Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DA ISTOÉ

Jornalismo moralmente indefensável

Por Marcos Cesar Gouvêa em 13/04/2004 na edição 272

Estou estarrecido com a ‘exclusiva’ da IstoÉ Dinheiro intitulada ‘Gushiken foi sócio de Waldomiro’. Aí o editor tascou, no olho, que ‘o pivô do escândalo que paralisa o governo e o ministro Luiz Gushiken já foram donos de uma fazenda em Goiás, dez anos atrás (…)’ e ‘a propriedade tem 605 alqueires e, segundo os donos, hoje vale R$ 650 mil’. Fiquei abismado, até porque fiquei sabendo da matéria via jornal Gazeta do Paraná, de Cascavel, que mancheteou na primeira página a 6 de abril: ‘Ministro de Lula foi sócio de Diniz’, e na linha fina: ‘Reportagem, de IstoÉ mostra que Luiz Gushiken foi sócio de ‘Waldô’ em uma fazenda localizada em Goiás’.

A chamada de primeira não explica nada, e muito menos a matéria no interior do jornal: ‘Cresce vínculo do governo com Waldomiro’. Como eu conheço a Gazeta do Paraná, jornalzinho venal que jamais teve um mínimo de dignidade em sua linha editorial, desconfiei. Comprei, caro, uma revista IstoÉ Dinheiro por 7,50 reais e fui ler a hecatombe que atingiu o japonês.

Tese confirmada

Mas qual? A matéria levantada pelos repórteres Leonardo Attuch e Hugo Studart é pífia. Fala de uma sociedade, seita, grupo esotérico que propunha em 1994 uma ‘sociedade alternativa’ e uma papagaiada dirigida por um médium. O grupo de ‘doidões’ tinha 19 sócios e pagava cotas para comprar uma daquelas áreas maravilhosas das chapadas de Goiás. E avançando na leitura da matéria – ginasiana em sua construção e raciocínio ilógico – eu só pude pensar uma coisa: os dois repórteres só podiam estar igualmente doidões para escrever um texto deste. Só não são piores que o editor, que se lambuzou todo na tentativa de ‘incriminar’ e envolver Gushiken com, como diz a suspeita Gazeta do Paraná, o ‘Waldô’.

Fiquei pensando com meus botões como chegamos a isso, e só posso concluir uma coisa. Isto é, realmente, dinheiro. Estão achacando o japonês, não há outra explicação. De quebra – gastei 7,50 reais na revista –, entre muitas pérolas achei esta, na matéria sobre o Cacciola:

(…) Reportagens daquele período (1999) também levantaram a suspeita de que alguns bancos, entre eles o Marka, pagavam propina para obter com (Chico) Lopes informações privilegiadas do BC (…).

Ora, cinco anos depois ‘as suspeitas’ ainda não foram dirimidas pelos heróicos jornalistas que as levantaram?! E o editor também não tinha que vir com o ‘Alberto Cacciola rompe o silêncio’ e blablablá. O ex-banqueiro ‘rompeu o silêncio’ com o livro que escreveu em parceria com Eric Nepomuceno. Eu mesmo cheguei a conversar com o Cacciola sobre o caso via internet, após a leitura do livro.

Enfim, por essas e outras que a nossa imprensa vai confirmando a tese de que esta profissão, de jornalista, é cada vez mais moralmente indefensável.

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Jornalista, Londrina, PR

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