Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > TERÇA-FEIRA, 15/08

Joel Silveira morre no Rio aos 88

Por Textos selecionados por Luiz Antonio Magalhães em 16/08/2007 na edição 446


Leia abaixo os textos de quarta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha Online


Quarta-feira, 15 de agosto de 2007


MEMÓRIA / JOEL SILVEIRA
Folha Online


Jornalista e escritor Joel Silveira morre aos 88 anos no Rio


‘O escritor e jornalista Joel Silveira morreu hoje aos 88 anos no Rio de Janeiro. Ele estava em casa e sofria de câncer de próstata.


Silveira estava doente há muitos anos. Nas últimas semanas, apresentou uma anemia profunda, piorando o quadro. Segundo sua filha Elisabeth Silveira, 61, ele morreu dormindo, às 8h.


‘Ele tinha um tumor há muitos anos e não quis fazer nenhum tratamento’, afirma ela. ‘Mas morreu em paz, como merecia.’


A pedido do jornalista, não haverá velório. A cerimônia de cremação ocorrerá na quinta-feira (16), no crematório da Santa Casa de Misericórdia. A despedida será iniciada às 14h. Silveira deixa três filhos.


Silveira tinha mais de 60 anos de carreira no jornalismo. Nascido em 1918 na cidade de Lagarto (SE), começou a trabalhar em um jornal local. Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 19 anos e trabalhou em grandes publicações, como ‘O Cruzeiro’, ‘Diretrizes’, ‘Última Hora’, ‘O Estado de S. Paulo’, ‘Correio da Manhã’ e revista ‘Manchete’.


Ele foi repórter especial, correspondente de guerra e lançou mais de 40 livros. Devido a seu estilo, o jornalista ganhou de Assis Chateaubriand o apelido de ‘a víbora’. Ficaram famosas duas grandes reportagens sobre a sociedade paulistana, ‘Eram Assim os Grã-Finos em São Paulo’ e ‘A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista’.


Um dos maiores destaque de sua carreira foi a cobertura que realizou da Segunda Guerra Mundial na Itália, junto à FEB (Força Expedicionária Brasileira), como correspondente dos ‘Diários Associados’.


Silveira ganhou da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Em 2001, concorreu a uma vaga na Academia Brasileira de Letras em 2001, para a cadeira de Jorge Amado, que morreu naquele ano.


A candidatura era uma alternativa à de Zélia Gattai, que ganhou a eleição com 32 votos contra quatro. Segundo o jornalista, Zélia estaria sendo aclamada à época ‘por ser viúva de Amado, não por ser escritora’. No ano anterior, o jornalista havia entrado na disputa pela cadeira que foi de Barbosa Lima Sobrinho, mas desistiu diante da candidatura do jurista Raymundo Faoro.


Em maio deste ano, Silveira foi homenageado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) no segundo congresso internacional organizado pela entidade. Ele também ganhou prêmios como Líbero Badaró, Esso e Jabuti.’


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O Estado de S. Paulo


Quarta-feira, 15 de agosto de 2007


EUA / MÍDIA & POLÍTICA
Michael Tomasky


Ação de Rove prejudicou imagem de Bush


‘The Guardian, Washington – Os conselhos de Karl Rove ajudaram George W. Bush a tornar-se um dos piores presidentes da história. Na campanha de 2000, Rove dizia que Bush era um novo William McKinley, cuja vitória na eleição de 1896 foi o prenúncio de uma era de domínio republicano que durou até o triunfo de Franklin Roosevelt, nos anos 30. Não é necessário dizer que o cérebro por trás dessa mudança de paradigma foi o próprio Rove, gênio que fundou uma nova era em que os EUA aderiram ao conservadorismo. Rove, que anunciou sua renúncia na segunda-feira, deixa dois outros legados: incompetência e má-fé.


Em primeiro lugar, Rove e Bush não venceram a eleição presidencial de 2000. Al Gore ganhou por 500 mil votos. Contudo, Bush venceu na Suprema Corte. Os americanos tiveram de aceitar o veredicto e seguir em frente. Mas nada muda o fato de Bush ter vencido por cinco votos, dados pelos juízes.


Bush seguiu sem sobressaltos até o furacão Katrina. O papel específico de Rove nesse desastre ainda é um mistério. Enquanto cidadãos morriam em New Orleans, o presidente estava no Arizona, brincando com uma platéia de pessoas da terceira idade.


Em resumo, Rove freqüentemente deu ao seu presidente conselhos terríveis. E, apesar de o Iraque ser a principal razão do colapso de Bush e de ter sido um projeto de Dick Cheney e Donald Rumsfeld, Rove fez sua parte para assegurar que o presidente deixe Washington como um dos piores da história.


No campo da má-fé, as evidências são inúmeras. Quando Rove concorreu à presidência do centro acadêmico conhecido como College Republicans, realizou seminários para ensinar técnicas aos funcionários que trabalhavam na campanha, tais como revirar latas de lixo dos oponentes e atacar o patriotismo das pessoas contrárias às iniciativas adotadas por Bush após o 11 de Setembro.


O resultado final? O índice de aprovação do seu presidente está em 31% e ele passará para a história como um fracasso. Na opinião de muitos americanos, o país vai mal, como há um bom tempo não se via. O Oriente Médio é um barril de pólvora. O terrorismo está em ascensão. No entanto, há um lado positivo. Rove pode, de fato, ter colaborado para um realinhamento político, mas não aquele que ele tinha em mente.’


INTERNET
O Estado de S. Paulo


WWF inaugura ilha no Second Life


‘O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) inaugurou ontem um espaço próprio no ambiente virtual Second Life, com o objetivo de conscientizar os usuários sobre a importância da preservação de espécies. Na ‘Ilha da Preservação’, o visitante poderá interagir com diferentes animais. O Second Life permite aos usuários entrar em um mundo virtual interativo e já conta com mais de 6 milhões de usuários.EFE’


TELECOMUNICAÇÕES
Renato Cruz


Telefônica lança TV por assinatura


‘A operadora de telefonia Telefônica entrou definitivamente no mercado de TV paga. Desde domingo, a empresa oferece um serviço de TV por assinatura com licença própria, batizado Telefônica TV Digital. Em março, a empresa recebeu uma autorização de televisão por satélite da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e seu presidente no Brasil, Antônio Carlos Valente, vinha dizendo que o serviço seria lançado ‘nas próximas semanas’. Apesar de ter colocado na rua uma campanha para o Trio Telefônica, pacote que une telefonia, televisão e internet rápida, a empresa não fez anúncio à imprensa sobre o assunto.


Com o pacote, a Telefônica consegue fazer frente à parceria entre a Net e a Embratel, empresas do grupo mexicano Telmex, principal concorrente da Telefônica na América Latina. Com seu pacote de três serviços (ou triple play, como gostam de dizer os especialistas), a Net tem conseguido conquistar alguns dos clientes residenciais mais lucrativos da Telefônica. A Net chegou a junho com 354 mil assinantes de voz, sete vezes mais do que tinha há um ano.


O pacote Trio Telefônica está disponível para São Paulo, com preços a partir de R$ 69,90. O pacote inclui os serviços da TVA, onde existe cobertura da operadora. A Anatel deu anuência prévia à compra de participação na TVA pela Telefônica, com restrições exatamente à operação em São Paulo – a agência pediu uma mudança no contrato de compra. A Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA) é contra as concessionárias de telefonia fixa local entrarem no mercado de TV paga em sua área de concessão. E é exatamente isso o que a Telefônica fez com o pacote lançado agora.


‘A Telefônica não tem interesse em popularizar a TV paga’, afirma Francisco Valim, presidente da Net, rebatendo um dos argumentos usados pela concorrente. ‘Uma prova disso é que não lançou o serviço fora de sua área de concessão.’ A Net também tem pacotes triple play com preços a partir de R$ 69,90.


A ABTA teme que as concessionárias (Telefônica, Oi e Brasil Telecom) usem o seu domínio no mercado de telefonia fixa para esmagar a concorrência na televisão por assinatura. A Telefônica tem 92% do mercado de telefonia fixa em São Paulo, onde é concessionária.


Antes de lançar seu serviço próprio, a Telefônica atuava por meio de uma parceria com a DTHi, com quem conquistou cerca de 120 mil assinantes de TV via satélite. A Telefônica tem uma opção de compra da DTHi.


TELEVISÃO
Leila Reis


Ele adora fazer barbaridades em Paraíso Tropical


‘Na opinião de muita gente, a melhor coisa da novela Paraíso Tropical é Olavo. O vilão interpretado pelo baiano Wagner Moura é, segundo ele, uma distorção do capitalismo selvagem. O sujeito que consome o tempo armando todas para destruir o rival Daniel (Fábio Assunção) e subir na vida dá muito trabalho para Wagner, a ponto de ele não poder testar nas ruas a sua popularidade: ‘Minha vida é do Projac para casa.’ No intervalo das inúmeras cenas que grava diariamente, o ator atendeu o Caderno 2. Nesta entrevista exclusiva, ele conta que, depois de deixar o atormentador Olavo, vai encarar o atormentado Hamlet, sob direção de Aderbal Freire Filho no teatro.


Qual cena você acabou de gravar?


Uma em que conheço a personagem da Débora Secco, uma garota contratada pela Bebel (Camila Pitanga) para melar meu casamento com Alice (Guilhermina Guinle).


O Olavo é o grande esperto ou o grande otário do pedaço?


Acho que nem uma coisa nem outra. É um sujeito equivocado, deformado pela criação, pela perda do pai e pela relação com a mãe. Ele é o arquétipo do capitalismo selvagem, uma distorção.


Você acha que o caráter do Olavo representa uma parcela da população brasileira? Qual?


Esse tipo não existe só no Brasil. No mundo inteiro há gente que não poupa esforços para conseguir o que quer. E em todas as classes sociais: existem pobres mau-caráter, gente de classe média que não vale nada, pessoas que perdem toda a noção da ética, da solidariedade, mas que não se enxergam como vilões. Uma fala do Olavo expressa isso: ‘A função social das empresas é ganhar dinheiro, porque só assim elas geram emprego.’ Achar que o dinheiro é um fim em si é o grande equívoco.


