matar monstros, Gerard Jones, Conrad Editora, 298 páginas, R$ 35

A fantasia dos super-heróis em gibis, desenhos animados e videogames é um dos assuntos polêmicos que mobilizam pais, educadores e psicólogos. Com base na própria experiência e em depoimentos, o jornalista, roteirista de quadrinhos (Batman, Homem-Aranha, Pokémon…) e especialista em cultura pop Gerard Jones defende neste desconcertante Brincando de matar monstros que os games de computador não são escolas de violência real, mas que crianças e adolescentes precisam da violência de fantasia para aplacar medos e alavancar o desenvolvimento psíquico. Ouvindo adultos envolvidos com o tema e usuários dos temidos games, ele conclui que manipular a violência de mentira em jogos eletrônicos é uma forma eficaz encontrada pelos baixinhos de controlar a ansiedade da violência do mundo real que chega a eles em intensidade além do suportável.

A obra, de razoável consistência, chega em tom demolidor, no momento em que especialistas ligados a esta indústria realizam no Rio, a partir desta segunda-feira, uma cúpula mundial sobre infância e mídia.

Se depender de Jones e de uma rede de especialistas com origem na contracultura dos anos 60/70, o consenso sobre os efeitos prejudiciais de games e afins no comportamento das crianças é coisa do passado. Hoje acredita-se que crianças usam fantasias de poder adquiridas no contato com as armas de brinquedo e personagens para atravessar fases de transição que provocam ansiedade. Na visão de Jones, uma criança que se sente impotente diante das ameaças do mundo sabe que nos jogos sua necessidade de poder é saciada. Poder brincar com a própria agressividade, tendo domínio sobre ela nos jogos – acredita o autor -, colabora para o crescimento emocional da criança. Quando as crianças podem manipular suas fantasias agressivas – a partir dos 2 anos -, desenvolvem a consciência da diferença entre a violência de brincadeira, dramatizada nos jogos, e a violência de verdade (que elas não suportam).

Jones tenta desmontar com exemplos a idéia dominante na sociedade adulta de que games violentos podem provocar comportamentos violentos. Ouvindo um adolescente sobre o assunto, foi surpreendido por uma resposta de rara objetividade e clareza: ‘Não tem nada a ver! Se a pessoa jogar Resident evil, ela vai sair para matar pessoas achando que são zumbis?’

O autor detecta uma certa falta deste discernimento entre os adultos que se sentem incomodados com os games e desenhos de combate, e lança a suspeita de que a amargura do mundo contemporâneo esteja impedindo pais e educadores de diferenciar a realidade da fantasia. As crianças, portanto, estariam mais habilitadas neste fundamento perceptivo por terem a seu dispor elementos de ficção por intermédio dos quais esta diferenciação pode ser bem trabalhada.

Uma das teses de Brincando de matar monstros é que, se queremos crianças menos violentas e mais equilibradas, devemos deixar que elaborem fantasias e descarreguem suas frustrações e sua agressividade em jogos de faz-de-conta. Afinal, o mito da infância ideal não é mais sustentável. As crianças desta geração são protagonistas mudas de um drama de enormes proporções e precisam de ferramentas para dar conta deste volume de estímulos que as alcança no dia-a-dia. Paradoxalmente – afirma o livro -, ‘crianças que podem brincar de matar tornam-se menos agressivas’. Diante de um mundo assustador que invade as casas com imagens de violência inimagináveis, as crianças, segundo Jones, precisam se sentir poderosas, e super-heróis, guerreiros de games, rappers e pistoleiros seriam símbolos: quando fingem ser um deles as crianças sentem-se fortes.

Mas a verdade é que ver nossos filhos se divertindo com algo que desprezamos nos incomoda. Nosso medo é que estejam reforçando um horror que desejamos banir da realidade. Lembro-me de que foi quando, superando grande resistência, aderi incondicionalmente à mania dos Pokémons e passei a assistir aos desenhos e comprar as revistas que consegui atingir um patamar ideal de companheirismo com meu filho caçula. Ele passou a me ver de forma diferente, como um cúmplice, e fazia questão de me introduzir nos labirintos daquele mundo de fantasia, tão poderoso e caro para ele e para o qual os adultos só tinham palavras de condenação e desprezo.

