Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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FEITOS & DESFEITAS >

Jornal Nacional, 40 anos

Por Lilia Diniz em 17/09/2009 na edição 555





O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (15/9) pela TV Brasil teve como tema os 40 anos de exibição do telejornal mais assistido no Brasil, o Jornal Nacional, da Rede Globo. Na noite de 1º de setembro de 1969, os apresentadores Hilton Gomes e Cid Moreira anunciavam: ‘Um serviço de notícias integrando o Brasil novo inaugura-se neste momento: imagem e som de todo o país’. O JN foi o primeiro programa em rede nacional, gerado do Rio de Janeiro e retransmitido para todas as emissoras da rede. Alberto Dines entrevistou editor-chefe e apresentador o do jornal, William

Bonner, que ocupa o cargo há mais de dez anos. A conversa foi gravada nas dependências na emissora, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

No início do programa, Dines pediu para Bonner comentar o slogan ‘O Brasil ao vivo na sua casa’ repetido pelos apresentadores ao longo de 27 anos. O editor-chefe explicou que a frase foi criada em 1969 e refletia o momento de avanços tecnológicos. Mas a imagem que perdura do jornal é o compromisso inicial de mostrar aos brasileiros aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo. E pode englobar também a cobertura de efemérides. ‘A prioridade do Jornal Nacional é sempre para o tema factual, mas os temas factuais muito raramente contemplam ou preenchem todo o tempo disponível. Então, para o tempo remanescente, nós costumamos reservar discussões de atualidades’, explicou.


O carro-chefe do jornal é ‘a notícia do dia, a quente’, o fato que estará estampado na primeira página dos principais jornais brasileiros no dia seguinte. Dines relembrou que na década de 1970, quando era editor-chefe do Jornal do Brasil, o Jornal Nacional já era uma referência. A edição que estaria nas bancas no dia seguinte só era definida após a exibição do telejornal. Uma das primeiras providências de Dines quando assumiu o cargo foi instalar aparelhos de televisão pela redação para que os jornalistas pudessem acompanhar o JN. Dines ressaltou que a responsabilidade de ser uma referência é grande e comentou que nos meios político e econômico ‘não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu’.


Uma janela para o mundo


William Bonner ponderou que o panorama das comunicações é diferente da época da estréia. Em 1969, o JN era o único ponto de contato do telespectador com o mundo fora dos seus limites geográficos. ‘Dizer que `se o Jornal Nacional não deu é como se não tivesse acontecido´, hoje, não é uma verdade como pode ter sido nos anos 1970′, disse. Telejornais de cinco emissoras comerciais concorrem com o da Rede Globo. Outros fatores que contribuíram para a mudança foram o aumento do parque nacional de computadores domésticos e o barateamento do acesso à internet por banda larga.


‘Isso é muito bom. É bom para a democracia porque uma pessoa que tenha acesso a mais fontes de informação é uma pessoa mais bem informada se souber selecionar bem essas fontes de informação’, disse Bonner. Para ele, com a concorrência o nível de informação que o Jornal Nacional oferece torna-se mais alto. ‘É da natureza do jornalismo uma espécie de retroalimentação. O jornalismo se alimenta dele mesmo, além das fontes externas’, disse. Tudo o que fizer com que o cidadão tenha informação plural contribui para a democracia, na opinião do apresentador do JN. E é importante na hora de decidir o voto.


Liberdade em xeque


Dines levantou a questão do cerceamento da liberdade de informação imposta pela Justiça por meio da censura prévia. Como jornalista, Bonner contou que teme ser ‘o próximo alvo’ do bloqueio informativo e se disse solidário com os profissionais que passaram por esta situação. ‘A censura prévia é verdadeiramente preocupante. No Jornal Nacional, na medida do possível, nós temos procurado noticiar o desenrolar dessa novela que se tornou, por exemplo, o caso de O Estado de S.Paulo’, disse. Bonner destacou que a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e as associações de classe já repudiaram os atos de censura. Para o jornalista, é necessário repetir o protesto constantemente e chamar a atenção para a gravidade desse quadro para que o público tome conhecimento e se mobilize.


As novas regras para o uso da internet nas eleições de 2010 foram debatidas pelos jornalistas. Deve-se controlar o conteúdo de sites e blogs durante a campanha eleitoral? ‘É como se a internet fosse uma concessão pública’, criticou Dines. Bonner disse que a decisão é polêmica e que o controle da internet é inexeqüível. ‘Isso só vai aumentar brutalmente o nível de tensão eleitoral’, afirmou. Já a decisão de desobrigar as emissoras de televisão de levar para debates eleitorais candidatos de partidos nanicos foi considerada por Bonner como um avanço.


De pedra a vidraça


Outro ponto abordado por Dines na entrevista foram as críticas ao telejornal. Um exemplo ocorreu no início do mês passado, quando o Jornal Nacional noticiou com grande destaque o fato de a Justiça ter acolhido denúncias do Ministério Público (MP) contra os dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). O comando da igreja foi acusado de formação de quadrilha, desvio de dinheiro em benefício próprio e lavagem de dinheiro. Dines comentou que houve muitas críticas ao JN e que setores da sociedade acusaram a emissora de promover uma ‘guerra comercial e religiosa’. Bonner avalia que é inaceitável que se levante esta dúvida.


‘O jornalismo que a Globo pratica respeita todas as religiões. A gente procura demonstrar isto com a própria pauta do jornal’, argumentou. Ao noticiar o fato, apenas cumpriu a função de mostrar aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo. O editor-chefe do telejornal destacou que a cobertura centrou-se em uma etapa posterior à apresentação da denúncia, quando os envolvidos não podem mais questionar os princípios e métodos do MP.


Para Bonner, o tempo que o telejornal destinou para a notícia foi compatível com a gravidade da denúncia em si e a projeção social dos acusados. O jornalista ressaltou que o assunto foi coberto de forma extensa pelos veículos de comunicação mais importantes do Brasil, como a Folha de S.Paulo e o jornal O Estado de S.Paulo. A repercussão das denúncias do MP foi internacional, uma vez que a Iurd está presente em outros países. Por isso, não há uma ‘guerra de audiência’. Bonner avalia que é de interesse dos envolvidos transformar uma ação do MP acolhida pela justiça criminal em uma acusação formulada por uma rede de televisão concorrente.


Poder de decisão dividido


Diante da responsabilidade de o Jornal Nacional ser ‘o fiel do que importa’, Dines perguntou como é feita a autocrítica do noticiário e questionou se a análise poderia ser feita a posteriori, por um profissional independente como um ombudsman. Bonner explicou que toda a equipe participa da avaliação e contou que há um mecanismo no qual ‘ninguém tem poder absoluto’ sobre o jornal, nem mesmo o seu editor-chefe. A escolha dos assuntos que compõem o jornal, a hierarquização e a determinação do tempo destinado a cada uma deles é feita através de critérios específicos.


‘O Carlos Henrique Schroder, diretor Geral de Jornalismo e Esportes, o Ali Kamel, diretor da Central Globo de Jornalismo, eles não me pegam na porta da redação com uma lista de assuntos que consideram os mais importantes e vêm bater com o que o Jornal Nacional exibiu. Não existe isso. Empiricamente, o que nós fazemos é no dia seguinte bater com as primeiras páginas dos jornais. Se você fizer esta análise nos últimos dez anos ficará surpreso com o grau imenso de coincidências’, disse.


Um ‘quase mico’ internacional


William Bonner relembrou uma situação ‘grave e inesquecível’ ocorrida nos bastidores do jornal, no dia da libertação da senadora colombiana Ingrid Betancourt, que ficou presa em poder das Farc por mais de seis anos. Bonner contou que estava trabalhando em sua sala quando três profissionais de sua equipe entraram com a notícia do fim do seqüestro. Naquele momento, o jornalista não percebeu a importância do fato e teve uma postura ‘burocrática’. ‘Eu estava ocupado com outra coisa e a minha equipe tentando me chamar a atenção para algo novo e verdadeiramente importante que tinha acontecido. Pois eu esgrimi com os argumentos dos meus comandados durante uns dois ou três minutos’, disse.


Depois que os jornalistas saíram da sala, Bonner começou a pensar sobre o tratamento que o telejornal daria ao assunto e ‘caiu em si’. Em seguida, agradeceu aos colegas por terem evitado ‘o maior mico’ da sua carreira. O editor garantiu que a cobertura equivocada certamente seria evitada quando o comando do jornalismo da emissora verificasse o enfoque dado ao tema. ‘Muito provavelmente apareceria aqui uma camisa de força eu seria levado para um local para libertar o JN daquela maluquice e a cobertura seria feita’, disse. Não foi necessária a intervenção da direção da Rede Globo porque a equipe do jornalismo ‘fez valer a lógica em um momento de alucinação do chefe’.


Em seguida, Dines perguntou se há algum constrangimento por a família do senador José Sarney (PMDB-AP), que recentemente teve o nome envolvido em uma série de escândalos, ser proprietária de uma afiliada da Rede Globo no Maranhão, a TV Mirante. William Bonner avalia que a cobertura do JN foi correta. O que norteia a relação da Rede Globo de Televisão com as afiliadas é uma relação de parceria e as afiliadas devem seguir a mesma linha editorial da emissora. As normas de conduta são determinadas pela Rede Globo. ‘Eu imagino que possa haver algum tipo de situação pessoal, talvez delicada para aqueles funcionários da Rede Globo que negociam o contato com as afiliadas. Mas isso pode se dar em um telefonema aqui ou ali, eles podem dizer `que chato´, mas é do jogo’, disse.


Com ou sem diploma?


Dines e Bonner conversaram sobre a exigência de diploma em Jornalismo para o exercício da profissão. Apesar de não acreditar que a exigência da titulação específica devesse existir, Bonner disse que procura contratar para sua equipe pessoas que tenham o diploma em Jornalismo. Os cursos de Jornalismo não devem acabar, mas precisam ser revistos, segundo ele: o oferecido pela Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, deveria ter um laboratório de telejornalismo. Para o editor do JN, os estudantes chegam ao mercado de trabalho sem dominar as técnicas necessárias para desempenhar a função e acabam tendo que aprender na prática o que deveriam ter estudado na universidade.


‘Eu não vejo muito sentido em você ficar quatro anos estudando Jornalismo e não sair habilitado para o mercado. Não estou dizendo com isso que eles deveriam ficar quatro anos desenvolvendo a parte técnica’, explicou. É necessária a criação de um curso de técnicas jornalísticas voltado para estudantes formados em outras áreas que desejam exercer a profissão de jornalista. ‘Mais importante do que o diploma em Jornalismo, seria a experiência universitária e algum curso que oferecesse as técnicas jornalísticas para quem tem esta experiência universitária’, disse. ‘Ética é algo que a gente carrega desde o comecinho.’

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