Qual é a dor e a delícia de ser Olavo?


É muito divertido, porque ele não tem limites morais, ao contrário da gente. O legal é poder fazer barbaridades sem causar mal a ninguém de verdade. Por isso, acho que não há dor ao fazer o Olavo


Qual a pior maldade dele?


Foi o plano mirabolante de incriminar Daniel (Fábio Assunção) na Bahia, em que envolveu chantagem, menor de idade, polícia. Forte também a primeira cena em que ele escorraça a mãe (Vera Holtz) do escritório.


Esse era o papel que você pediu a Deus?


É um superpersonagem. Um vilão de Gilberto Braga é o papel que qualquer ator pediu a Deus.


É seu melhor papel na televisão?


O melhor é aquele que estou fazendo na hora.


E o ruim?


Não tem. O bom de novela é que, por ser muito longa, dá para consertar o personagem quando ele sai fora do trilho. Vai-se assistindo e acertando.


Como foi estar todo dia na novela das 8, mudou sua vida?


Não percebo porque ando muito pouco na rua. Minha vida é do Projac para casa. E lógico que a novela das 8 é mais popular do que todos os trabalhos que fiz até hoje. Quando estou na rua, no supermercado, as pessoas brincam comigo, falam coisas engraçadas sobre o Olavo.


Quando você morava na Bahia, tinha a fantasia de ser um ídolo popular?


Não, sou um cara de teatro, muito orgulhoso do teatro baiano em que atuei durante dez anos. Mas queria vir para o sul para trocar mais com outros atores. Quando vim para cá fazer A Máquina, do João Falcão, eu queria isso: encontrar outros artistas.


Como a TV entrou na sua vida?


Foi uma conseqüência do trabalho no cinema. Depois que fiz Deus É Brasileiro, Antonio Fagundes me levou para fazer Carga Pesada. Eu era o filho do Bino, personagem de Stênio Garcia. Sinto saudade da série Sexo Frágil, escrita e dirigida por João Falcão, porque era uma coisa experimental, quase teatro na televisão.


Você tem uma trajetória consistente em teatro e cinema. De qual expressão você gosta mais?


Nunca rejeitei a TV, mas quando vim para cá tinha o objetivo de fazer cinema. Mas gosto muito de teatro, porque ele mudou minha vida. Comecei com 15 anos, aprendi valores que me acompanham para sempre e encontrei a minha turma.


Qual é o seu modelo de ator?


Sou fã de Pedro Cardoso, assim como Wladimir Brichta e Lázaro Ramos também são. O trabalho da gente tem um pouco dele, nós imitamos o Pedro Cardoso, que é um gênio.


Em A Lua me Disse você foi protagonista. Gostou de ser galã?


Tenho orgulho de tudo que fiz na vida, porque fiz com paixão.


O que você considera bom e ruim na televisão?


Não acho que a TV tenha obrigação de educar, essa função cabe à escola. Existem profissionais que elevam o nível da TV, os programas do doutor Drausio Varela, por exemplo, são maravilhosos. Mas acho que TV é entretenimento, acho a cobrança da função educativa é exagerada. Dentro do entretenimento, as novelas são muito bem-feitas.


E o que tem de ruim?


Não gosto de programas de fofocas, assim como não gosto de revistas de fofocas.


Qual atividade te deu mais dinheiro?


A televisão, sem dúvida nenhuma.


Qual seu projeto para depois da novela?


Vou produzir e atuar em Hamlet, dirigido pelo Aderbal Freire Filho.


Com o dinheiro que ganhou na TV?


Nada disso, pretendo captar recursos para ver se faço a estréia em abril.’



Keila Jimenez


Getúlio no cinema


‘O cinema deve presenciar em breve uma união ligeiramente inusitada. O ex-Globo e atual autor da Record Lauro César Muniz se uniu ao diretor campeão de bilheteria da Globo Filmes, Daniel Filho, para a produção de um longa-metragem.


Trata-se da história dos últimos 19 dias de vida de Getúlio Vargas, projeto antigo de Daniel Filho. ‘O tema sempre me fascinou. Quando fiz a minissérie Aquarela do Brasil, voltamos a falar no assunto’, conta Muniz. ‘Há três meses, Daniel me procurou e disse que queria fazer um filme comigo. Sempre nos demos muito bem em todos os projetos de televisão.’


Salvador da Pátria e Chiquinha Gonzaga são algumas das obras do autor na Globo com a supervisão de Daniel.


Mas se engana quem pensa que a Globo Filmes entrou na história – não por enquanto. O filme sobre Getúlio é, a princípio, um projeto da produtora de Daniel Filho, a Lereby -fato que Muniz faz questão de frisar, uma vez que trocou de emissora.


O autor, que assinou contrato com Daniel para a produção do longa até 2008, está com uma peça em cartaz, O Santo Parto, e prepara uma novela para suceder Caminhos do Coração na Record.


entre- linhas


O SBT está dando prejuízo. Segundo balanço de 2006 do Grupo Silvio Santos, divulgado pelo Meio & Mensagem, o SBT registrou queda de 4,8% em sua receita bruta, fechando o ano com prejuízo de R$ 3,2 milhões.


A explicação no relatório para o rombo é o fato de o SBT estar se preparando para o início das transmissões digitais, o que consumiu investimentos iniciais na casa de US$ 10 milhões.


Apesar do esvaziamento do esporte na Record, não é por agora que sai do ar o Terceiro Tempo, de Milton Neves. A emissora misteriosamente voltou atrás e resolveu manter a atração mais um tempo no ar. O motivo: não seria o longo e bem amarrado contrato de Neves?


Produzir um evento ao vivo a cada 60 dias, sempre com data digna de grande tributo, faz parte dos planos da TV Cultura. A idéia se reforça depois de experiências bem-sucedidas como o debate especial Batalhas da Lei, no 9 de Julho, e o documentário Ultimato à Ditadura, mais o show 180 x Onze, no 11 de agosto.


Ainda na Cultura: hoje o Conexão Roberto D’Ávila traz a atriz Zezé Polessa, às 23h30.


O canal VH1 estará com o sinal aberto para os assinantes da Sky, entre os dias 24 e 31, e da Net, entre os dias 24 e 26.


Assim como em Senhora do Destino, Duas Caras, próxima novela de Aguinaldo Silva na Globo também terá um enorme salto no tempo: 10 anos.’


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Folha de S. Paulo


Quarta-feira, 15 de agosto de 2007


SP SEM PUBLICIDADE
Ruy Castro


Cidade limpa


‘RIO DE JANEIRO – Na última vez em que estive em São Paulo, há três meses, gostei de ver como a cidade ficou mais limpa sem os painéis de propaganda que lhe davam um certo ar de página dupla de revista de supermercado. E gostei também de ver como a antiga desordem das fachadas comerciais estava sendo contida pela autoridade.


Fiquei sabendo que esse processo de disciplina urbana se propõe a limpar São Paulo dos grafites e pichações, restaurar prédios antigos, recuperar praças, cuidar do mobiliário urbano -enfim, devolver a cidade aos cidadãos. O raciocínio é simples: quanto mais agradável um logradouro, mais ele será ocupado por quem deve de direito ocupá-lo, que são as pessoas de bem.


Disseram-me que, no começo, houve uma grita contra essas medidas do prefeito Gilberto Kassab. Os publicitários chiaram porque perderam uma cidade inteira onde pendurar seus outdoors. E os comerciantes, que não viam limites para tomar as ruas e calçadas com faixas e tabuletas, também não gostaram. Paciência.


Não conheço o prefeito Kassab, não sei a que partido pertence e não preciso saber. Mas gostaria que o Rio adotasse algumas medidas que ele está executando em São Paulo.


Aqui já há leis profiláticas que proíbem outdoors na maioria das ruas. Mas não há nenhuma que regule a agressividade dos letreiros e fachadas comerciais. Qualquer rede de bancos, farmácias, supermercados, loja de colchão ou de casa e vídeo se sente no direito de esbofetear o transeunte com suas cafonices gigantes, vermelhas ou amarelas, e sempre encobrindo um magnífico prédio.


O Rio é candidato a patrimônio da humanidade junto à Unesco, na categoria Paisagem Cultural. Merece e pode levar. Mas não com esses estupores que conspurcam a paisagem e a cultura. Xô com eles.’


CASO RENAN
Fernanda Krakovics e Silvio Navarro


Renan ataca usineiro antes de depoimento


‘Em busca de apoio na Casa, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou ontem que não tem ‘alma ou pendor para inquisidor’ ao negar, em discurso no plenário, que esteja fazendo ameaças veladas aos colegas na tentativa de derrubar eventual pedido de cassação de seu mandato.


Ele atribuiu as denúncias de corrupção contra ele a adversários políticos, particularmente o ex-deputado federal João Lyra (PTB-AL), e atacou mais uma vez o Grupo Abril, apontando supostas irregularidades na operação de venda da TVA para a espanhola Telefônica.


O presidente do Senado voltou a negar que tenha comprado, por meio de ‘laranjas’, rádios em Alagoas com dinheiro de origem desconhecida. O corregedor da Casa, senador Romeu Tuma (DEM-SP), irá ao Estado amanhã ouvir João Lyra, que afirma ter sido sócio de Renan nesse negócio.


Sem citá-lo nominalmente, Renan tentou desqualificar Lyra. ‘Isso é promovido pela revista ‘Veja’, com a cumplicidade de poucos adversários na política alagoana. Agora já conhecemos seus nomes, sobrenomes e faces. Um deles [Lyra], acusado de vários homicídios, processado por crimes de mando, responde a processos de sonegação fiscal. Nessa questão, é um réu confesso. São interesses políticos paroquiais embalados pelo rancor sem limites.’


Segundo a assessoria de Lyra, os ataques do senador são uma tentativa de desviar o foco das denúncias contra ele. O usineiro promete entregar a Tuma documentos comprovando a sociedade com Renan.


