Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Jornalismo que mata também é cego

Por Bruno H.B. Rebouças em 07/04/2009 na edição 532

A imprensa norte-rio-grandense, a cada dia que passa, se especializa em crimes cometidos por jovens de classe baixa, com pouca escolaridade e envolvidos, geralmente, com entorpecentes. O que a grande imprensa não retrata são as causas que levam esses fatos a acontecerem. Falta de estrutura familiar, falta de apoio dos governantes para promoverem programas sociais de vergonha, retirando as bolsas do governo, que compram os votos das camadas mais pobres. Uma política voltada para a conscientização dos estudantes e jovens, para que esses não se envolvam com o mundo do crime, assim como há em outros estados e países. Investimento em segurança. Mas, não. A grande imprensa trata apenas do fato destes ‘marginais’ matarem e assaltarem. Isso se deve, caro leitor, ao fato de que a mídia só publica o que lhe convém e o que não incomoda seus financiadores.

Partindo para essa vertente, no dia 30 de março, aconteceu ‘O Dia Nacional de Lutas’. Esse ato foi convocado por diversas instituições dos movimentos sociais, a fim de reclamar e atentar a população para a crise econômica que assola o mundo e na qual os trabalhadores vêm pagando os prejuízos. O ato reivindicava ‘a redução dos juros, a defesa dos direitos trabalhistas, investimento em políticas sociais e redução da jornada de trabalho sem redução de salários, a reintegração dos demitidos’; e, principalmente, protestava contra as demissões em massa, no estado do RN e no Brasil. Participaram do dia nacional de lutas os estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Brasília, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Sergipe e São Paulo.

Demissão de cobradores

Apenas dois meios de comunicação, impressos, publicaram a notícia no RN. Um fomos nós (Foque), o outro foi a Tribuna do (Alves) Norte. Como era de esperar, a Tribuna deu foco no ‘caos’ do trânsito, como se esse fator não existisse em Natal diariamente. Em vez de focar a importância do ato, que reuniu, em Natal, mais de 600 pessoas, e em São Paulo cerca de 10 mil, onde se faziam reivindicações de forma passiva e democrática, a ‘grande’ imprensa preferiu abordar o trânsito, tentando descaracterizar a marcha nacional.

É evidente a intenção da Tribuna, assim como dos demais meios de comunicação. A intenção é fazer você, cidadão, acreditar que não existe crise e, como disse o presidente-fanfarrão, ou vice-versa (você decide), ‘a crise mundial é uma marolinha’. Essa mesma marola levou o Japão à recessão. O fato que já está consumado é que o trabalhador e a classe média pagarão a conta da crise criada pelas grandes corporações e governos desastrados que gastaram milhões e milhões com causas inúteis. Como sempre, você pagará por uma conta que não fez.

O fato de descaracterizar a marcha de 30 de março não foi privilégio norte-rio-grandense. A Folha de S.Paulo também se preocupou com o trânsito da capital paulista. Nesses momentos, todos se preocupam com o bem estar social das pessoas que utilizam ‘os coletivos’. Mas denunciar o desleixo das prefeituras com o transporte público, esses meios não fazem. Aqui em Natal, a prefeitura, em parceria com as empresas de ônibus, está implantando a bilhetagem eletrônica, na qual motorista dirige e cobra a passagem. Ou seja, demissão em massa bate à porta dos cobradores nos próximos meses. Além disso, com esse sistema, os transportes alternativos deixam de existir e mais trabalhadores vão para a rua.

Sensacionalismo e desgraça

No trecho abaixo, a Tribuna dos Alves se preocupa com os cidadãos que ficaram nas paradas de ônibus e na fila de automóveis esperando por minutos.

‘A primeira parada, realizada no cruzamento das avenidas Cel. Estevam e Presidente Bandeira (Alecrim), durou cerca de 20 minutos e todo o trânsito ficou interrompido – causando grandes transtornos a quem esperava ônibus ou trafegava de carro próprio. As paradas ficaram lotadas e os passageiros reclamavam da demora.’

O repórter de tal jornal deveria andar mais vezes pelas ruas de Natal, pois assim ele constataria que as paradas de ônibus ficam lotadas e os passageiros reclamam todos os dias, a todas as horas. Mas o direcionamento da reportagem visou a transformar, como fez com as greves dos professores do município e do estado, o ato em caos, baderna e outras palavras que os jornalistas de gabinete usam com freqüência para descaracterizar os direitos de cidadãos, trabalhadores e estudantes.

Por fim, além da mídia alardear os casos de mortes em Natal e no interior, além de vender o sangue com o DNA de homens e mulheres desconhecidos nas suas páginas e faturar com isso, de não atentar o cidadão para a realidade dos fatos e o caos que o governo causa ao cidadão com suas atitudes errôneas. Além de omitir fatos, vender jornal com fatos sensacionalistas e ganhar audiência com a desgraça alheia, a ‘grande’ imprensa, seja ela falada, vista ou lida, é cega. Mas é cega, não por que tem catarata nos olhos. É cega de forma intencional, vendo apenas aquilo que lhe interessa, fazendo valer o velho ditado: ‘O pior cego é aquele que não quer ver’… Nesse caso, a realidade.

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Jornalista, Natal, RN

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