Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
Menu

FEITOS & DESFEITAS >

Jornalista noticia, e policial, para que serve?

Por Gustavo Serrate em 07/07/2009 na edição 545

Pois saiba que existe jornalista fazendo papel de polícia, julgando e criminalizando sem questionar.

Dizem que a função do policial é preservar vidas, mesmo quando faz uso de uma arma letal. É meio contraditório. Quem se contenta com o policial, já dá o primeiro passo torto. Como Bukowski definiu: ‘Um sujeito põe aquele uniforme e passa a fucionar como um assalariado de um sistema que quer manter a situação do jeito que está.’ Uma vez que você aceita essa premissa, tem que acreditar que a situação do jeito que está, o status quo, é a situação ideal, quando não é. Agir em prol da preservação da ordem pública pode não ser saudável se o Estado que mantém essa ordem está adoentado pela corrupção, pela confusão, pelo mau funcionamento, pela morosidade, pelo mau governo.

O jornalista, por sua vez, não é um mero apontador da desordem, o jornalista deve ser um questionador, e deve fazer uso constante da sua faculdade de pensar. O policial não pensa, cumpre ordens sem questionar. Além disso, nem todo policial realmente cumpre a lei. E, segundo, que lei é essa? Quem faz a lei e com que interesses?

Os policiais existem para cumprir as ordens e as ordens muitas vezes não têm nada a ver com o seu bem estar. Tornam-se contraditórias perante o slogan preferido da corja: ‘Servir e proteger.’ Se um líder impõe o toque de recolher, quem vai descer o cacetete na sua cabeça é o policial que antes supostamente te protegia. Esse homem armado, ostentando uma insígnia metálica, com um quepe engraçado e uma farda de herói, é um inimigo em potencial. Pobre do jornalista que está do lado dos carcarás da lei, que assume o discurso ‘legal’ como a última palavra, ortodoxo.

Homens sem alma

Servir e proteger é apenas um estado de operação para estas máquinas letais. O policial pode cumprir ordens para te prender a mando de alguém, pode te extorquir, pode te bater, pode te revistar, pode te interrogar, pode te matar – e estará apenas cumprindo seu dever. Sob o comando, um policial pode mudar seu estado de ação rapidamente. Os policiais não são amigos da sociedade, não são aliados, são potenciais inimigos e o poder nas mãos deles (e dos militares) já se mostrou uma péssima alternativa. Alguém se lembra da ditadura militar veementemente criticada por tantos jornalistas do passado (naquela época em que a vida era mais real e menos virtual)?

Não é difícil encontrar uma viatura no meio da cidade ignorando placas, andando na contramão, subindo no meio-fio, ligando a sirene para atravessar sinais, pulando engarrafamentos, ignorando as leis que têm como trabalho preservar. Os meganhas, orgulhosos de sua elegância, passeiam nas ruas pairando acima de todos, com uma arrogância silenciosa mas loquaz, tudo por causa de uma arma e de um cassetete, assessórios indispensáveis aos que não têm respeito suficiente e fazem do medo um aliado constante. Os civis, do ponto de vista militar, são gado, uma sub-classe a ser atendida e orientada.

Vivem uma vida paralela à do cidadão comum. Estão habituados à violência, isso faz parte de seu dia-a-dia. O sangue, a morte, as drogas são o lado comum do seu trabalho, são homens sem alma, desumanizados pelo treinamento ostensivo, prontos para responder a argumentos com porradas, gritos e tiros.

Um robô que cumpre ordens

Ano passado, um incompetente jornalista escreveu uma matéria sobre o fato de que os motoristas dos caminhões de água cometem o crime de transportar água para fins privados. A lei, feita para beneficiar apenas os caminhões-pipa a serviço da companhia de água local, desempregou e criminalizou uma série de trabalhadores e deixou inativos caminhões-pipa caríssimos. Em uma cidade como Brasília, o abastecimento de água é um assunto crítico. Certas leis são instituídas sem o fim de atender a população, são decididas pelos poderosos, que vivem em seus gabinetes confortáveis, bebendo água da fonte da coca-cola a dois reais o gole. As leis são instituídas sem nenhuma consulta ao povo e sem nenhum conhecimento da realidade crua.

O papel do jornalista aqui é questionar a lei, consultar o povo e até mesmo o motorista criminalizado, mas em sua matéria completamente tendenciosa, o ‘profissional’ fez o papel de policial. Julgou os trabalhadores em nome da lei e apontou: ‘Cometem um crime.’ Não ouviu nenhuma fonte que não fosse ‘oficial’ e todos sabem que as fontes oficiais têm sempre o mesmo discurso brando, típico de assessorias de imprensa (instituição dotada de profissionais do jornalismo que sabem como enganar um profissional para que ele diga o que o patrão do assessor quer ouvir).

Que lei é essa?, eu pergunto. O jornalista do caso acima tem a mentalidade policial, e a mentalidade policial está impedida de pensar. Deve apenas cumprir ordens. O policial é uma máquina que trabalha a favor do Estado, é um robô pronto a cumprir ordens sem questionar. Pode o jornalista dar-se ao luxo de agir sem pensar?

O que é justiça?

Certa vez, em Curitiba, eu passava por um local e um moleque de rua caminhava na mesma direção. Ele comentou algo comigo, pediu dinheiro e eu não tinha. Quando virei a esquina, um cano de revólver estava apontado diretamente para a minha cara. Tomei um susto. Por ter me visto conversando com o marginal, o policial julgou que eu estava em atitude suspeita. Comprando drogas ou coisa que o valha. Pediu minha identidade, que é de Brasília, e esperei mais de uma hora, com as mãos na parede, até que ele checasse se estava tudo bem com os meus registros. O policial fez questão de que eu ficasse naquela posição constrangedora e cansativa durante todo o tempo. Se me atrevesse a sair da posição, se questionasse a autoridade, eu poderia sofrer as consequências da violência ou até mesmo ser enquadrado em algum crime de desacato.

Algo no treinamento da polícia (e dos militares em geral) os compele a um senso de humor sádico de gosto duvidoso. Eles conhecem as mais diversas maneiras de causar sofrimento, dor, de pressionar, de ameaçar e subjulgar.

Se você, jornalista, pensa em fazer ‘justiça’, questione. O que é justiça? É da minha alçada fazer justiça? A que lado eu estou servindo? As fontes que escolho para a minha matéria fazem mesmo parte dos vários ângulos do assunto? Para que servem os policiais? Você não vai querer tornar-se um deles, vai?

******

Jornalista, Brasília, DF

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem