Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA PARAENSE

Jornais que todo mundo lê

Por Lúcio Flávio Pinto em 11/09/2007 na edição 450

Romulo Maiorana Júnior, principal executivo do grupo Liberal, anunciou, em 26/8, mais uma ‘marca histórica’ da sua corporação: as edições dominicais dos seus dois diários somam ‘acima de 130 mil exemplares’. Como a tiragem do irmão mais novo, o Amazônia Jornal, ele diz que é de 35 mil exemplares, a de O Liberal passa de 95 mil. O aditivo ‘acima’ sugere que deve estar boiando a incrível marca de 100 mil exemplares aos domingos.

Foi justamente por pretender tal façanha que a Delta Publicidade, responsável pelas duas publicações, saiu às pressas, pelas portas dos fundos, do Instituto Verificador de Circulação. Em duas auditagens de 2005, o IVC constatou que a circulação paga de O Liberal estava aquém da metade da informação jurada do editor do jornal. Para não ser apanhado novamente na mentira por ocasião da primeira auditagem do IVC em 2006, a Delta se desfiliou do instituto, fato inédito na história de mais de meio século do IVC. Então e até hoje.

Qual a base da declaração de Romulo Júnior, feita em seu próprio jornal, com o estardalhaço de praxe? A Ernest & Young passou a verificar a tiragem dos dois jornais depois da desfiliação do IVC. Mas por que a auditora não foi citada pelo presidente executivo das Organizações Romulo Maiorana, considerado o ‘profissional de marketing’ deste ano no Pará pela revista Marketing, de São Paulo?

Embalado por sua própria estatística, o executivo diz que seus jornais têm ‘mais de um milhão de leitores’. Como não fez distinção entre O Liberal e Amazônia Jornal (embora devesse, para não juntar alhos com bugalhos), conclui-se que cada exemplar das duas publicações é lido por oito pessoas. É mais uma ‘marca histórica’ batida, já que o conhecimento estabelecido nesse setor é de que cada jornal é lido por 4 ou, no máximo, 5 pessoas.

Feito inacreditável

Graças a mais essa façanha, a merecer nova premiação, um em cada sete paraenses lêem um dos dois jornais Maiorana, nesse universo incluídas as crianças que ainda não sabem ler, os analfabetos, os deficientes visuais (ainda não há edição de O Liberal em braile) e os que não têm poder aquisitivo (sem falar, claro, dos que não têm o hábito de ler ou dos que o perderam exatamente pelo contrário: por lerem demais).

Os dois jornais, entretanto, não circulam por todo Estado: pelo menos 80% de suas tiragens se concentram em Belém. Mesmo considerando a região metropolitana da capital, significaria que de cada 2 dos seus habitantes, um é leitor de O Liberal e Amazônia Jornal. O feito é tanto mais inacreditável, literalmente, por se saber que os dois jornais foram ao vento e perderam o assento para o Diário do Pará. Imagine-se se fossem os campeões de audiência. É Guiness certo.

Capa difícil

O Liberal tem publicado semanalmente fascículos sobre a Amazônia. Saíram 12 das 48 edições previstas. Mas já está sendo oferecida a capa para essas publicações, patrocinadas regiamente pela Companhia Vale do Rio Doce, que vende o santo conforme ele lhe foi embrulhado. A capa é grátis. Mas o distinto leitor tem que ir até a sede do jornal, atrás do Bosque Rodrigues Alves (ou Jardim Botânico, para os menos exigentes). A empresa, premiada em marketing, não podia acostar a capa dura na edição dominical? Será que o patrocínio da CVRD não cobriria essa despesa, reduzindo um tantinho o lucro? Ou não podia, ao menos, criar outros pontos de entrega?

Ou essa dificuldade não será manifestação autocrítica inconsciente?

Cesta impressa de ofertas

Pelo menos seis das 84 páginas da edição de O Liberal da quinta-feira (30/8), em pleno dia útil, foram ocupadas por propaganda da casa. Sem contar as permutas, era bem mais do que os anúncios pagos, excluídos os classificados. Em página dupla, o jornal procura seduzir assinantes em potencial através de um ‘kit de prêmios’. Na verdade, quem for apurar na ponta do lápis (ou na tecla da calculadora) os descontos, verificará que há pouca ou nenhuma vantagem em combinar a compra dos eletroeletrônicos ‘oferecidos’, todos da nada conhecida marca Mallory, à assinatura do jornal, cujo valor é estabelecido aritmeticamente: o número de edições ao longo de um ano pelo preço de capa.

O desconto supostamente promocional acaba sendo enganoso ou desvantajoso para quem vai antecipar o pagamento e quitá-lo em seis prestações. Trata-se de venda combinada, que favorece a quem vende, mas não a quem compra, em função do retorno certo do pagamento em um curto período e da escala da venda. Esquema que se aplica à Bíblia, o adicional de outra oferta de assinatura que tem seu preço reduzido de R$ 98 nas livrarias, para R$ 42.

Outra promoção de amigo da onça é a que levará o leitor a comparecer com mais R$ 8,50 ao preço do exemplar adquirido do jornal para receber uma medalha do Remo ou do Paissandu, com isso ajudando ‘seu time a dar a volta por cima’. Antes, é claro, ajudando O Liberal a realizar façanha do mesmo porte, ou maior.

A quitanda deixou de ser uma metáfora.

No papel

O ex-governador Simão Jatene está trabalhando intensamente. Ao menos no espaço do Repórter 70, a principal coluna de O Liberal. Vai acabar estressado, tantas são as notas sobre sua elétrica movimentação nos bastidores e à frente do PSDB.

Ivo Amaral: a felicidade de meio século fecundo

Sem escola de jornalismo regular, qualquer redação podia se arvorar a ser uma escola. Mas só no caso da redação de A Província do Pará essa pretensão parecia legítima. Tanto que só esse jornal se atribuía o título. Mesmo quando ainda era o jornal mais importante do Pará, a Folha do Norte não tentou dividir essa qualidade. A Província tinha direito a se considerar um centro de captação, revelação e formação de talentos. Em primeiro lugar, porque, sobretudo entre as décadas de 50 e 70, por ela passaram pessoas com inegável vocação para a prática do jornalismo, em qualquer lugar. E que conseguiram ir além da província, ‘vencendo no sul’, como então se dizia.

Independentemente das deficiências e limitações que tinham, esses jornalistas gostavam do que faziam. Queriam estar ‘por dentro’ de tudo. Por isso, circulavam muito: atrás de fontes ou para testemunhar os acontecimentos. E se empenhavam para passar em frente as informações que captavam. Alguns enveredaram pelo jornalismo comercial ou nele acabaram em função dos baixos salários pagos pelas empresas jornalísticas. Outros se tornaram ‘chapas brancas’, atrelados aos governos ou a algum esquema político. Mesmo assim, eram tão fascinados pelas informações que se dispunham a repassá-las aos colegas, quando eles os procuravam, transformando-os em fontes. Chegavam ao cúmulo de vazar informações contra seus patrões ou em conflito com seus interesses pessoais. O jornalismo permaneceu vivo dentro deles, ainda que sob a aparência de cinzas remanescentes de um incêndio pretérito.

Além desse fator, A Província tinha uma circunstância especial, única na imprensa do Pará durante esse período de três décadas: era o centro de uma rede de empresas, pertencentes aos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, que contava ainda com emissoras de rádio e de televisão. Os profissionais do jornal raramente iam aos estúdios das emissoras, mas os que nelas trabalhavam sempre davam um jeito de passar pela redação do jornal. Lá é que fervilhavam as novidades e, freqüentemente, informações que o próprio jornal não publicava, mas era do conhecimento dos seus profissionais. Eles geralmente aceitavam as proibições impostas pelos representantes do dono, que estava bem distante, mas por qualquer provocação passavam em frente as informações vetadas.

A conversa na redação atraía tanto os outros colegas ‘associados’ como intelectuais que circulavam às proximidades, atraídos pelas livrarias do perímetro, com destaque para a saudosa Livraria Martins, com o maior e melhor estoque da praça. Além disso, para os funcionários da ‘casa’, havia ainda a circunstância da centralização do departamento de pessoal e financeiro, lá no último andar do velho e belo prédio, hoje em ruínas, na rua Campos Sales. E, last but not least, os bolos e frituras do Chico, o comandante da – digamos assim, com perdão da palavra – lanchonete, no fundo da redação. O local não era nada convidativo, ainda mais pela vizinhança dos banheiros & etc. Ainda assim, era o sítio de muita fofoca. Todos sobreviveram aos quitutes do Chico.

Palavra de ordem

A redação de A Província era uma escola, como nunca houve igual, não só pelas pessoas que nela trabalhavam, várias das quais brilharam – e ainda brilham – na imprensa nacional, mas por servir a um intenso tráfego de uma população não-residente, muito diversificada, que servia à fecundação do conhecimento. Muitos lá apareciam para saber ‘das últimas’ dos repórteres, que efetivamente circulavam por toda cidade e tinham suas fontes específicas, com franco acesso a elas. Se havia um microcosmo representativo da cidade e de suas extensões, a redação era esse lugar.

