Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > RODA VIVA

Jornalistas despreparados, entrevistado esperto

Por Cássio Gusson em 06/03/2007 na edição 423

Envolvido nas principais manchetes quando a assunto diz respeito à criminalidade, o governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, esteve presente na segunda-feira (26/2) no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, para responder as questões dos jornalistas Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo, Carlos Marchi, repórter e analista de política do jornal O Estado de S.Paulo, Mário Simas Filho, editor-chefe da revista IstoÉ, Ana Carvalho, editora-chefe adjunta do Jornal do Brasil, Dácio Malta, colunista do jornal O Dia, Renata Lo Prete, editora do ‘Painel’ da Folha de S. Paulo e Denise Rothenburg, colunista de política do Correio Braziliense.

Cabral teve a seu favor tanto o ‘início de mandato’, o que resulta em poucas cobranças de ordem prática devido ao pouco tempo no cargo, falhas das administrações anteriores e a credibilidade da população que o elegeu, acatando o discurso pragmático e inovador. Contou também a seu favor a preparação prévia de sua assessoria, o que resultou em respostas precisas e ao mesmo tempo evasivas – afinal, muito foi falado e pouco, ou quase nada, se elucidou sobre de onde saíram verbas para financiar os programas e projetos a que se referiu. Falha dos jornalistas presentes no programa em não questionar esse ponto.

‘É gostoso porque é proibido’

Outros pontos importantes também passaram despercebidos na pauta dos jornalistas e ficaram ausentes do debate. Em relação ao carnaval, por exemplo, há dados que dizem que, apesar de todo o turismo e investimento, a festa carioca contou com um prejuízo da ordem de 7 milhões de reais.

Quando a assunto passou a ser política, Sérgio Cabral defendeu ser ‘amigo de todo mundo’ e faltaram questões a respeito de seus desafetos. Questões referentes à posição sempre governista do PMDB também ficaram ausentes do programa, embora pudessem tê-lo feito mais interessante, assim como questões que abordassem a ‘sopa de letrinhas’ pela qual passou o governador, que em sua juventude foi militante do Partido Comunista, depois passou pelo PSDB e agora é filiado ao PMDB.

No campo esportivo, o Pan-Americano foi o grande foco e questões de segurança e infra-estrutura do evento foram pouco abordadas. Nenhum dos jornalistas perguntou – grande falha – o que será feito depois com a vila do Pan e outras obras construídas somente para o evento. Além disso, não foi abordado o ‘inchaço’ que sofrerá o Rio, que já conta com cerca de 6 milhões de turistas e receberá muitos mais nas datas do evento.

Para o último bloco ficaram destinadas as perguntas ‘polêmicas’ sobre a posição do governador em relação à liberação das drogas e ao aborto. Neste quesito, os entrevistadores presentes demonstraram sua grande fragilidade, pois não conseguiram questionar Cabral e nem o levaram a tomar posições.

O governador disse que ‘o assunto tem de ser colocado na mesa’ (frase que resultou na melhor charge de Paulo Caruso durante o programa), mas não expôs de forma precisa sua opinião ou os argumentos que a sustentam, sabendo que o tráfico de drogas é uma questão internacional e que o consumo delas não é apenas a questão do ‘é gostoso porque é proibido’, premissa adotada por alguns presentes no programa e que mostrou um total despreparo e falta de senso da imprensa no que tange a essa questão.

Noel e Bezerra da Silva

Sugerir soluções para a criminalidade envolve questões amplas que vão muito além do campo da segurança e devem vir em conjunto com projetos de curto prazo sem implicar em ações precipitadas: cumprir o ECA deve vir antes de tentar modificá-lo e as questões de ‘acessibilidade’ propostas pelo governador têm tudo para ser políticas populistas, como foi o Fome Zero e é o Bolsa Família, e os presentes pecaram por não abordarem esse viés e tampouco o fato de Cabral ter dito que não usará a verba publicitária para promoção do governo, mas para ações ‘institucionais’, como folders de conscientização da gravidez precoce, por exemplo.

Cabral saiu-se muito bem citando até Noel Rosa. A imprensa presente demonstrou certa fragilidade, embora Renata Lo Prete e Paulo Markun tenham feito um trabalho muito bom, ‘alfinetando’ o governador nas horas necessárias, mas o júri decidiu em favor do governador, apoiado nas questões ‘previsíveis’ da imprensa.

‘Aaaah, meu bom juiz/ Não bata esse martelo nem dê a sentença/ Antes de ouvir o que o meu samba diz…’ Sérgio Cabral precisa dizer um pouco mais, não só aos sambas de Bezerra da Silva, mas a toda a população e espera-se que a imprensa não perca essas oportunidades, pois afinal Cabral terá de ter muito a dizer daqui para frente.

******

Coordenador de Comunicação, Jundiaí, SP

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem