Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > A IMPRENSA E O MINISTRO

Justiça não tem cor… Ou tem?

Por Gabriel Perissé em 11/09/2007 na edição 450

Nas capas de Veja e Época da primeira semana de setembro predomina o rosto do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa. O juiz-relator no processo dos mensaleiros surge como herói no país da impunidade.

O homem incorruptível – o olhar reflexivo (na Veja) e alerta (na Época). Contudo, além do senso de justiça, patente neste olhar, chama nossa atenção (embora muitos digam nem estar pensando nisso…) o fato de ele ser negro e de origem social ‘humilde’.

Sua cultura impõe respeito, sobretudo (brasileiro com isso se impressiona) os idiomas que domina. Conhecer francês, inglês e alemão inclui Joaquim Barbosa entre os seletos. Na revista Raça Brasil, em maio de 2004, a jornalista Conceição Lourenço dizia, hiperbolicamente, que o entrevistado era ‘dono de um dos mais brilhantes currículos do mundo’.

Questão importante

Os críticos de Lula vibram – finalmente o contra-mito! A exceção de Joaquim Barbosa denunciaria a falha estrutural do assistencialismo do governo. Pai pedreiro, mãe dona de casa, família com oito filhos, egresso da escola pública, faxineiro, depois advogado e procurador do Ministério Público, a biografia de Barbosa serve para questionar o Bolsa Família. Esforço individual é o que resolve tudo.

André Petry, na Veja, faz a comparação:

‘Joaquim Barbosa trata sua trajetória de vida de maneira mais reservada do que o presidente. Ele não desfralda sua origem pobre de primogênito de oito filhos de pai pedreiro e mãe dona-de-casa como bandeira para valorizar sua trajetória de sucesso.’

O próprio Petry se encarrega de contar como Joaquim Barbosa – por mérito indiscutível, talento, determinação invejável… e um pouco de sorte –, se destacou na profissão. E enfatiza: Barbosa ‘não é militante da negritude’.

No entanto, a revista Época, numa edição mais antiga (abril de 2003), em matéria assinada por Luciano Dias, apresentara o (naquela altura) indicado jurista como alguém engajado. Depois da reprovação em concurso para a carreira diplomática…

‘A consciência racial de Joaquim Barbosa, que começou a ser desenhada na adolescência, ganhou contornos mais fortes. Ganhou novas cores, quando […] conheceu o país, especialmente o Nordeste […]. Foi lá onde Joaquim Barbosa teve um contato maior com o que ele chama de ‘Negritude’.’

Uma questão importante agora é compreender as razões (sociais, culturais, educacionais…) que explicariam, em nossa população com quase metade de afrodescentes, ser o dr. Joaquim Barbosa o único negro no Supremo Tribunal Federal.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/09/2007 Ricardo Camargo

    A questão da raça, pode, em algumas situações, influir na concessão ou denegação de direitos (as obras Clara dos Anjos e Recordações do escrivão Isaías CAminha, de Lima Barreto, retratam isto), em outras, ser absolutamente irrelevante. Considerando a Judicatura, por exemplo, conheci juízes negros e mesmo nipônicos. Houve um desembargador, aqui, o Tupinambá Miguel Castro do Nascimento, que era negro, e, diga-se de passagem, era um excelente desembargador – mas era-o não em virtude da raça, mas sim em virtude da sua capacidade de aplicar a lei ao fato reconstituído nos autos -. NO TST, já houve Ministro negro entre os vogais e o Min. Carlos Alberto Reis de Paula é negro, é juiz de carreira e é um excelente julgador – novamente, isto nada tem que ver com a raça, mas com a sua competência técnica -. As mulheres, para chegarem aos Tribunais Superiores, passaram por muito mais percalços, a bem da verdade: a primeira, no TST, foi a Min. Cnéa Moreira. Depois, no STJ, foi a Min. Eliana Calmon. Depois, no STF, foi a Min. Ellen. A Judicatura toma como requisito específico, mas sim a possibilidade de bem julgar, de não absolver quando o fato reconstituído leve à condenação e não condenar quando o fato reconstituído só possa levar à absolvução. Neste particular, com todo o respeito que merece o Prof. Perissé, a pergunta está mal posta.

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