Os repórteres disputavam entre si as manchetes e os melhores lugares nas páginas da edição do dia seguinte do jornal. Mas também duelavam para saber quem era o melhor informado sobre os bastidores. Em regra, não havia a veleidade de ser o dono exclusivo da informação. Quem, por algum compromisso ou regra comercial, não podia divulgar certa informação, a repassava ao companheiro desobrigado e desvinculado. Os jornalistas em tempo integral, dedicação exclusiva e compromisso único com o jornalismo se beneficiavam das restrições dos seus companheiros mais atados a negócios paralelos. Estes não podiam gozar de feitos nas páginas do jornal, mas ficavam intimamente satisfeitos de poder revelar a informação compromissada sem se expor aos riscos da rebordosa da fonte (ou pagador) dessa informação. Por isso eram muito abordados, não como jornalistas, mas como fontes.

A redação se transformava numa praça ou num mercado, centro de reprodução do que ia lá fora e origem de produtos que iam ter circulação externa. Tinha seus agregados quase permanentes e seus freqüentadores circunstanciais, que davam sua contribuição para essa fermentação informativa. Ivo Loureiro do Amaral era um dos transeuntes mais constantes pela redação. Com uma vantagem adicional: como autor de uma coluna de esporte, com ênfase no futebol, em A Província do Pará, ele também era um dos profissionais dessa redação. Pelo seu conhecimento específico de uma matéria tão incandescente quanto vaporosa, difícil de abordar pelo seu grau de explosividade, sujeita às mais imprevisíveis paixões, ele sempre foi uma referência para todos. E uma pessoa muito querida, por sua perene alegria, gratuita simpatia e pela constante atenção dispensada a todos.

Toda vez que entrava e me via, Ivo lançava um dos bordões que manejava nas transmissões esportivas, sempre recriados, modificados. O papo agradável e informativo logo formava uma roda, que se ia expandindo e crescendo em decibéis, o que invariavelmente provocava a palavra de ordem do iracundo diretor da redação, Cláudio Augusto de Sá Leal. Ele conseguia dispersar o ajuntamento em nome da produção, mas não era raro novamente a roda se formar até a devida admoestação do ‘hômi’, que era pequeno e magro, mas trovejava como um armário.

Jornalismo esportivo

Ivo Amaral nunca contribuiu para que esse conflito não ocorresse: falar à meia voz não era com ele. Podia até se controlar de início, mas logo estava irradiando a conversa, com seu timbre inconfundível, que era a própria marca da TV e Rádio Marajoara, um dos elementos que mais apropriadamente a caracterizavam, assim como Edyr Proença funcionava para a Rádio Clube e outros locutores para as demais emissoras. Uma das características dessa época, aliás, inexiste agora: esses profissionais não eram unidimensionais, adstritos ao esporte ou, mais especificamente ainda, ao futebol. Eram pessoas que queriam ser bem informadas sobre tudo, participavam de outras dimensões da vida e, com sua verve, acabavam funcionando como centros de referência fora de suas especialidades. Muitos tinham inteligência privilegiada e memória fantástica.

Felizmente ainda se pode ver essas qualidades exibidas por Ivo Amaral, agora de volta à televisão. Comemorando na semana passada 50 anos de profissão, ele ainda se apresenta – agora na TV Liberal – como um elemento diferenciado, especial. Mas não como uma reminiscência de um passado arquivado: com sua jovialidade e sua personalidade, Ivo tem uma imagem atual, porque diferente. É mais solto e fluente do que seus companheiros. Ele dispensa a bitola do teleprompter, a cola eletrônica, recurso considerado necessário atualmente, mas que se revela empobrecedor quando um profissional tem estrutura bastante para dispensá-lo, como é o caso de Ivo Amaral. Para que vai precisar da geringonça se sabe tudo sobre o que fala e fala com desenvoltura, com pleno domínio da sua profissão?

Vi a entrevista que Ivo Amaral deu ao Bom dia, Pará, no dia 27, quando completou 50 anos na profissão. Partilhei a alegria e a realização do velho amigo e companheiro como uma façanha da nossa geração. Sete anos nos separam, mas nossas vidas se parecem bastante e se tocaram por circunstâncias que muito me sensibilizam. Meninote, comecei a circular pelo mundo dos esportes com o rádio Transglobe do meu pai, sintonizado em emissoras do mundo inteiro para reunir informações que repassava a locutores de rádio com os quais fazia contato. Depois, lia tudo que havia sobre esporte, da Gazeta Esportiva à Revista do Esporte e Manchete Esportiva, organizando arquivos, produzindo dados. Minha primeira relação com o jornalismo profissional foi no rádio, produzindo e apresentando Gente Jovem, que ia ao ar na Rádio Guajará depois da transmissão esportiva. Já nessa época, Ivo Amaral era meu padrão de locução e de jornalismo esportivo. Meio século depois, ele continua plenamente atual. Sua festa constitui patrimônio de todos nós e uma felicidade para o jornalismo paraense, enriquecido por um caso raro de longevidade eficiente.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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