Jones rememora os gibis, cuja imagem nos anos 50 era ligada à delinqüência juvenil. Um pré-adolescente tímido que matava aulas para ficar em casa assistindo à TV com as cortinas fechadas, em um lar corroído pelo ódio, ele teve sua trajetória alterada pelo contato com o gibi do incrível Hulk. ‘Fiquei fascinado. Aquilo me dizia algo. O Hulk me hipnotizou e me libertou: supermasculinizado e subsocializado, meio nu, meio abobado, com raiva de um mundo assustado que não o compreendia e o perseguia.’ Hulk o levou a uma busca apaixonada por outros gibis. ‘De repente, eu tinha um ego de fantasia que me mostrava como era não ter medo de meus próprios desejos e da desaprovação do mundo. Hulk despedaçou as paredes de medo que havia dentro de mim e me libertou para que eu sentisse tudo o que vinha reprimindo.’

Anos depois, já autor, foi abordado num seminário de quadrinhos por uma tímida menina de óculos. Vinha lhe dizer que seu gibi Freex ‘é o melhor que já existiu’. Tratava de adolescentes fugidos de casa que fundam uma gangue de rua para se protegerem mutuamente. ‘Eu gosto das lutas… É quando dá pra ver o que eles sentem uns pelos outros. É quando dá pra ver a paixão deles. E é a paixão que, na verdade, faz com que eles sejam poderosos.’ Atônito, Jones arriscou perguntar o que Sharon sentia nas cenas. ‘Bom, quando estou lendo sobre eles, eu sou eles, certo? Então… Eu me sinto poderosa.’

Este encontro fez ‘cair a ficha’ para Jones. Ele percebeu que os personagens, os enredos e as tramas tinham importância, mas o elemento tocante e transformador era a violência em si. A violência tinha ajudado uma adolescente tímida a tomar consciência de seu próprio emocional reprimido e descobrir um sentimento de poder pessoal – exatamente como acontecera com ele no encontro com Hulk.

Mas será que a premissa de Jones de que os gibis e videogames canalizam as emoções das crianças e adolescentes, tornando-os mais calmos diante da violência de verdade, se sustenta diante do episódio dos garotos que assassinaram seus colegas na escola Columbine? Ficou patente que eles adoravam o game Doom, um dos mais agressivos desta cultura. Na época, psicólogos atestaram que a violência visual era comprovadamente nociva às crianças e a Academia Americana de Pediatria solicitou um monitoramento das crianças em relação à violência da mídia e que os pais fossem alertados a respeito.

Uma psicóloga, entrevistada, admitiu que algumas crianças ou jovens têm raiva demais para poder brincar com ela, enquanto outros têm dificuldade para dosá-la, o que pode implicar, ainda que de maneira leve, o assassinato em Columbine com a cultura dos games violentos. Em casos como estes, a especialista recomenda menos exposição à violência de fantasia e mais conversa esclarecedora como terapia para reduzir a revolta e a ansiedade.

Mas independentemente de posicionamentos com respaldo acadêmico, o que este livro denuncia, nas entrelinhas, é uma certa caretice adulta de não deixar as crianças serem crianças, com a liberdade de escolherem suas brincadeiras na estética do seu tempo, na contramão de uma subcultura pacifista que se delicia com a destruição de armas de brinquedo em rituais midiáticos. Parece incontestável que as pessoas mais aptas a agir em caso de violência são as que ficam menos aterrorizadas quando a encaram; e que quando estamos em paz com nossos medos, frustrações e raivas, somos mais capazes de amar. Se a fantasia dos jogos eletrônicos tiver efeitos terapêuticos neste sentido, muitos paradigmas estarão caindo por terra.’



TV GLOBO
Daniel Castro

‘‘Atropelada’, Jimenez está triste com a Globo’, copyright Folha de S. Paulo, 18/04/04

‘Claudia Jimenez está magoada com a Globo. No ano passado, a emissora decidiu que ela iria estrelar ‘Papo de Anjo’, quadro do ‘Fantástico’. O quadro virou um especial, testado no final de ano para uma vaga de programa fixo neste ano.

O seriado fixo não rolou. A Globo anunciou, então, que ‘Papo de Anjo’ voltaria a ser quadro do ‘Fantástico’, mas acabou ‘atropelado’ por ‘As 50 Leis do Amor’, que estréia hoje. O quadro de Jimenez ficou para o segundo semestre.

‘Soube disso tudo pelos jornais. Acho que mereço mais respeito, mas não vou ensinar ética para ninguém. Fico aqui, triste em minha casa’, diz a atriz.

Aposta

Ídolos infantil e juvenil da Globo, respectivamente, Pedro Malta, 9, e Kayky Brito, 15, vão trabalhar juntos em uma novela pela primeira vez. Serão irmãos em ‘Romance’, próximo título das 19h, netos dos hippies Vô Doidão (Luiz Gustavo) e Vó Doidona (Marília Pêra).

Regime

A Band negocia com Gilberto Barros uma mudança em seu contrato, que prevê um programa de segunda a sexta. A emissora quer que ele abra mão das segundas e sextas. No lugar, pretende colocar um humorístico e um programa de Fábio Jr. e Luiza Thomé.

Retrô

O canal Fox vai voltar a exibir dois seriados clássicos. ‘Viagem ao Fundo do Mar’ e ‘Terra dos Gigantes’ reestréiam em junho.’

***

‘Globo quer Fausto Silva por mais 5 anos’, copyright Folha de S. Paulo, 17/04/04

‘A Globo está propondo a Fausto Silva um contrato de mais cinco anos para apresentar o ‘Domingão do Faustão’, programa há 15 anos no ar e que passou por séria crise de identidade e audiência.

Faustão tem uma nova reunião marcada com a Globo no próximo dia 30. O apresentador se diz cansado do ‘Domingão’ e gostaria de fazer um outro programa, à noite. Ele não teme sair da Globo, mas não vê boas condições de trabalho na concorrência.

A tendência é a renovação com a Globo. Como moeda de troca, Faustão quer que o programa deixe de ser produzido no Rio e passe para São Paulo, onde ele mora.

Mas falta espaço e infra-estrutura nos estúdios paulistas. Não há camarins para as 20 bailarinas.

A solução definitiva só deve vir em 2006 ou 2007, quando a Globo ampliar suas instalações no Brooklin, com a construção de novos estúdios e prédio. Até lá, o ‘Domingão’ terá edições esporádicas em São Paulo. As próximas serão em julho e setembro.

A proposta de cinco anos para o novo contrato reflete o bom momento que vive o apresentador no Ibope. Seu último contrato, negociado em 2002, foi por apenas dois anos. Vence no final de 2004.

No auge da crise do ‘Domingão’, em 2001, Faustão foi superado por Gugu Liberato (‘Domingo Legal’, SBT), em São Paulo, em 50 dos 52 domingos do ano. Hoje, Faustão dá cerca de 25 pontos, 10 a mais do que o rival.

OUTRO CANAL

Lance

A Rede TV! tentou tirar da Globo o jornalista Caco Barcellos, correspondente em Paris. A emissora o queria à frente do popular ‘Repórter Cidadão’, que continuaria com polícia, mas com maior cobrança de direitos humanos. Apesar do dinheiro oferecido pela Rede TV!, o jornalista, autor de ‘Rota 66’, de denúncia à violência policial, deve se manter na Globo, onde ainda tem contrato.

Boca de urna 1

Não foi só porque Marcos Mendonça não partiu para o ‘confronto’, não registrando sua candidatura, que Jorge da Cunha Lima desistiu de concorrer à quarta eleição como presidente da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura).

Boca de urna 2

Lima já não era mais favorito e poderia perder as eleições. No início da semana, tinha 14 votos, contra 20 de Mendonça. Com esses números, nenhum dos dois se elegeria. São necessários pelo menos 23 dos 44 votos do conselho curador.

Mico Brasil

A transmissão do 50º Miss Brasil pela Band, anteontem, não foi um desastre como no ano passado, mas deu um show de anemia de infra-estrutura. Faltaram câmeras e microfones. E a ‘entrevista’ das misses, previamente ensaiada, foi o fim.

Fatura Brasil

A audiência foi boa para os padrões da Band. Miss Brasil deu 7 pontos, com picos de 12.’

***

‘Globo aprova projetos secretos dos 40 anos’, copyright Folha de S. Paulo, 15/04/04

‘A cúpula da TV Globo aprovou em reunião anteontem o orçamento dos cerca de dez projetos que irá realizar em comemoração dos seus 40 anos, que serão completados em 26 de abril de 2005.

Os projetos envolvem 40 programas regulares da emissora, que terão ações voltadas para a história da Globo, e também programas novos, além de filmes, shows e uma megaexposição.

Na reunião do chamado comitê (que reúne os principais executivos da emissora), Octavio Florisbal, diretor-geral interino, determinou o maior sigilo possível sobre o orçamento e o conteúdo do ‘Projeto 40 Anos’. Teme-se que a concorrência copie suas idéias ou se prepare para neutralizar parte de seu impacto na audiência.

Um dos projetos já vazou. Trata-se da versão para cinema de uma novela de Dias Gomes ou Janete Clair, considerados os autores mais importantes dos 40 anos da emissora. ‘Roque Santeiro’, ‘O Astro’ e ‘Pecado Capital’ são os títulos finalistas. Um deles será escolhido. Poderá haver ainda um filme sobre um programa de sucesso da história da emissora.

O processo de elaboração do projeto 40 anos começou em junho passado. Todas as áreas da emissora foram convocadas a dar idéias. Foram apresentadas 800 sugestões. Uma comissão de 15 membros passou então a selecionar as idéias. Sobraram 40 projetos, que foram submetidos ao comitê, que os reduziu a dez.

