Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > LEITURAS DO ESTADÃO

Jornal centenário de roupa nova

Por Alberto Dines em 15/03/2010 na edição 580

O Estadão de domingo (14/3) era uma festa e a festa foi comemorada com alegria pela legião de adeptos da mídia impressa. Em plena temporada de presságios sobre o fim da Era Gutenberg, um jornalão centenário, teoricamente agonizante, revitaliza-se dos pés à cabeça, retoma a sua elegância e, ainda por cima, não se deixa seduzir pela modernidade vazia do mundo fashion (ver aqui).


A reforma gráfica do Estado de S.Paulo começou na realidade um dia antes, com o lançamento do caderno ‘Sabático’, voltado para a leitura, onde brilhava Umberto Eco advertindo os leitores para não apostar no fim do livro: ‘Eletrônicos duram 10 anos, livros duram cinco séculos’.


Na edição do dia seguinte estava a materialização da proposta: um visual limpo, aberto, capaz de valorizar textos analíticos mais densos. E nenhum, nenhum infográfico. Viva!


A Folha de S.Paulo que também está preparando a sua reforma visual tentou antecipar-se ao concorrente no sábado (13/3) com uma primeira página clean, mas no domingo não teve jeito: foi obrigada a voltar aos cubículos coloridos, berrantes e à velha fascinação pelos modismos com uma reportagem de página inteira sobre a mania do pôquer que estaria tomando conta de São Paulo.


Mais jovem do que o concorrente, a Folha de repente ficou parecendo muito mais velha. Já mudou o comando da Redação, talvez troque também a onipotência que a fez perder os dois últimos ouvidores (Mario Magalhães e Carlos Eduardo Lins da Silva).


O portal de notícias do Estadão também foi redesenhado mas mantém-se no mesmo patamar dos demais: o jornalismo digital brasileiro só decolará quando seu conteúdo for melhor do que o da mídia impressa. Falta muito.


***


Inovações do Estado agradam a leitores


Reproduzido do Estado de S.Paulo, 15/3/2010


O domingo começou diferente nas bancas de São Paulo. Começou com um jornal mais elegante e dinâmico exposto nas prateleiras: o novo Estado surpreendeu positivamente os leitores. O terapeuta Fábio Novo, de 45 anos e leitor do jornal há 28, costuma ir a uma padaria de Perdizes para o café da manhã. Lá, Novo também lê o jornal que compra em uma banca próxima. ‘Ficou mais organizado, com a informação bem disposta em cronologias, quadros.’


Era a intenção da reforma gráfica que o Estado estreou neste domingo, 14: organizar melhor a informação para o leitor e, assim, facilitar a compreensão do conteúdo. O movimento é de renovação tanto do jornal impresso como na internet – o estadão.com.br foi reformulado com o mesmo objetivo. No papel, foi adotada uma nova tipografia, criada exclusivamente para o Estado, e as informações foram distribuídas em peças mais bem definidas para facilitar a identificação do gênero.


O lavador de carros José Ricardo Temitocles notou já pela capa a diferença. Morador da Vila Formosa, na zona leste, ele compra o Estado todos os domingos. ‘Leio inteiro há 30 anos.’ Para Temitocles, o jornal ficou mais ‘limpo’. ‘A letra é agradável e o espaço entre as informações ficou ideal.’ A enfermeira Elizabete Rodrigues, de 39 anos, também compra os jornais nos fins de semana. Ela lia o jornal neste domingo em um café nos Jardins. ‘As chamadas da capa estão mais objetivas e o jornal, com mais ilustrações. Ficou mais gostoso de ler.’


Mesmo quem não é leitor há tantos anos notou a diferença. É o caso da administradora Valquiria Yasbek, de 40 anos. Ela compra o jornal aos domingos para checar os classificados de imóveis. ‘E prefiro o Estado, que oferece mais variedade’, diz. Ao ver o novo projeto, teve mais vontade de ler as matérias. ‘A arte ficou agradável e deram destaque para as fotos.’


Enquanto espera passageiros em seu ponto em Santana, o taxista Amauri Ramos lê jornais. Cada dia um diferente. Neste domingo, ele aprovou a mudança gráfica e elogiou as matérias do Estado. ‘Prefiro quando há histórias que vão além do que ocorreu na véspera, como essa entrevista com o Pelé’, diz, mostrando o Esportes.


Esporte é mesmo um assunto que atrai. A artista plástica Cláudia Gelpi, de 41 anos, foi a uma banca do Jardim Europa com o filho Antonio, de 11. Acostumado a ver o jornal desde que nasceu, ele logo apontou as mudanças: ‘Olha o Esportes, mãe! Está diferente, mais bonito, mais colorido!’ Após a leitura, Cláudia aprovou: ‘Não saiu da tradição, mas ficou mais leve. Ficou apetitoso, dá mais vontade de ler.’


Usando uma analogia com a moda, a chef de cozinha Mirene Reis, declarou: ‘Uma pessoa pode se vestir de forma clássica, mas com adornos que chamem a atenção para ela. É assim que vejo o novo Estadão.’ Ela foi a uma banca no Jardim Europa às 12 horas deste domingo e se surpreendeu com o que viu. ‘Quero ler até a última linha’, disse. Para a decoradora Yomar Luchini, de 60 anos, o novo jornal ficou ‘elegante’. ‘Os cadernos ficaram mais bonitos, com cabeçalhos em cores primárias, o que é um elemento de bom gosto’, diz.


O Estado buscou essas características de elegância no que há de mais moderno no mundo. E os leitores percebem a referência. A professora de inglês Rosalice Silva Pessoa, de 33 anos, mora em Barra Mansa (RJ) e compra o Estado nos fins de semana. Durante um passeio na Avenida Paulista, ela opinou: ‘O novo layout me lembrou o dos jornais ingleses e americanos, que costumo acompanhar pela internet.’ Não é só na forma. O conteúdo também tem mais sofisticação. ‘O que também me chama a atenção são os articulistas.’


Veja o que disseram políticos, intelectuais e personalidades


** José Serra, governador de SP: ‘Este jornal tem sabido lutar pela liberdade de imprensa e exercê-la ao longo dos seus 135 anos. As mudanças o tornam ainda mais acessível aos leitores atuais e futuros.’


** Gilberto Kassab, prefeito de SP: ‘O redesenho do Estadão ficou excelente. Oferece maior conforto visual e leveza. Tanto em sua capa quanto em seu conteúdo interno o jornal está mais próximo do leitor.’


** Henrique Meirelles, presidente do BC: ‘A nova apresentação gráfica mostra um jornal moderno, que soube, em seus 135 anos, manter-se sintonizado com os leitores e com a sociedade.’


** Marco Aurélio Mello, ministro do STF: ‘Logo de início, a atenção é despertada pela primeira página. A virtude maior está em suscitar o interesse do cidadão para o que é veiculado.’


** Luiz Schwarcz, da Cia. das Letras: ‘Gostei muito do conteúdo, das crônicas e das resenhas do Sabático. Tenho só algumas críticas para a parte gráfica. Não gostei da tipologia das capitulares e dos títulos.’


** Lygia Fagundes Telles, escritora: ‘Gostei muito do caderno Sabático, que traz um novo visual, mais leve, mas que não compromete a densidade do texto.’

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/03/2010 René Amaral

    Uma reforma no visual não garante uma reforma nos esgotos dessa publicação, que de bom só tem uma coisa: nunca enganou ninguém (como a Fôia) sobre sua verdadeira posição, sempre a favor da exceção e do retrocesso!

  2. Comentou em 15/03/2010 José Paulo Badaró

    Moderno mesmo, e os sinais dos novos tempos se notam logo de cara na etiqueta que diz: “HÁ 227 DIAS SOB CENSURA” (se a bobagem consta na versão digital provavelmente deve constar na versão de papel), mas no fundo gostei porque a mudança da fachada implica em acusar o golpe ou reconhecer que as coisas não vão indo bem.
    Concordo que o jornalismo digital só irá decolar pra valer quando o CONTEÚDO for melhor (eu diria menos reacionário…) do que o da mídia impressa, pois em termos visuais e de funcionalidade as versões digitais estão bem avançadas, e a Revista Poder, editada em Visual Paper serve de exemplo, já que dá ao leitor a sensação de estar lendo a versão impressa. Pena que o conteúdo não sirva para nada.

  3. Comentou em 15/03/2010 José Paulo Badaró

    Moderno mesmo, e os sinais dos novos tempos se notam logo de cara na etiqueta que diz: “HÁ 227 DIAS SOB CENSURA” (se a bobagem consta na versão digital provavelmente deve constar na versão de papel), mas no fundo gostei porque a mudança da fachada implica em acusar o golpe ou reconhecer que as coisas não vão indo bem.
    Concordo que o jornalismo digital só irá decolar pra valer quando o CONTEÚDO for melhor (eu diria menos reacionário…) do que o da mídia impressa, pois em termos visuais e de funcionalidade as versões digitais estão bem avançadas, e a Revista Poder, editada em Visual Paper serve de exemplo, já que dá ao leitor a sensação de estar lendo a versão impressa. Pena que o conteúdo não sirva para nada.

  4. Comentou em 15/03/2010 Wendel Anastácio

    É, tomara que a ‘plástica’ tb se estenda ao conteúdo! O importante é que, venham a praticar o jornalismo que todos almejamos! Dificilmente iremos esquecer suas adesões à ‘ditabranda’, mas, como há gostos para todos os matizes, e como somos democráticos, devemos tb deixar que estes jornais adotem a linha editorial que melhor lhes apraz!
    O ideal é que assumissem de vez suas ideologias, para nos poupar em ter de esclarecer e/ou comentar para os mais incautos, que estes ‘Tablóides’ nada mais são que porta- vozes de uma oligarquia industrial/financeira, que sempre manipulou as notícias em seu benefício!
    Na realidade, e não é querer muito, o que gostaríamos que praticassem era o jornalismo sério, informativo e esclarecedor.
    Nada mais que isto!

  5. Comentou em 15/03/2010 Luciano Prado

    Plásticas, plásticas, plásticas… A alma da velha imprensa continua a mesma. Os Demos fizeram várias plásticas, mas a notícia mais recente da conta de que encerrarão suas aventuras neoliberais e incorporarão ao PSDB.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem