Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Jornalismo como culto à celebridade

Por Maurício Caleiro em 14/07/2009 na edição 546

É lugar-comum constatar que há tempos o Globo Repórter deixou de ser um programa de jornalismo investigativo, como seu nome sugere, e se transformou num mero show de entretenimento, com predileção por temas familiares – capazes de agradar homens e mulheres de idades variadas –, destacadamente saúde e natureza.

Ainda assim, causa espécie o grau de deslumbramento e culto à personalidade que tomou o lugar do jornalismo no programa exibido na sexta-feira (10/7), dedicado ao ‘rei’ – como o programa não cansava de chamá-lo – Roberto Carlos, que comemora 50 anos de carreira.

É realmente uma pena, sobretudo porque estávamos diante de um tema e de um personagem riquíssimos, o que tenderia a render um documentário do mais alto nível em mãos mais hábeis e interessadas, como as de um Eduardo Coutinho ou de um Jorge Bodanzky – que dirigiram edições antológicas do programa há mais de 20 anos, a ponto de algumas delas tornarem-se cultuadas por cinéfilos em retrospectivas e antologias.

Tragédia, polêmica e sucesso

Senão, vejamos: trata-se de uma trajetória que reúne em abundância alguns dos elementos caros à construção de um perfil jornalístico pleno de dramaticidade, emoção e espírito crítico. São eles:

** A tragédia (cuja superação engrandece ainda mais a trajetória vitoriosa do artista), como o grave acidente sofrido pelo cantor na infância, atropelado por um trem; a deficiência visual de seu primeiro filho; a agonia e morte de seu grande amor.

** A polêmica, presente na recusa do cantor em se posicionar politicamente durante a ditadura militar; na truculenta interdição judicial da biografia jornalisticamente honesta escrita por Paulo César de Araújo, cujo maior defeito é justamente a leniência e o culto excessivo ao ídolo; e na insistência, desde meados dos anos 1970 e até bem recentemente, em uma carreira que parece ter abdicado de qualquer forma de renovação em prol do mais estéril comercialismo, baseado numa espécie de ‘masoquismo romântico’.

** O humor, que ele manifesta tanto involuntariamente, em seu visual e vocabulário anacronicamente característicos (utilizando a gíria dos anos 1960 ‘bicho’para se referir ao interlocutor), quanto na maneira auto-irônica com que alude às ‘manias’ que adquiriu – e das quais luta por se livrar – por conta do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) que há anos o acomete.

** O sucesso, simplesmente o mais duradouro da história da música popular brasileira, superando o reinado do cantor Francisco Alves (que dominou as paradas de 1927 à sua morte, em 1952, vendendo estimados 5 milhões de discos 78 rpm), com recordes sucessivos de venda de discos no Brasil, além de eventualmente alcançar vendagens superlativas em termos mundiais, no segmento romântico.

Acrítico e tedioso

Mas, mais do que o sucesso, que se mede em números, o que distingue Roberto Carlos como artista é sua capacidade de, através das músicas que compõe e/ou interpreta, inscrever-se no imaginário sentimental do brasileiro; sua capacidade de traduzir, com profunda sensibilidade, de forma coloquial e direta, os sentimentos do povo. (E ainda que, nesse caso, seja possível questionar o gosto estético desse povo, é preciso atentar para o perigo de cair no elitismo politicamente ingênuo de, por exemplo, ridicularizar Carla Perez por ela achar que escola se escreve com ‘i’ sem deixar de condenar um sistema educacional que, além de tais deslizes ortográficos, possibilita que carlas perez celebridades se tornem.)

De qualquer modo, além do que Roberto Carlos representou de inovador como ídolo da então marginalizada música jovem no período da Jovem Guarda e dos grandes discos que, emergindo na soul music e no blues, lançaram no início dos 1970, parece inegável que canções como Detalhes, Cavalgada e Café da Manhã o colocam como um grande tradutor da alma romântica nacional – nesse quesito, um ‘rei’, na denominação que o consagrou – capaz, portanto, de angariar de forma única a idolatria e o amor de uma vasta legião de fãs.

Essa última característica, o Globo Repórter foi capaz de retratar. Porém, sem contrapô-la a qualquer dos outros elementos caros à trajetória de Roberto Carlos listados acima, o programa não passou de um acrítico e tedioso exercício de culto à celebridade. Opção que fez com que o jornalismo e o espectador saíssem perdendo.

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Jornalista, cineasta e doutorando em Comunicação pela UFF

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