Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > CORREIO BRAZILIENSE

Jornal promove especulação imobiliária

Por Antonio Francisco em 24/06/2008 na edição 491

É lamentável o que tem sido feito pelo jornal Correio Braziliense, de Brasília (DF). Analiso como objeto a cobertura do impresso em relação à construção do bairro Setor Noroeste, ‘a menina dos olhos do mercado’, como é chamado pela mídia local.

Desde setembro de 2007, o Correio Braziliense coloca no caderno de Cidades notícias que mais parecem o diário oficial do Governo do Distrito Federal (GDF). Digo isso, porque camuflado de matéria, com lead, sublead e citações, os jornalistas traziam em suas matérias nenhuma novidade, mas apenas as falas do governador José Roberto Arruda e do presidente da Terracap, Antonio Gomes, anunciando a quantas andavam as pendências para construção do setor que tenta ser emplacado pela especulação imobiliária desde 1987, quando Lúcio Costa tentou consertar seu projeto de cidade mas acabou caindo numa arapuca arquitetada pelos governantes, grileiros e imobiliários que, na capital da República, são os mesmos.

Então, a campanha do jornal pró-Noroeste continua. Sempre com títulos ‘Noroeste sai em dezembro’ ou ‘Um passo adiante’, o Correio fica eufórico a cada atitude corrupta ou do GDF ou do Ibama-DF. E acaba se ‘esquecendo’ de ressaltar os porquês do projeto ainda não sair do papel. Extração ilegal de calcário, desrespeito às leis do Conselho Nacional do Meio-Ambiente, ocultação dos impactos reais do projeto, o esgoto que o Lago Paranoá não suporta, a intolerância religiosa ao Santuário Sagrado dos pajés e o racismo contra os indígenas, dentre outras irregularidades, não foram sequer citadas pelo jornal.

Resistência indígena

Chegamos a 2008, o Noroeste ainda é projeto e está cada vez mais distante de se tornar realidade – para tristeza do Correio. A cobertura sobre o caso começou este ano querendo agilizar o processo da liberação da licença de instalação pelo Ibama-DF. Em janeiro, o jornal coloca na capa uma foto do governador José Roberto Arruda com o título ‘Prazo até 28 de fevereiro’. Nas falas do governador, se as licitações não saíssem até essa data poderia sobrar até para o presidente da Terracap. Desde então, o jornal pouco tinha falado da questão indígena. As etnias Kariri-Xocó, Fulni-ô e Tuxá habitam parte da região almejada desde 1979 e não querem deixar o local onde se estabeleceu vínculo espiritual com a terra.

Agora inicia-se a fase da campanha do jornal contra os índios que estão sendo chamados de ‘invasores’. Eles só se ‘esquecem’ de investigar que a Terracap somente reconheceu parte da área em cartório em 1993, 14 anos após a ocupação indígena. Parece que os jornalistas do Correio Braziliense também têm ‘preguiça’ de conhecer a Constituição Federal e a Declaração Universal dos Povos Indígenas, que lhes dá direito à terra, além do que a Funai pode desapropriar qualquer área que julgue tradicional.

Em março, o jornal tenta apelar e solta na primeira página, pela primeira vez, o título ‘Noroeste sai em abril’. Parece piada. Isso não é jornalismo. É assessoria de marketing com ótimos releases honrosos aos governantes que também fazem parte da especulação imobiliária há vários anos em Brasília. Mas agora parece que não há como esconder mais tantas mentiras. A situação tem se tornado uma discussão nacional e a manipulação diminui seu efeito.

A resistência para preservação do local junto aos indígenas cresce a cada dia e ganha apoio internacional. O jornal Correio Braziliense tenta de todas as formas deslegitimar a comunidade indígena, utilizando-se principalmente de um advogado golpista que faz declarações dizendo que os indígenas querem indenização. Não é difícil saber que os índios estão na resistência, mas o jornal só abre os olhos para o que mais agrade um de seus chefes, o vice-governador Paulo Octávio, que tem cotas nos Diários Associados e, através da publicidade, injeta mais de 250 mil reais mensais no Correio Braziliense.

Conseqüências graves

Na quinta-feira (19/6), o jornal cometeu uma das piores agressões. Na matéria intitulada ‘Há 10 anos, um só índio’, no caderno de Cidades, o jornal comete a atrocidade de dizer que somente um índio tem como provar a relação jurídica e tradicional com a terra. Podemos ver o desespero do jornal em encontrar qualquer elemento que descaracterize o movimento de resistência. Mais uma vez o jornal deu mais espaço para o governo, na figura de Antonio Gomes, presidente da Terracap, que afirmou ter provas de que só um índio tem relação com a terra.

Os moradores da Reserva Indígena do Bananal devem estar dando risadas de uma afirmação claramente desesperada do Diário Oficial do GDF. Para completar, na página ainda havia um quadro com o título ‘Análise da Notícia’, uma opinião ridícula da jornalista Samanta Sallum que consegue, em poucas linhas, levantar as hipóteses de que se teria um grupo político ligado ao movimento de resistência, de que parte do mercado imobiliária não era a favor do Noroeste e que essa briga não era a do ‘homem branco’ x indígenas. Essa opinião do Correio travestida de análise demonstra o tipo de confronto informativo que passamos.

A especulação imobiliária gosta de concretos onde for e se estiver brigando entre si é para ver quem fica com mais. Não há nenhum tipo de grupo político junto aos que querem que permaneça o local de cerrado nativo verde e a cultura tradicional indígena que mistura vários outros elementos em seu significado. E, ‘mais um episódio da velha perseguição dos brancos contra os índios’, na verdade ainda existe esta luta no sentido de que o dito desenvolvimentismo hegemônico por todo mundo é colocado à frente da preservação do bioma, onde em alguns casos mulheres e homens vivem em harmonia com a natureza. Este também é o caso da Reserva Indígena do Bananal, que sofre campanha agressiva do jornal de maior circulação no Distrito Federal.

O Ministério Público Federal, a Funai e a Defensoria Pública da União estão dispostos a defender os interesses indígenas e já questionaram a cobertura do jornal Correio Braziliense, que pode sofrer conseqüências graves pelo péssimo papel que desempenha na sociedade.

Mais informações aqui; aqui; aqui; aqui e aqui

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Do Coletivo CMI-Brasília

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