Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > ECOS DO JULGAMENTO

Jornalistas também têm auto-estima

Por Alberto Dines em 04/09/2007 na edição 449

Nos últimos dias a cena política brasileira assemelhou-se a um imenso observatório da imprensa. A analogia não se completou graças a um detalhe – excesso de preconceitos. Não há debate, apenas troca de indignações.


Choveram acusações e denúncias, a metáfora da faca no pescoço inspirou charges, diatribes, elucubrações, o verbo acuar foi usado na voz ativa e passiva, mas faltou a disposição para avaliar uma crise com potencial para envenenar as relações governo-imprensa de forma ainda mais aguda do que a anterior, em meados do ano passado.


O pretexto para o confronto foi oferecido por dois registros jornalísticos espetaculares: o diálogo digital entre os ministros Ricardo Lewandovski e Carmen Lúcia seguido dias depois pela reprodução parcial de uma conversa telefônica entre este magistrado e um irmão.


Mesmo sem estes feitos o clima seria igual: o governo não contava com a disposição da mídia para criar tamanha expectativa junto à sociedade. Quando a sessão foi iniciada em 22/8/2007, a excitação de 2005 estava plenamente reavivada.


Preconceito poderoso


Os estrategistas políticos imaginavam que a denúncia do procurador-geral da República seria soterrada pela barragem de acusações proferidas pelos advogados dos denunciados e pelo inevitável tecnicismo jurídico que acompanharia as discussões em plenário.


Não contavam com o didatismo do relator, o ministro Joaquim Barbosa, que tornou tudo muito claro e transparente. Não contavam com o persistente acompanhamento da mídia (portais de notícias e blogs na internet, assim como rádios all-news). Não contavam, sobretudo, com a cobertura ao vivo da TV Justiça que envolveu aquelas sessões do STF numa atmosfera de excepcionalidade.


Esperava o governo que a mídia esqueceria um escândalo que empolgou grande parte da sociedade brasileira no período 2005-2006? Tantas vezes acusada de desmemoriada e de negligência no acompanhamento de casos demorados, a mídia se comportaria novamente de forma burocrática e indolente? Imaginava o governo que seus constantes ataques à imprensa a intimidariam?


O grande erro do governo foi não ouvir os conselhos do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, Franklin Martins, que repetia: ‘Não esqueçam dos jornalistas’. Intoxicados pelas próprias denúncias contra um suposto golpismo da imprensa, o núcleo palaciano esqueceu que esta imprensa não é uma entidade-fantasma, abstrata, servida por autômatos desalmados e desvitalizados.


Auto-enganou-se. Enfiou na cabeça o preconceito de que jornalistas são empurrados apenas pelo mimetismo ou espírito da manada. E esqueceu que a imprensa também tem auto-estima.


Exercício crítico


O jornalismo não nasceu em teses acadêmicas, ele é o que é graças a uma consciência profissional sedimentada ao longo de quatro séculos, geralmente não-verbalizada, porém inequívoca. Viva.


Foi este amor-próprio que levou o fotógrafo Roberto Stuckert Filho a acionar a sua câmera, foi esta dignidade coletiva que levou a repórter Vera Magalhães a prestar atenção ao que dizia um magistrado do STF no pátio de um restaurante.


Observar a imprensa sem levar em conta a sua humanidade é um exercício crítico fadado ao fracasso.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 17/10/2010 Luciano Pinto Ferreira de Assis Lu

    O filme A Montanha do Sete Abrutes,com Kirk Douglas,feito na decada de 50 e semelhante ao evento de Copiapo,em n* e grau,.merecem vê-lo,é espetaculo dantesco,hilariante .

  2. Comentou em 10/09/2007 Douglas Marques

    Douglas Marques , Cana Verde-MG – Jornalista
    Enviado em 5/9/2007 às 10:27:44 AM

    Estão todos querendo ser vítimas, mas a primeira vítima de tudo é a verdade. É claro que jornalista tem auto estima, mas fazer o que se os interesses políticos de certos editores ou veículos falam mais altos. Poderia ter mais programas na tv brasileira sobre meta- jornalismo. mas não que confudem coisas pessoais com profissionais. Eu tenho auto estima e acredito que só nossa classe pode salvar a sociedade…. por isso que quiz ser jornalista

  3. Comentou em 10/09/2007 Douglas Marques

    Douglas Marques , Cana Verde-MG – Jornalista
    Enviado em 5/9/2007 às 10:27:44 AM

    Estão todos querendo ser vítimas, mas a primeira vítima de tudo é a verdade. É claro que jornalista tem auto estima, mas fazer o que se os interesses políticos de certos editores ou veículos falam mais altos. Poderia ter mais programas na tv brasileira sobre meta- jornalismo. mas não que confudem coisas pessoais com profissionais. Eu tenho auto estima e acredito que só nossa classe pode salvar a sociedade…. por isso que quiz ser jornalista

  4. Comentou em 08/09/2007 Lúcia Nunes

    Alguém disse que há jornalistas que não se limitam a comentar os fatos, e portanto querem mudar a realidade. Achei que é tacanha esta afirmação. Afinal, participando ativamente ou não do OI, decidi manter, ainda que muita dificuldade, a expectativa de que podemos mudar as estruturas corroídas que, antes do FHC&Lula, permitiam que nosso país apresentasse uma integridade pelo menos aparente. Jornalistas existem para isto: desconcertar patrões privados ou públicos… Sei lá. Muita coisa mudou. Continuo pensando no universal. Não é necessário formação jornalística para ver o mundo deste jeito. E há muita gente (escolarizada ou não) que não abre mão de andar de cabeça erguida. Podem me chamar de anacrônica, ainda que anda pela faixa dos 45 anos. O que é belo e bom faz bem à mente e ao coração. Desculpem-me os endurecidos. Está tudo um deserto por aqui, mas continuo idealista… Cheguei à conclusão que é a única saída. Fora niilistas meia-boca! Vocês um dia foram tão idealistas como eu, mas no meio do caminho… Espero que desatravanquem-no, parafraseando o nosso querido poeta Mário Quintana, que dizia: ‘(…)Eles passarão, eu passarinho…’.

  5. Comentou em 06/09/2007 Felipe Faria

    Os jornalistas que comentam por aqui não se contentam em relatar os fatos, querem mudar a realidade.

  6. Comentou em 05/09/2007 Aninha Franco

    E como!!!

  7. Comentou em 05/09/2007 Marcio B. Martins

    Dines está em gozo porque deputados do PT estão no STF. Certamente ele não tem preocupação de saber dos crimes de deputados do PSDB, o quarto com mais deputados processados no STF.

    Deu no Vermelho:
    Um em cada seis parlamentares da atual legislatura está sob investigação na mais alta corte do país. Levantamento feito pelo site Congresso em Foco revela que, até o último dia 29, havia 172 inquéritos e ações penais contra 92 deputados e 23 senadores. Chama atenção que os três principais partidos de oposição (PSDB, DEM e PPS) têm 22 deputados sendo julgados pelo STF, três vezes mais que o PT, que tem sete parlamentares nesta condição.

  8. Comentou em 05/09/2007 ubirajara sousa

    ‘Esperava o governo que a mídia esqueceria um escândalo que empolgou grande parte da sociedade brasileira no período 2005-2006? Tantas vezes acusada de desmemoriada e de negligência no acompanhamento de casos demorados, a mídia se comportaria novamente de forma burocrática e indolente? Imaginava o governo que seus constantes ataques à imprensa a intimidariam? ‘
    Que manifestação(ões) do governo credenciam o senhor Dines a escrever isto? O trabalho do senhor Dines, ultimamente, assemelha-se, muito, ao de fazer ‘adubo de compostagem’: colocam-se uma camada de folhas e outra de esterco animal; outra de folhas e outra de esterco até atingir o volume desejado. A cada dia seguinte essa misturada é revirada, mexida. O odor é terrível. A meu ver, é isso que tem feito o senhor Dines. E ele é jornalista.

  9. Comentou em 05/09/2007 Ivan Bispo

    Dines no livro Deus no céu e o mercado na terra, de Frank Thoms, lemos: ‘ … A crise de legitimidade do jornalismo pôde ser descrita de um sem-número de maneiras estatísticas ou metafóricas, dependendo das necessidades do repórter: a circulação estava declinando; a Geração X estava zombando; outros meios de comunicação estavam invadindo o campo das cadeias de rádio e televisão e dos jornais; e os próprios jornalistas estava fazendo asneira onde quer que se olhasse, entendendo mal as coisas, caindo em logros, inventando logros eles próprios. Depois havia aquele dato da natureza aterrador, aquela onda gigantesca e crescente de repulsa do povo pela imprensa, refletida por uma pesquisa de opinião após outra, pelas disputas de popularidade que os jornalistas pareciam sempre perder – quer fossem confrontados com políticos, vendedores, … o pessoal do segundo andar, quem quer que fosse. Os jornalistas estavam na base do amontoado. Eram sensacionalistas, deturpadores e mentirosos, acreditavam os americanos, tão universalmente corruptos e indignos de confiança quantos os políticos eleitos, com quem supostamente deveriam estar em guerra perpétua. sua posição social não sendo mais segura, seu poder de moldar o discurso público não mais irresistível, e suas prerrogativas tradicionais podendo agora ser apropriadas por qualquer pé-de-boi.’

  10. Comentou em 05/09/2007 Hélcio Lunes

    Dines, a imprensa vem sendo vítima dos teóricos do ‘tira o sofá da sala’! Você deve conhecer a piada: O camarada chega em casa e apanha a mulher, digamos, adicionando-lhe um par de chifres! O que faz o valoroso traído? Chuta, cospe e queima o sofá! Nada a respeito da mulher.
    É mais ou menos isso o que vem sendo feito contra a imprensa livre, que é chutada e cuspida por cumprir seu papel republicano.
    Imagino que os que atacam a imprensa hoje, foram os mesmos que dela se serviram para chegar ao poder, e lá chegando dela fojem como o diabo da cruz!
    Quem sabe a imprensa deveria ficar calada a respeito da quadrilha denunciada pelo Procurador Geral da República- nomeado e reconduzido ao cargo por Lulla). Ou aceitar caladinha as novilhas de ouro, as notas frias, os laranjas do ‘Produtor Rural’ Renan Calheiros!
    A auto estima dos jornalistas deve estar em alta, pelo imenso serviço prestado ao país, e aos brasileiros.
    Gente que só convive com o aplauso fácil, a mentira e dissimulação, a verdade única que é empulhada aos pobres dependentes das tais ‘bolsas’ isto e aquilo, deveriam se recolher em silêncio obsequioso, ao invés de atacar a quem faz (e bem) o seu trabalho!

  11. Comentou em 04/09/2007 Célio Mendes

    Mais uma pérola de nosso perlífero observador ‘Jornalistas também têm auto-estima’, pois é… O bacalhau também tem cabeça, tal qual o bacalhau alguns observadores da imprensa também perderam algo importante, o seu senso de ridículo, sem ele produzem avaliações simplistas como esta que acabo de ler, por outro lado como alguns já diagnosticaram pode ser puro cinismo mesmo.

  12. Comentou em 04/09/2007 Severino xavier

    Sr. Alberto Dines, as vezes eu fico em dúvida se és um cínico jornalista ou um jornalista cïnico, e olha que te acompanho com muita circunspeção. Pensas que escreves só para jacobeus e histriões torvados? não camarada, esse Brasil felizmente é povoado também de seres pensantes, que sabem discernir o que é um jornalista assecla e lacaio e o que verdadeiramente sabe honrar essa profissão.

  13. Comentou em 04/09/2007 silvia bandeira

    Senhoer Paulo Bandara,
    mais uma vez através de seus comentários consegue despejar todo o ódio contra o PT, quanta hipocresia para não dizer má fé quando afirma que que o Olivio Dutra mandou arquivar o processo. Isso é típico de quem le e aceita como cordeirinho a Zero Hora e o Sul. Lhe pergunto mais uma vez, quando ouvirei algum comentário seu a respeito da grande corrupção na Assembléia gaúcha, comandada pelos seus mas até agora no mais absoluto silencio – deputados, senador , assessora da governadora, etc. etc. Isso pelo visto não deve ser investigado e muito menos punido. Ah, é do PSDB-DEM…

  14. Comentou em 04/09/2007 Sidnei Brito

    A jornalistas incompetentes, dependentes de suas câmeras escondidas e de suas orelhinhas ligadas, pouca coisa mais resta do que ter um pouco de amor-próprio. Ah, claro, um pouco de amor pelos patrões também ajuda!

  15. Comentou em 04/09/2007 Washington Ferreira

    O extinto Observador se deleita com uma nova espécie de jornalismo, o ‘jornalismo Big Brother’, que pode invadir a janela, o computador ou o celular alheio com o mesmo despudoramento com que a Rede Goebbels invade nossas casas com aquele programa ridículo. No entanto, a privacidade dos donos da mídia é totalmente preservada, sendo-lhes permitida até a realização de transações nebulosas sem o mínimo de investigação dos tão elogiados ‘jornalistas’, que não passam de sabujos como diz o Mino Carta. Seria bom que o extinto Observador acordasse para o fato de que a crítica à imprensa se generalizou por todas as classes e estamentos sociais, não é uma prerrogativa só do governo Lula. Agora, que tal vocês esquecerem o governo e passarem a observar a negociação TVA-Telefonica, a postura de O Globo diante do recém-lançado livro sobre os crimes da ditadura militar ou a recentíssima tentativa (mais uma) da Folha de São Paulo em desqualificar o Bolsa-Familia, projeto social elogiado e copiado em todo o mundo?

    O papel reservado a jornalistas como vocês, no futuro, é o de proporcionar boas risadas pelo facciosismo infantil e pela submissão ao estrangeiro.

  16. Comentou em 04/09/2007 neide guerra

    O que vocês JORNALISTAS’ querem? Agradar o patrão. No seu caso, o patrão é Serra. Vocês são uma corporação tão podre quanto qualquer outra corporação brasileira, defendem o próprio bolso, salvo alguns poucos.

  17. Comentou em 04/09/2007 Fábio Carvalho

    A crítica não é ao fotógrafo, mas ao responsável pela publicação da correspondência eletrônica entre ministros do STF no jornal O Globo. Nem tudo o que é apurado por um repórter sai publicado na matéria, por razões variadas. Não são imagens de vísceras expostas de cadáveres que devem ilustrar as páginas policiais (mas os fotógrafos precisam fazer vários registros do corpo, pois essa imagem pode se revelar muito importante num desdobramento do inquérito ou do processo judicial). O flagrante do repórter Roberto Stuckert Filho era, sem dúvida, precioso e poderia pautar ângulos exclusivos da reportagem, sem recorrer a expedientes grosseiros. A conduta de Vera Magalhães, da Folha, é irrepreensível, também porque sua matéria descreve detalhes do momento em que a conversa foi ouvida. Eu também já ouvi conversa (desimportante) de um governador no banheiro de um estabelecimento público. Incapaz de reconhecer excessos e abusos no direito de informar, ou preocupada em exaltar a humanidade do jornalismo em estado puro, a observação da imprensa pretende constranger o direito inviolável que os leitores têm de criticar a imprensa. Pior ainda é confundir as críticas à cega defesa do governo, ou ainda a uma descabida solidariedade aos que respondem processo criminal no STF. Toda aversão à crítica é autoritária, seja do PT ou da mídia.

  18. Comentou em 19/07/2006 Rui Araújo

    Boa noite meu caro Alberto Dines,
    Não tenho o prazer de estar consigo desde o encontro internacional de jornalistas – Recife (há alguns anos), mas tenho acompanhado o excelente trabalho produzido no site do Observatório da Imprensa.
    Permita-me apenas formular um reparo (relacionado com a minha crónica no jornal Público) citada na vossa página http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=390VOZ005
    com o título ‘Voz dos Ouvidores’, crónica de Rui Araújo, datada de 18/7/2006, publicada no jornal Público, as 3 primeiras linhas do meu texto reproduzido no vosso site são uma repetição de uma parte do meu texto que está mais adiante…
    O texto original do Público começa assim: ‘O Público de 23 de Junho de 2006,… e não como vocês escrevem.
    Mais uma vez obrigado pelo destaque facultado às minhas crónicas.
    Um abraço forte e amigo,
    Rui Araújo

    PS- Caso esteja interessado pode retirar directamente o texto das minhas crónicas do Público (publicadas ao domingo) do blogue do provedor cujo endereço electrónico é o seguinte: http://provedorpublico.blogspot.com/

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