Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA BRASILEIRA

Jornais ganham confiança do público

19/01/2006 na edição 364

O jornalismo impresso passa por uma crise generalizada. Migração dos anunciantes para a internet, falta de dinheiro, cortes de empregos e redações mais enxutas levaram à queda da qualidade de veículos espalhados pelo mundo. Escândalos como o do repórter-plagiador Jayson Blair, nos EUA, também ajudaram a minar a credibilidade de jornalistas nos últimos anos. Certo? Nem tanto.


Em artigo para o jornal americano Christian Science Monitor, Andrew Downie [17/1/06] faz uma espécie de raio-x da imprensa brasileira. O mote para a matéria é uma recente pesquisa do Ibope, que revela que 63% dos brasileiros confiam nos jornais de seu país. Apenas médicos, membros da igreja Católica e militares são considerados mais confiáveis que jornalistas.


O mais curioso é que o número de leitores dos jornais não é lá muito significativo. Maior jornal do país, a Folha de S. Paulo vende uma média de apenas 307 mil exemplares por dia. O número é minúsculo se comparado com as cerca de 44 milhões de pessoas que assistem ao Jornal Nacional, da Rede Globo.


Downie entrevistou representantes dos dois maiores jornais brasileiros, Folha de S. Paulo e O Globo, para entender de onde vem esta credibilidade – já que grande parte da população tem acesso às notícias pela TV.


Elite de peso


Os jornais impressos têm peso porque seus leitores são a elite política, cultural e de negócios do país. Além disso, especialistas afirmam que as pessoas têm fé nos jornais porque, comparados com instituições públicas mergulhadas em corrupção, eles podem ser vistos como profissionais, efetivos e críveis.


O atual ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, ressalta que a aplicação da lei é ainda muito fraca no país, e por isso a imprensa é mais valorizada. Ainda assim, ele diz não entender tamanha confiança do público em uma instituição onde falta verba, transparência e, às vezes, até profissionalismo. Beraba cita a parcialidade dos jornais e seu comprometimento com interesses de negócios, e lembra que a falta de recursos prejudica, muitas vezes, a apuração feita pelos jornalistas.


Autocrítica, no entanto, não parece ser o forte do jornalismo brasileiro. Downie enfatiza que, de 532 jornais diários no país, apenas dois têm ombudsmen. O jornalista Pedro Dória, que escreve para o sítio No Mínimo, diz que o fato de o Brasil nunca ter tido um escândalo como o caso Jayson Blair não significa que ele nunca tenha acontecido – podemos apenas não ter tomado conhecimento de sua existência. ‘A cultura aqui é de encobrir’, afirma.


A serviço da democracia


Apesar destas ressalvas, a imprensa brasileira realiza um trabalho importante de serviço público. ‘Nossa prioridade é, obviamente, a notícia’, afirma o colunista Luiz Garcia, do Globo. ‘Mas uma coisa que fazemos bem é prestar um serviço. Nós dizemos a você com quem reclamar se a carne no seu supermercado acabar, ensinamos como fazer sua declaração de imposto de renda pela internet. Nós tornamos a vida mais fácil para nossos leitores’, conclui.


Os leitores agradecem, pelo visto. Além deste serviço público, os jornais também tiveram papel crucial na transição brasileira para a democracia. ‘Desde que a ditadura militar de 21 anos terminou, em 1985, a imprensa tem monitorado de maneira consistente – e às vezes sozinha – os políticos, a polícia e outras instituições poderosas’, afirma Downie. O jornalista cita ainda a denúncia sobre o mensalão no ano passado, que levou à crise no Partido dos Trabalhadores e no governo do presidente Lula, e o escândalo de corrupção que levou ao impeachment de Fernando Collor de Mello há dez anos. ‘[Os jornalistas] conseguiram a história e insistiram nela semana após semana, com cada vez mais detalhes’, lembra Pedro Dória. ‘Depois de meses, a população tomou as ruas porque estava furiosa. Se não fosse pela imprensa, não haveria impeachment, e as pessoas lembram disso’.

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