O Grupo Abril informou, ontem, que não se manifestaria diante das novas acusações de Renan. Prevalece a nota divulgada na última quinta-feira, em que afirma que a reação é ‘fruto do desespero do senador’.


Renan chamou de ‘criminosa’ a operação de venda da TVA para a Telefônica e desqualificou a revista. ‘Matérias jornalísticas profundamente indignas, servindo a interesses subalternos e turvando fatos, objetivavam manter incógnita uma bilionária transação contrária ao interesse nacional, envolvendo o Grupo Abril, que publica a revista ‘Veja’, disse.


O peemedebista explicou como obteve informações sobre o negócio: ‘Tivemos conhecimento dessa criminosa operação pela publicação do voto do conselheiro Plínio de Aguiar Júnior [Anatel] na internet e, posteriormente, pelo voto do conselheiro [Ronaldo] Sardenberg, que desempatou em favor da prévia anuência, para que essa operação danosa ao interesse nacional pudesse realizar-se’, disse ele.


Alvo de três representações por indícios de quebra de decoro, Renan disse confiar no julgamento dos pares. ‘Não reviverei o processo de Sócrates, condenado a beber cicuta na prisão de Atenas, por um tribunal político que julgou em nome de ressentimentos e motivos distanciados da verdade.’


Obstrução


Para piorar a situação de Renan, o PSDB e o DEM começaram ontem a obstruir as votações, o que pretendem fazer até que ele se licencie do cargo.


Desde a semana passada esse é o terceiro discurso de defesa de Renan feito em plenário.


Reportagem da Folha no último domingo revelou que o senador continua fazendo ameaças veladas aos colegas. Nos bastidores, tem chamado o senador Jefferson Péres (PDT-AM) de ‘flor do lodo’ e diz que ele foi acusado de gestão fraudulenta de uma empresa na década de 50.


Péres – primeiro a pedir o afastamento de Renan da presidência – disse que toda a diretoria de uma siderúrgica em que trabalhava foi acusada de apropriação indébita quando a empresa faliu sem recolher encargos trabalhistas.


‘Desprezo qualquer forma de rancor e tenho profundo respeito por meus pares. Não cometeria a imprudência e a indignidade de constranger ninguém. Fiquem certos de que não tenho alma ou pendor para inquisidor’, disse ele. Renan referiu-se a Péres como ‘referência moral’ e ‘figura ímpar a quem reconheço como paradigma a ser seguido’. Fez acenos também ao líder do DEM, senador José Agripino (RN), contra quem fez insinuações na semana passada. ‘Todos sabem que tensionamentos políticos, eventualmente, produzem discussões mais acaloradas que nossa serenidade gostaria.’’


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REVISTA: EDITORA ABRIL MANTÉM NOTA JÁ DIVULGADA


‘O Grupo Abril informou, ontem, que não se manifestaria diante das novas acusações do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre as reportagens da revista ‘Veja’ e a transação entre a TVA e a Telefônica. Prevalece a nota divulgada na última quinta-feira, em que afirma que a reação é ‘fruto do desespero do senador’.’


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Boas vindas ao medo


‘Na manchete do WSJ.com, a queda em Wall Street pelos ‘temores sobre o consumo e os novos sinais de problemas no crédito’. E na do FT.com, o apelo do presidente do banco central europeu, por ‘calma’.


Por aqui, na manchete dos portais e sites de jornais, Bovespa ‘despenca’ e dólar ‘dispara’. Ou, pela voz calma de Fátima Bernardes, ‘o nervosismo voltou’.


De volta ao ‘FT’, ontem falou o oráculo, por Martin Wolf, referência global, sob o título ‘O medo faz um retorno bem-vindo’. Diz que ‘mercados financeiros, e particularmente seus grandes atores [big players], precisam de medo’. E agora vem aí ‘um período de reconhecer perdas’ e ‘apertar condições de crédito’.


BRASIL VS. EUA


Por aqui e até na Índia, no ‘Economic Times’, se noticia o embate entre Brasil e EUA, daqui a dias na Organização Mundial do Comércio, por conta do subsídio americano à agricultura. A novidade é que a Índia pediu para tomar parte -ao lado do Brasil.


ONU E O ETANOL


O ‘FT’ publicou artigo do diretor da FAO, a organização de agricultura da ONU, com a proposta de fazer uma cúpula sobre regras para o álcool. A idéia é que o etanol, como produzido por EUA e Europa e com barreiras à importação, ameaça ampliar a pobreza.


O FUTURO DA ILHA


Enquanto a concorrente ‘Piauí’ vai de FHC, a ‘Caros Amigos’ dá na capa, ‘Estreamos novo colunista: Fidel’.


Já o ‘Granma’, ontem, anunciou ‘profunda reflexão do comandante’, série de quatro ou cinco textos a saírem a partir de hoje. Seu ‘interesse é que fatos decisivos da história pátria sejam conhecidos pelas novas gerações’.


E ontem no ‘El País’ Jorge Castañeda escreveu que a ‘prolífica produção de colunas’ por Fidel e outros fatos ‘geram discussão sobre o futuro da ilha, quando sua era acabar’. Pergunta aos cubanos se, ‘em uma semana ou em dois anos’, eles se unirão à democracia que marca a América Latina ou vão seguir no histórico isolamento.


O PÚBLICO BRANCO


O ‘Berliner Zeitung’ tratou ontem da ‘compreensível’, na tradução da BBC, busca de alternativas de mídia pelos governos da América Latina, ‘sobretudo de esquerda’.


Cita a Globo, que ‘nenhum governo ousou enfrentar’, e a ‘Veja’, que faz ‘jornalismo crítico, mas dirigido a público branco de classe média’.


OUTRAS ONDAS


O ‘Independent’, no novo caderno ‘Media Weekly’, deu longa reportagem sobre a implantação em Parada de Lucas, no Rio, de uma rádio digital. ‘A idéia é manter os garotos longe das gangues de drogas’, declarou o britânico que monta a emissora junto com o AfroReggae, que atua em várias favelas cariocas.


‘INDIGNAÇÃO’


De um lado, o ‘JN’ volta a priorizar o acidente e ‘a pista escorregadia’. De outro, na reta final, o Cansei apela às estrelas em seu blog, que traz no alto Hebe Camargo (SBT), Ivete Sangalo, Regina Duarte e Ana Maria Braga (Globo)


‘PERSEGUIÇÃO’


Enquanto o ‘SPTV’ abria com as cenas gravadas pela Polícia Civil para a prisão, ecoava por portais como iG e G1 o vídeo feito pelo próprio Oscar Maroni Filho, da ‘boate Bahamas’, denunciando ‘perseguição’, ao som de ‘Fera Ferida’, de Roberto e Erasmo.’


TELECOMUNICAÇÕES
Folha de S. Paulo


Costa defende ‘megatele’ sem estrangeiras


‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse ontem que o governo deve estudar formas de ‘assegurar’ que eventual fusão entre Oi (antiga Telemar) e Brasil Telecom para a formação de uma grande tele nacional não tenha interferências de empresas internacionais.


‘Existe alguma forma de assegurar que essa grande empresa de capital brasileiro não seja assaltada e comprada por uma empresa poderosa estrangeira? Acho que sim’, disse.’


TELEVISÃO
Daniel Castro


Telefônica já vende só TV paga em S. Paulo


‘A Telefônica já está vendendo isoladamente assinaturas de TV paga na cidade de São Paulo. Antes, a empresa oferecia apenas combinados de TV paga com telefonia e internet e somente no interior do Estado.


A operadora de telefonia lançou no último final de semana seu próprio serviço de TV paga, o Telefônica TV Digital. Em março, obteve da Anatel licença para operar seu próprio serviço de DTH (TV paga via satélite). No final de 2006, para concorrer com a Net, que passou a vender telefonia, a Telefônica fez uma parceria com a DTHi, que já tinha licença de DTH.


A parceria com a DTHi continua, mas agora a Telefônica só oferece pacotes combinados de TV paga, telefonia e internet com os serviços próprios ou da TVA _que está comprando.


O pacote mais barato da Telefônica tem 18 canais (entre eles Sony e Warner) e custa R$ 69,90. É possível agregar minipacotes (como infantil) por R$ 12. O de filmes HBO Max Digital sai por mais R$ 30. A Telefônica não carrega canais públicos (TV Senado) ou abertos. Também não distribui os canais da Globosat.


A Net vende um pacote por R$ 49,90, basicamente composto por canais abertos e públicos. O pacote mais barato da Sky sai por R$ 88,90, e é bem maior (tem os SporTV).


Os combinados da Telefônica de TV, internet e telefonia custam a partir de R$ 69,90 (R$ 148,70 após três meses).


CARA NOVA A TV Cultura está fazendo testes para achar novos apresentadores do ‘Jornal da Cultura’. Ainda não está decidido se Heródoto Barbeiro passa a ser apenas comentarista.


SEMENTE Não vingaram as mudanças feitas pela Record no ‘Programa da Tarde’, que agora tem Olivier Anquier. A audiência continua em queda. O programa, que chegou a ter média mensal de 6,5 pontos em abril, registra 4,6 em agosto.


DESGASTE ‘Tela Quente’, a principal sessão de filmes da Globo, também está em baixa. Desde 2005 (35,1), vem perdendo um ponto por ano. Até este mês, registra 33,2. ‘Garganta do Diabo’, título de anteontem, marcou 29 pontos _uma das mais baixas.


PLÁSTICA 1 O autor Aguinaldo Silva acompanhou atentamente a história da prisão de um traficante colombiano, em São Paulo, na semana passada. É que o protagonista de ‘Duas Caras’, próxima novela das oito, interpretado por Dalton Vigh, também apelará a cirurgias plásticas para mudar o rosto.


PLÁSTICA 2 ‘Fiquei impressionado. Tenho impressão que o médico do traficante pode ter sido o mesmo cubano que operou José Dirceu’, alfineta Silva. Em ‘Duas Caras’, o cirurgião plástico será hondurenho, a ser interpretado por um argentino.


FALTOU ESTILO A Record desistiu de tirar os programas de Milton Neves do ar, que até a semana passada considerava bregas.’


Laura Mattos


Alô, São Paulo


‘O canal HBO queria produzir um seriado sobre São Paulo, a cidade. Nada melhor do que um cineasta cearense e outro baiano para comandar o projeto.


‘Tá tudo dominado. Em São Paulo, tem mais nordestino do que paulistano’, brinca Sérgio Machado. Natural de Salvador, o diretor do premiado longa-metragem ‘Cidade Baixa’ (2002) foi escolhido para roteirizar e dirigir a série ‘Alice’, que a HBO já filma em diversos pontos da capital paulista.


Ele foi contratado para atuar ao lado de Karim Aïnouz, que nasceu em Fortaleza, dirigiu ‘Madame Satã’ (2002) e ‘O Céu de Suely’ (2006) e se tornou um dos mais badalados nomes do cinema nacional.


‘Quem mora em São Paulo há muito tempo pode acabar com o olhar neutralizado para algumas coisas pulsantes da cidade. Era bacana que fosse alguém de fora para haver um encantamento’, diz Aïnouz.


Ele fala dele e de Machado, mas também de Alice, a protagonista da série. A jovem vem de Palmas, a capital de Tocantins, em busca de uma herança. A viagem seria breve, mas acaba por não ter fim. ‘Escolhi Palmas pela contradição com SP. É um lugar planejado, organizado e subpopulado. Mas também é primo, porque todo mundo vem de fora’, fala Aïnouz.


Alice vai passar por vários cenários paulistanos -e a partir deles, reavaliar sua história e seu destino-: do vale do Anhangabaú às calçadas chiques da rua Oscar Freire, de um desfile de moda na Faap a uma festa de ‘pegação’ com ricaços numa mansão do Morumbi.


Conhecerá a Mostra Internacional de Cinema de SP e seu diretor, Leon Cakoff, que faz uma ponta, e verá uma luta livre com o lendário Trovão.


Na última sexta-feira, a Folha acompanhou a filmagem de uma cena em que Alice chega a um boteco e se depara com lindas garotas se socando ao lado do lutador em um ringue. O set, alugado pela Gullane Filmes, co-produtora de ‘Alice’, fica em um galpão no bairro do Cambuci (região central), que, apesar de empoeirado, tem cores e luz natural inspiradores.


Aïnouz e Machado contam que o seriado mostrará ainda punks, rappers, prostitutas, bolivianos, japoneses no bairro da Liberdade e os milionários que só se deslocam de helicóptero.


A intérprete de Alice foi escolhida após cerca de mil testes. Andréia Horta pode ser considerada um lançamento HBO. Aos 24, a atriz mineira tem no currículo, além de peças teatrais, apenas papéis pequenos na televisão (Márcia Kubitschek, na minissérie ‘JK’, da Globo, e Renata na novelinha ‘Alta Estação’, da Record).


A garota Daniela Piepszyk, elogiada pela atuação no filme ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’, interpreta uma meia-irmã de Alice. O global Eduardo Moscovis faz o papel de namorado da moça. Regina Braga e Walderez de Barros são tias de Alice. Além de outros atores do núcleo central, haverá participações especiais, como a atriz Tereza Rachel e Jorge Loredo, o Zé Bonitinho.


‘Alice’ é um título provisório, e a HBO busca acrescentar a ele algo que tenha relação com SP. As filmagens seguem até o fim do ano, e a estréia é prevista para o início de 2008.’


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Cineasta vê ‘Paraíso Tropical’ como ‘lição’ para fazer TV


‘Badalado nome do chamado ‘cinema de autor’, Karim Aïnouz (‘Madame Satã’, ‘O Céu de Suely’), 36, conta que havia parado de ver TV há anos, por razões ‘ideológicas marxistas’.


Diretor de filmes absolutamente distantes da linguagem melodramática da televisão, Aïnouz se surpreendeu com o convite para a direção do seriado ‘Alice’, do canal HBO, que será veiculado no Brasil e na América Latina em 2008.


Para encarar o projeto, decidiu ver novela. ‘Assisto a ‘Paraíso Tropical’ todos os dias. Sei tudo o que acontece com a Paula e a Taís’, conta, rindo. ‘Sempre digo que meus filmes não são de história. Meu desafio agora com ‘Alice’ é narrar, fazer as pazes com a narrativa.’


Aïnouz, antes da interrupção marxista, era fã de novelas e colecionava discos com as trilhas sonoras. ‘Essa é a minha referência pop brasileira.’


Em ‘Alice’, revela, fará uma homenagem a ‘Dancin’ Days’ (1978), escrita por Gilberto Braga, assim como ‘Paraíso Tropical’. Alice protagonizará a cena da entrada triunfal de Júlia Matos (Sônia Braga) na discoteca, calçando sandálias de salto com meias de lurex.


Com ‘Paraíso Tropical’, Aïnouz passou a pensar sobre a necessidade de criar núcleos e não deixar toda a história concentrada na protagonista. ‘Isso é necessário na televisão, até porque seria impossível que a atriz principal filmasse o tempo todo. Ela ficaria esgotada.’


Ele também está atento aos ‘ganchos’, isto é, às cenas exibidas no final de cada capítulo que fazem o público querer assistir ao próximo. ‘Em ‘Alice’, obviamente, não teremos esse gancho folhetinesco. O desafio é fazer com que o espectador queira acompanhar a história daquela menina’, explica.


Já Sérgio Machado, 38, diretor de ‘Cidade Baixa’ (2005), afirma quase nunca ligar o televisor, a não ser para ver DVDs e o canal infantil Discovery Kids com o filho de três anos.


‘Novela, nem pensar. Detesto ver algo que não acaba no mesmo dia. Esse é um desafio na hora de escrever os episódios de ‘Alice’. Sempre quero contar tudo de uma vez, e o Karim fica me pedindo para colocar os ganchos’, diverte-se.


Preço de cinema


Não foi à toa que a HBO escolheu dois cineastas para a direção de ‘Alice’. Desde que passou a produzir séries na América Latina, o canal optou por uma linguagem mais cinematográfica. No Brasil foi assim com ‘Mandrake’, de José Henrique Fonseca, e ‘Filhos do Carnaval’, de Cao Hamburger, que terão uma segunda temporada.


O investimento também está mais próximo do cinema do que da TV. ‘Alice’ é filmada em película, e a produção de cada um de seus 13 episódios tem orçamento de R$ 1 milhão, financiados majoritariamente por um mecanismo de incentivo da Ancine (Agência Nacional do Cinema).’


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G1


Quarta-feira, 15 de agosto de 2007


MEMÓRIA / JOEL SILVEIRA
G1


Joel Silveira morre no Rio aos 88 anos


‘O jornalista Joel Silveira, 88 anos, morreu de causas naturais às 8h desta quarta-feira (15), na sua casa, em Copacabana, Zona Sul do Rio.


Ainda na primeira metade do século passado, Silveira ganhou o apelido de ‘Víbora’ por conta de uma reportagem que desagradou profundamente a elite paulistana. Recheada de críticas ao comportamento daquela burguesia emergente, a reportagem acabou consagrando o jovem repórter, que deixara seu Sergipe natal e se estabelecera no Rio de Janeiro.


O jovem sergipano era de esquerda e vivia em conflito com o pai, que considerava um burguês abastado. A dificuldade de relacionamento o empurrou para o Rio, aonde já chegou decidido a virar jornalista. Trabalharia ainda nos principais órgãos de imprensa.


Correspondente de guerra


Contratado pelos Diários Associados, Silveira cobriu os mais importantes episódios da história do Brasil no século XX. Conheceu, conviveu ou privou da intimidade de praticamente todos os presidentes do período democrático anterior ao golpe militar de 1964. Enfrentou Getúlio Vargas no Palácio do Catete, conviveu na Câmara com o então deputado Juscelino Kubitschek e foi companheiro de copo de Jânio Quadros.


Não bastasse, cobriu como correspondente a 2ª Guerra Mundial. A maioria de suas reportagens está registrada nos arquivos dos jornais e em dezenas de livros que lançou ao longo da carreira.


Para conseguir uma entrevista com Getúlio Vargas, quatro meses antes do suicídio, mentiu ao chefe da Casa Civil, Lourival Fontes, dizendo que queria um emprego. É que o presidente não queria, de maneira alguma, dar entrevistas. Como se tratava de um pedido de trabalho, o presidente recebeu o repórter, a quem disse: ‘Oi, doutor Silveira, que prazer.’ Ele esclareceu que não era doutor, pois só estudara até o segundo ano de Direito, mas Getúlio retrucou dizendo: ‘Não, doutor é quem é douto em alguma coisa e o senhor é douto em jornalismo’. Eles riram e Silveira conseguiu a entrevista.


Com Jânio Quadros, a aversão inicial transformou-se em admiração e amizade. Silveira conviveu intimamente com o presidente, viajaram juntos e, sobretudo, beberam juntos. No livro Viagem com o Presidente Eleito, Silveira conta os dias que passaram num navio, logo depois da eleição. Conta que o presidente, a quem nunca viu bêbado, às vezes bebia duas garrafas de uísque numa noite. ‘Um espanto’, se admirava o jornalista.


Com Juscelino, a convivência foi quase fraterna. Dividiram uma namorada, a Osmarina, que fora secretária do então deputado e que um dia Silveira levou em casa, tarde da noite, a pedido de Juscelino. Anos depois, já presidente, ele perguntou: ‘Como vai a nossa Osmarina?’ ‘Nossa não, senhor presidente. Minha.’, respondeu o jornalista.


Fã do sindicalista Lula e crítico do presidente, Joel Silveira não acreditava que o petista se reelegesse em 2006. Em seus últimos anos de vida, perdeu a visão e acompanhava o noticiário por meio da leitura diária dos jornais feita por sua filha.


A família informou que não haverá velório e que o corpo de Joel Silveira será cremado.’


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