OUTRO CANAL

Martelo

Vão ser mesmo na casa de ‘Big Brother Brasil’ as gravações do ‘reality show’ musical ‘Fama’, que a Globo estréia em 5 de junho. Serão 14 os participantes na casa. O programa, com edição na linha de ‘BBB’, ganhará também um canal em ‘pay-per-view’ e versões no Multishow e em rede de rádio (aos domingos, às 10h).

Parlamentarismo 1

Deve sair até amanhã um acordo entre Jorge da Cunha Lima, presidente da TV Cultura desde 1995, e Marcos Mendonça, ex-secretário de Cultura do Estado, na disputa pela presidência executiva da emissora pública. Anteontem, Lima finalmente admitiu estar fazendo ‘composição’ com Mendonça.

Parlamentarismo 2

O acordo que se esboçava até ontem previa um dos dois como presidente executivo e outro como presidente do conselho curador _cargo que atualmente é simbólico, mas que deverá ter suas atribuições ampliadas.

Forças ocultas

Outrora líder dos telejornais vespertinos, José Luiz Datena tem sofrido para levantar a audiência da Band com seu ‘Brasil Urgente’, que anda patinando nos 3 pontos. Entra no ar com 1 ponto e perde até para a programação infantil da Cultura.

Suplicympsons

Em seu retorno à Globo, ‘Casseta & Planeta’ deu média de 40 pontos, recorde desde 2000. ‘A Diarista’ cravou 29.’



METAMORPHOSES
Bia Abramo

‘Cheiro de armação domina ‘Metamorphoses’’, copyright Folha de S. Paulo, 18/04/04

‘É péssimo para o espectador que as outras emissoras metam tanto os pés pelas mãos ao tentar concorrer com a Rede Globo.

A Record fez uma barulheira com a nova novela, exibiu trunfos como a direção de Tizuka Yamazaki, a participação dos escritores Mário Prata e José Louzeiro na elaboração da trama e a presença de atores como Paulo Betti, Joana Fomm, Miriam Muniz e Gianfrancesco Guarnieri, mas, a pouco mais de um mês da estréia, ‘Metamorphoses’ parece ter entrado em um processo de entropia irreversível.

Mário Prata e José Louzeiro já se mandaram faz tempo; Tizuka também abandonou a novela; o diretor do núcleo de teledramaturgia Del Rangel saiu da emissora e, na última semana, a equipe técnica foi demitida em plena gravação. O que transparece em todos esses episódios é a mão-de-ferro da produtora Arlette Siaretta e sua (ao que parece) indomável vontade de fazer uma novela-marketing em torno das benesses da cirurgia plástica.

É uma outra nova modalidade de ficção na TV esta novela cujo esforço máximo é o de vender uma idéia, uma atitude. Do slogan -’a novela que vai mudar sua vida’- às declarações de Siarettta, afirma-se e reitera-se a naturalidade do recurso à cirurgia plástica. Auto-estima em baixa, troca de identidade, acidentes graves: qualquer coisa parece ser pretexto para o telespectador ser submetido à cenas hiper-realistas em salas de cirurgia que deixam ‘ER’ no chinelo.

Essa insistência cheira a uma estranha obsessão pessoal da produtora Siaretta, que entrou em conflito aberto com Prata e Louzeiro e criou uma identidade misteriosa para a equipe de roteiristas anônimos que desenvolve suas idéias, mas também sugere uma enorme armação para incentivar (ainda mais) a noção de que é ok fazer cirurgia plástica em qualquer circunstância e, mais ainda, que qualquer infelicidade se cura com um bisturi.

Claro, há uma certa tensão entre a personagem do mal, a ambiciosa e inescrupulosa Diana (Luciene Adami), e os mais criteriosos personagens do bem, a meio-irmã Lia (Vanessa Lóes) e o médico Lucas (Luciano Szafir), mas em um roteiro tão precário quanto é o de ‘Metamorphoses’ nem chega a se caracterizar um confronto. De tão mal escritos, nem se consegue perceber pelos diálogos, que se constituem basicamente de frases soltas e rompantes de mau humor, quem defende o quê.

O que prevalece mesmo é a impressão causada pelas imagens de narizes retalhados, que vão perdendo o impacto por força da repetição, e os ‘antes/depois’ que documentam a padronização estética -narizes considerados ‘bonitos’, seios aumentados, rostos esticados- promovida por essa vertente quase que sempre mercantilista da medicina e que encontrou em Siaretta e sua ‘Metamorphoses’ um poderoso instrumento de marketing.’

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