Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Jornalista que não lê é como médico que não põe a mão no paciente

Por Victor Barone em 25/11/2008 na edição 513

O professor Pasquale Cipro Neto esteve em Campo Grande (MS) na terça-feira (19/11) proferindo palestra sobre as novas regras na gramática da língua portuguesa que entram em vigor no ano que vem. Pasquale tem um forte envolvimento com o jornalismo. É consultor de língua portuguesa do Departamento de Jornalismo da Rede Globo, em São Paulo, desde 1996, e colunista dos jornais Folha de S.Paulo e Diário do Grande ABC, entre outros. Também assinou o anexo gramatical do Manual de Redação da Folha, onde trabalha há dezoito anos no Programa de Qualidade e na Editoria de Treinamento. Após a palestra – realizada na Câmara Municipal – tive a oportunidade de conversar rapidamente com ele sobre alguns temas relacionados ao Jornalismo.

O senhor tem um envolvimento forte com o jornalismo, convive com profissionais da área diariamente. Diante disso, como os jornalistas estão tratando a língua portuguesa?

Pasquale Cipro Neto – Com altos e baixos. A coisa depende muito do veículo e, dentro dos próprios veículos, também existem altos e baixos. O jornalista tem uma particularidade que não pode ser desprezada nesta análise, que é o tempo. O jornal é feito de agora para daqui a pouco e isso complica muito a vida do jornalista, que precisa redigir depressa, sob pressão, e isso condiciona, tem que ser levado em conta. De modo geral, diria que há altos e baixos, existem textos bons e textos ruins, muito pobres e textos bem feitos, redondos.

Uma cobrança, e não um faz-de-conta

Mas, de forma geral, focando o uso da língua portuguesa pelos que começam agora na profissão, que análise pode ser feita?

P.C.N. – A coisa está mais para baixo do que para cima. Existe uma pobreza muito grande, não só de expressividade como também de conhecimento. O pessoal não lê. Jornalista que não lê é como médico que não põe a mão no paciente, como dentista que tem medo do barulho da broca.

Há um debate posto sobre a necessidade de alterar o currículo do ensino do Jornalismo no Brasil. O senhor considera que um foco mais pesado sobre a leitura, sobre a literatura, poderia melhorar a qualidade do texto jornalístico no país?

P.C.N. – Poderia ajudar, sim. A leitura dos clássicos, mas não só da literatura, pois o jornalista pode e deve ler outras coisas, deve ser informado sobre tudo. Tudo isso ajuda. Só que a gente vê hoje um mundo de faz-de-conta. Tá bom, vai… Vamos exigir a leitura. Aí, o sujeito vem com um resumo que ele pegou da internet. É preciso que haja uma cobrança efetiva disso e não um faz-de-conta. Se não houver uma cobrança efetiva, uma avaliação, fica tudo naquele esquema: eu finjo que faço, você finge que acredita e pronto.

Aprendizado se dá na prática

Dentro destas modificações que vão ocorrer na língua portuguesa a partir do ano que vem, qual influirá mais no dia-a-dia do jornalista?

P.C.N. – O uso do hífen, talvez. Mas acho que isso é o de menos. Estas mudanças não vão influir em nada com a estrutura do texto, com a clareza dele, ou seja, não vai mudar nada. Quem sabe escrever continuará escrevendo bem.

Hoje, há profissionais que se fiam muito no corretor ortográfico do Word. O que o senhor pensa disso?

P.C.N. – Desliguem o corretor. Com as mudanças que serão implementadas ele se tornará pouco confiável.

Em sua palestra, o senhor disse que seu aprendizado da língua portuguesa, seu aprendizado profissional, se deu de forma mais concreta no dia-a-dia, na prática, e não na universidade. O senhor acha que esta afirmação se aplica ao jornalismo?

P.C.N. – Acho. Do jeito que a coisa está, acho. Poderia não ser assim, mas do jeito que a coisa está, é assim que funciona. Vejo isso na minha prática diária.

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Jornalista, Campo Grande, MS; editor do blog Escrevinhamentos http://escrevinhamentos.blogspot.com/

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