Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > TV RECORD

Keila Jimenez

04/10/2005 na edição 349

‘A Record está investindo pesado na infra-estrutura para a produção de teledramaturgia. Depois de comprar um área com estúdios na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio), a emissora está locando um terreno de quase 10 mil metros quadrados em uma região próxima a Bragança Paulista, interior paulista.

A área, que é totalmente descampada, longe de residências ou montanhas, será utilizada para a construção da cidade cenográfica de Cidadão Brasileiro, novela de Lauro César Muniz que estréia em 2006 na rede. O folhetim, que começa a ser gravado em janeiro, se passará justamente na mesma época da construção de Brasília, sendo assim necessária a retratação do Distrito Federal naquela época na cenografia.

A Record pretende locar o terreno apenas durante o tempo de gravação da trama. As cenas em estúdio serão gravadas em São Paulo, em um dos quatro estúdios que emissora tem na sede na Barra Funda.

A rede está ainda investindo na construção de três novos estúdios no terreno que comprou no Rio. No negócio, fechado no primeiro semestre, a emissora pagou o equivalente a R$ 8 milhões por um terreno de 44 mil metros quadrados, com quatro estúdios. A área, que pertencia a Renato Aragão, foi durante anos alugada pelas produções da Globo.

Além da cidade cenográfica, outro fato que atravanca a produção de Cidadão Brasileiro – a novela foi anunciada para novembro e adiada – é a escalação do elenco. Lauro César Muniz quer estréia de peso e está esperando algumas das produções em andamento da Globo acabarem para ir atrás de atores contratados por obra, que não são poucos.

Profissionais da parte técnica, como câmeras, devem ser contratados para a trama, que tem previsão de entrar no ar em março.’



ROMA NA BBC
Luiz Carlos Merten

‘Uma babel de cores, energia e caos’, copyright O Estado de S. Paulo, 01/10/05

‘O consultor histórico da rede BBC, Jonathan Stamp, que integra o departamento de arqueologia da emissora, associada da HBO no projeto, diz ao Estado que os personagens Vorenus e Pullo, que aparecem com destaque na minissérie Roma, existiram de fato e são citados por Júlio César pela bravura durante a campanha na Gália (hoje, França). Embora as figuras sejam reais – como todas as outras do seriado, Júlio César, Otávio, Pompeu, Marco Antônio, Átia de Julii, Castor -, pouco ou nada se sabe sobre Vorenus e Pullo. Foi onde entrou a inventividade do roteirista. ‘Bruno Heller criou uma biografia para eles’, diz Stamp. Vorenus é casado, não vê a mulher há anos. Os filhos cresceram longe de seus olhos. Com Pullo, ele termina envolvido nas intrigas da aristocracia. Desenvolve-se uma narrativa épica e intimista sobre mestres e escravos, maridos e esposas, amor e traição.

O telespectador acostumado à alta qualidade das minisséries da HBO precisa ter um pouco de paciência. Ao contrário de outras, Roma não decola imediatamente. O primeiro episódio impressiona pelo visual e pelo detalhismo, mas a dramaturgia é um tanto rala. Os conflitos virão depois. Bruno Heller faz uma comparação interessante entre outra minissérie da HBO, Família Soprano, e a trilogia O Poderoso Chefão. ‘O filme de Francis Ford Coppola romantiza a Máfia; Família Soprano brutaliza e a mostra como é.’ Da mesma forma, em Roma, ele quis mostrar que a cidade, que representava um império, não era o frio mármore das ruínas que os turistas visitam. ‘Roma estava mais próxima da babel de cores, energia, dinamismo e caos de Calcutá e da Cidade do México atuais. Havia uma elite reduzida e massas de pobres. Os problemas não mudaram – crime, desemprego, doença e pressão para preservar seu lugar numa sociedade precária.’ Havia, como hoje, espaço para a mobilidade social.

DIGNIDADE E HONRA

Bruno Heller tem o crédito de co-criação, com William J. MacDonald e John Milius. Os três também são produtores executivos e Milius você sabe quem é – o roteirista e diretor de Conan, o Bárbaro, com fama de reacionário, por seu apego a valores anacrônicos como dignidade e honra. O elenco é conhecido, mesmo por quem não se lembra do nome dos atores. Kevin McKidd está em Cruzada; Ray Stevenson, em O Rei Arthur; Polly Walker, em Jogos Patrióticos. Repetem como uma lição decorada – ‘Falamos do passado, mas da perspectiva presente. Dois milênios depois, os problemas sociais e a ambição humana por poder e dinheiro continuam. É só olhar em volta.’ Mas Heller nega que o Império de Roma seja uma metáfora para discutir os EUA imperiais de George W. Bush. ‘Estamos trabalhando há muito tempo nesse projeto. Os excessos do sr. Bush vieram depois.’’



***

‘Os inventores da modernidade’, copyright O Estado de S. Paulo, 01/10/05

‘Tudo tem de ser superlativo quando se fala de Roma. A minissérie que estréia dia 9 na TV paga é a mais cara já produzida em toda a história da televisão. Roma custou mais de US$ 100 milhões, numa parceria da HBO com a BBC e a RAI (que deu apoio logístico). Foi a primeira série da TV de língua inglesa integralmente filmada no estrangeiro. Para garantir a autenticidade, foi construído no lendário estúdio de Cinecittà, em Roma, o maior cenário do mundo – uma cidade inteira, com casas, ruas, templos e palácios ocupando cinco acres.

A idéia de fazer um épico sobre a antiga Roma surgiu em 1998, quando a produtora executiva Anne Thomopoulos era vice-presidente sênior da HBO. Dois anos depois, o roteirista Bruno Heller foi incorporado à equipe de criação. Virou produtor executivo. Desde o começo, a proposta era fazer um épico sobre o Império Romano, mas não do ângulo das classes dominantes, como o cinema costuma fazer. ‘Anne queria um outro olhar’, explica Bruno Heller, numa rodada de entrevistas em Los Angeles, prévia ao lançamento de Roma na TV americana (em 28 de agosto).’ As pesquisas chegaram aos nomes de Lucius Vorenus e Titus Pullo, dois legionários de César, que existiram de verdade, mas cuja história foi toda inventada.

Heller arrisca-se a dizer que, por mais importante que tenha sido a contribuição dos gregos à filosofia e à política, foram os romanos que inventaram a modernidade. ‘De uma perspectiva dramática e atual, acho que eles nos são mais próximos. Não tinham deuses prosaicos para dizer o que é certo ou errado. Os gregos tinham um conceito mais elevado da ética. A moral dos romanos era estritamente pessoal e prática. O que definia o certo e o errado dependia, na maioria das vezes, da aprovação dos poderosos. Existe coisa mais atual do que isso? Não digo concordando, mas porque o poder e o dinheiro ditam as regras no mundo atual, ou você acha que estou exagerando?’

DOIS AMIGOS

Compaixão era uma fraqueza; crueldade, uma virtude. Só importavam a honra pessoal, a fidelidade a si mesmo (e à família). Vorenus e Pullo foram sendo construídos assim. Dois amigos que fizeram a guerra na Gália, integrando a 13.ª legião de Júlio César, e agora desembarcam em Roma num momento crucial da República. Todos os velhos valores pelos quais se pautaram estão ruindo e eles, especialmente Vorenus, terão de fazer escolhas. Pullo é um hedonista, Vorenus volta para a mulher e os filhos. Como reconstruir a família após oito anos de ausência? Como passar das brutalidades da guerra para as obrigações da civilização? O fundo é real, a história é fictícia. ‘Tínhamos equipes de historiadores e pesquisadores à disposição’, conta Heller. ‘Eu próprio li bastante, visitei museus e as ruínas de Herculano e Pompéia, mas as maiores informações consegui nas inscrições mortuárias. As tumbas, com suas inscrições sucintas, nos dizem muito sobre a vida cotidiana das civilizações passadas.’.’



WEBTVs
Antonio Brasil

‘TVs ao vivo na Internet’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 30/09/05

‘Você já imaginou ter a sua própria TV? Produzir e estrelar aqueles programas que não encontra na telinha? Mas vou logo avisando: TV de verdade é ‘ao vivo’. Gravação ou VT é TV ‘ao contrário’. Não tem a mesma graça. Com poucos recursos e novas ferramentas disponíveis na rede, você pode se comunicar com o mundo. O problema não é mais técnico ou financeiro. A questão principal é o conteúdo diferenciado. Como seria a sua TV? Para que serve uma TV com a capacidade de transmitir ‘ao vivo’ na Internet? Quando me perguntam o que estou fazendo aqui nos EUA, respondo de imediato: pesquiso o futuro da TV. Quero ver a reinvenção do meio e aposto na Internet.

Acredito numa televisão mais diversificada e democrática. Em vez de alguns poucos canais, teremos milhões de opções. Nesse novo cenário, produzir televisão se torna tão acessível ou difícil quanto escrever um bom livro ou criar um novo site na Internet. Tanto faz. Um programa de TV, uma publicação ou um novo portal na rede como o nosso Comunique-se é antes de tudo o produto de uma boa ‘idéia’. Programas ou canais de TV não deveriam ser diferentes ou limitados. Ninguém imagina uma biblioteca restrita a algumas ‘centenas’ de livros. Não há limites para a criatividade humana. Quanto mais, melhor. Milhões de produtos disponíveis para quem está em busca de qualidade em meio à diversidade. A maioria desses canais de TV na Internet, certamente, serão muito ruins. Mas assim como a democratização do vídeo proporcionou uma revolução de imagens, a TV na Internet oferece novas possibilidades e desafios. Nas últimas semanas, pude comprovar o potencial desse novo meio.

Intercom e Comunique-se ao vivo

Queria muito ter comparecido a dois eventos importantes que aconteceram no Brasil. Primeiro, o 28º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2005 realizado na Uerj (ver aqui). Também queria muito prestigiar a entrega do Prêmio Comunique-se em São Paulo. É tão bom e raro ver no Brasil uma boa idéia crescer, ser reconhecida pelas empresas, jornalistas, e, principalmente, ser prestigiada pelo público. Para mim, tanto a festa do Comunique-se como o Congresso da Intercom estão relacionados com o poder cada vez maior da mídia em nossas vidas. Segundo uma pesquisa da Ball State University (ver aqui), os americanos, por exemplo, gastam uma média de 9 horas diárias com a utilização dos meios como a Internet, TV, rádio ou telefone. Nenhuma outra atividade consome tanto o nosso tempo. Em meio a tantas críticas e crises, a comunicação ainda é fundamental. E eu queria muito assistir ao Congresso da Intercom e à festa do Comunique-se.

Para minha tristeza, por diversos motivos, não pude ir ao Brasil. Mas a distância não me impediu de assistir ‘ao vivo’ a esses eventos. As promessas do futuro se tornam realidade com a TV na Internet. Surge uma nova forma de comunicação que desafia o conceito de TV como veículo de massa restrito a poucos poderosos. A segmentação ultrapassa os limites restritivos das TVs a cabo. Com um custo mínimo, a TV online começa a mostrar o seu potencial, a sua razão de ser.

Em relação ao Congresso da Intercom fiquei ainda mais emocionado. Os mesmos alunos que produzem a TV Uerj online (ver aqui) – a primeira TV universitária brasileira ao vivo na Internet – foram novamente ‘pioneiros’. Transmitiram pela primeira vez ao vivo um dos principais eventos do Congresso da Intercom 2005. Pude assistir aqui nos EUA à mesa-redonda com os jornalistas da Rede Globo Ali Kamel, Fátima Bernardes, William Bonner e Zileide Silva, mediada pelo Prof. João Pedro Dias Vieira, jornalista e diretor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

Os palestrantes abordaram diversos temas relacionados à produção do JN e a experiências pessoais de coberturas específicas. Kamel, por exemplo, falou do chamado ‘padrão globo de qualidade’, relatando a preocupação da emissora com seus noticiários. Segundo ele os altos índices de audiência do jornalismo da emissora se devem à qualidade de seus programas.’Não vou discutir. Cada um defende o emprego que tem da melhor forma possível. E o tema dessa coluna é o poder de uma nova TV na Internet’. De qualquer maneira, segundo os últimos relatórios divulgados aqui nos EUA, a TV aberta tende a se tornar obsoleta e telejornal tende a desaparecer (ver aqui). Mas, isso é uma outra história.

Na Internet, estamos presenciando a reinvenção da televisão. Uma TV que mostra os programas que queremos ver e não os programas impostos pelas redes. O meio televisivo deixa de ser refém absoluto dos princípios de uma ‘comunicação de massa’. A comunicação fragmentada a ponto de ser individual se torna possível, para quem quiser, é claro. Para aqueles que apostam nas grandes redes que priorizam ou consideram essencial a predominância da grande audiência, o futuro reserva surpresas e decepções.

Como montar uma TV na Internet

Então se você está insatisfeito com a qualidade da nossa TV pare de reclamar, desligue a TV e comece a produzir a sua própria programação na Internet. Alguns sites oferecem dicas preciosas e acessíveis. Alguns estudantes da Universidade do Texas em Austin também desenvolveram técnicas e ferramentas que podem ajudar muito quem se dispõem a fazer TV na rede (ver aqui). Não é tão difícil como vocês imaginam. Até mesmo um acesso a uma simples webcam já oferece a oportunidade de ver e ser visto na rede.

Alguns telejornais na Europa passaram a convocar a participação ‘ao vivo’ de telespectadores com muito sucesso (ver aqui). São idéias simples e econômicas que transformam as limitações da linguagem televisiva. As webcams passaram a ser utilizadas com enorme sucesso por alguns telejornais assim como os telefones se tornaram essenciais para os programas ao vivo nas rádios.

Rede internacionais independentes de TV na Internet também já começam a surgir e desafiar a hegemonia das redes mundiais como a CNN ou a BBC. Por enquanto, são experimentais. Mas, um dia, redes poderosas como a própria CNN também foram motivos de ‘piada’. O projeto da Independent World Television é ambicioso e já pode ser visto em qualquer lugar do mundo, (ver aqui).

As novas formas de produzir TV na Internet ou IPTV (International Protocol TV) também são objeto de estudos em centros de pesquisas. A BBC divulgou em artigo recente (ver aqui) um relatório da Lovelace Consulting and Informitv em que descreve as mudanças dramáticas na TV com a introdução da conexão por banda larga. Mas tem sempre aquele leitor que vai dizer que ainda não tem banda larga e sequer Internet. Eu me recuso a ser refém da miséria. Não consigo aceitar o comodismo de ignorar o futuro e o potencial transformador das novas tecnologias só porque a maioria dos brasileiros ainda vive na miséria. Exclusão social ou digital não nos impede de investir em novas idéias e modelos de gestão. Comunicação mais eficiente pode ser um instrumento poderoso para eliminar a miséria ou a fome.

E quanto à introdução cada vez mais acelerada de banda larga é mera questão de tempo. Segundo o Washington Post, o crescimento nos EUA foi da ordem de 34 % em 2004. No Brasil o crescimento é menor, mas considerável. As novas tecnologias avançam apesar das limitações. A penetração do celular, por exemplo, que hoje é de 62%, será, em algum tempo, maior que a da TV aberta (com 97%) e do rádio (87%). Ou seja, apesar do pessimismo de alguns e da incompetência para eliminar a fome ou a miséria, avançamos no campo da comunicação.

No Brasil, já temos alguns bons exemplos de TV ao vivo na Internet e você pode conferir alguns exemplos aqui. Deve-se destacar os projetos mais ambiciosos como a TV UOL (ver aqui), a TV Terra e a pioneira allTV. Para surpresa dos ‘apocalípticos’ e alegria dos ‘integrados’, continua no ar com uma programação ainda meio radiofônica. Mas o começo de qualquer novo meio de comunicação é assim mesmo.

A TV na Internet ainda procura uma linguagem própria. Por enquanto, imita os meios conhecidos como o rádio e a própria TV. Um dia será algo completamente ‘único’ e diferenciado de tudo que conhecemos. Ainda não temos dados suficientes para prever o seu futuro. O importante é que TVs como a allTV produzem uma programação ao vivo que não encontramos em canais tradicionais, dão espaço para novos talentos e produzem novas idéias. O grande desafio da TV na Internet, no entanto, não se resume a buscar somente grande audiência. TV na Internet, para sobreviver, tem que buscar conteúdos diferenciados.

Monopólios e privilégios

Mas, no Brasil, nem todos parecem muito satisfeitos com o potencial ‘libertário’ da TV na Internet ou em celulares. Afinal, ao contrário da TV tradicional, a Internet não é um meio ‘passivo’. Para quem sonha em continuar controlando as mentes e os votos dos brasileiros, o desenvolvimento da Internet no Brasil é uma ameaça.

Esta semana, no encontro de novas mídias promovido pela Tela Viva, ‘os radiodifusores brasileiros defenderam a tese de que TV no celular ou na Internet é comunicação social e que, portanto, estaria sujeita às mesmas regras das TVs. Obviamente, esta é a mesma posição defendida pelo ministro global, Hélio Costa. E isso não nos surpreende’.

Mas nem todos concordam com essa interpretação da lei que visa à preservação de privilégios. Segundo o mesmo noticiário, a advogada Regina Ribeiro do Vale traz uma tese polêmica sobre a possibilidade de serviços de conteúdo audiovisual. Na visão dela, não existe respaldo para impedir empresas de celular, por exemplo, de oferecerem serviços de TV. ‘Hoje, existe uma legislação certamente desatualizada. Há muita coisa que precisa ser melhorada, mas a interpretação mais razoável que se pode fazer é que os serviços de TV no celular são de valor adicionado’, diz.

Ela ainda lembra que a ‘constituição traz como princípios a liberdade de expressão, a liberdade de iniciativa e o direito de acesso à informação’. Regina interpreta que ‘as empresas que provêem acesso e conteúdo, seja em plataforma de Internet ou celular, são usuárias de infra-estrutura de telecomunicações. O que se deve buscar em termos de atualização da legislação de comunicação é o controle do monopólio e da concentração, e mecanismos de fomento de conteúdos que valorizem a cultura nacional’.

Mas os radiodifusores insistem: ‘O Brasil é um país que tem a peculiaridade de ter toda a distribuição de televisão aberta diretamente vinculada ao produtor. Ou seja, o radiodifusor produz conteúdo e o distribui por conta própria’.

Pasmem! Reconhecemos a tal ‘peculiaridade’, mas insistimos em manter um modelo antiquado e injusto de qualquer maneira. A idéia é incorporar as novas tecnologias como a Internet ou telefone celular às velhas estruturas de poder. Continuamos pensando em maneiras de preservar as ‘capitanias hereditárias’ da comunicação.

Não é a toa que temos um sistema de TV a cabo limitado, falido e sob controle dos mesmos produtores de TV aberta no Brasil. Se não atentarmos para essas ‘discussões’ no Ministério das Comunicações e no Congresso, um dia TV na Internet ou nos telefones celulares só vai transmitir telenovelas.

Com a eterna desculpa da preservação do ‘conteúdo nacional’ a qualquer custo garantimos, sim, a manutenção de monopólios e privilégios. E depois não digam que eu não avisei.’



REALITY SHOWS
Luiz Antonio Ryff

‘Sexo, drogas e audiência’, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 1/10/05

‘A fama de liberalidade da Holanda é um cartão de visita e uma atração turística. Foi o primeiro país a permitir o consumo de maconha, vendida em coffee shops. Há anos mantém uma região de Amsterdã que reúne prostíbulos legalizados onde as mulheres se exibem em vitrines iluminadas à vista de clientes, turistas ou simples passantes.

Mas esse voyeurismo foi expandido a dimensões antes inimagináveis.

A Holanda é o país que criou e desenvolveu, em 1999, o conceito de reality show que hoje grassa no mundo inteiro. Seu principal mentor foi John de Mol, dono da Endemol e pai da franquia do Big Brother, presente em 31 países, inclusive o Brasil. Ele define o gênero como ‘novela da vida real’. O sucesso de Big Brother suscitou o aparecimento de diversos outros produtos, como ‘Extreme Makeover’. Graças a esse tipo de programa, John de Mol amealhou uma fortuna de US$ 2 bilhões e hoje é listado como a 321ª pessoa mais rica do mundo pela ‘Forbes’.

Em edições anteriores, exibiu nudez, sexo, brigas e já teve um transexual como vencedor. Mesmo assim, a audiência começou a cair. Na edição atual do Big Brother Holanda, que começou no mês passado, o principal chamariz na casa é a presença de Tanja. Aos 27 anos, a moça está no oitavo mês de gestação e, se tudo corresse como previsto, daria à luz a uma menina ao vivo diante de milhões de telespectadores.

A possibilidade de a criança ser filmada ininterruptamente 24 horas por dia, desde o nascimento, causou polêmica. O governo holandês proibiu que o parto seja transmitido e restringiu as imagens do Bebê Big Brother – como provavelmente ficará conhecido – a uma gravação por dia durante oito dias. Quando não estiver sendo filmada, a criança -cujo nome ameaça ser Lorena Savannah – deve ficar ao abrigo das câmeras, em local a que a mãe poderá ter acesso livre.

Explorar uma mãe grávida e um bebê recém-nascido ainda não é o limite para a TV holandesa. A BNN, uma emissora pública voltada para os jovens, está decidida a ultrapassar todas as barreiras em um programa que vai tratar de sexo e drogas usando a linguagem jovem e tendo o público entre 15 e 34 anos como alvo principal.

Spuiten & Slikken

Previsto para ir ao ar em 10 de outubro, ‘Spuiten & Slikken’ deve ser veiculado até às vésperas do Natal. Será exibido às segundas-feiras, durante 11 semanas, às 23 horas. O nome do programa é um jogo de palavras difícil de traduzir, já que ‘spuiten’ e ‘slikken’ têm duplo sentido, usado tanto para sexo quanto para drogas. Mas é algo na linha ‘Enfia e engole’.

O título dá uma idéia da abordagem crua e direta que esses temas terão. A apresentadora Sophie Hilbrand vai conduzir o programa, entrevistando jovens sobre suas experiências nos dois assuntos. Mas ‘Spuiten & Slikken’ também acompanhará as peripécias de dois jornalistas participativos em suas experiências com sexo e drogas. Filemon Wesselink, 26, experimentará as drogas. E Ties Van Westing, 25, foi encarregado das aventuras sexuais. Eles descreverão as sensações vividas durante os experimentos.

É justamente aí que mora a controvérsia de ‘Spuiten & Slikken’. As experiências dos dois rapazes serão gravadas e transmitidas pela emissora pública. Curiosamente, o sexo terá uma abordagem mais pudica em um país que costuma exibir filmes de sexo explícito na TV. Justamente por isso. ‘Nós não queríamos que parecesse um filme pornô’, disse Marion Van Dam, porta-voz da BNN, a NoMínimo.

O uso de drogas, no entanto, será absolutamente explícito. Está previsto que Filemon usará heroína – uma droga proibida no mundo inteiro, inclusive na Holanda. E todo o processo – do preparo, passando pelo consumo, aos efeitos da droga – será transmitido para todo o país.

Um médico acompanhará todas as experiências com drogas. Não só para agir em caso de problema, mas também para explicar, do ponto de vista médico e fisiológico, os efeitos de cada droga no organismo, seus riscos e efeitos colaterais. ‘Ele vai monitorar constantemente todas as experiências com drogas’, explica Marion. ‘E os espectadores vão ver tudo.’

A condição básica dos dois jornalistas foi não tomar parte de nada que não quisessem. Práticas mais heterodoxas, principalmente no campo sexual, ficaram de fora. Filemon não vai usar ketamina, a droga da moda na Holanda, por exemplo. A ketamina é um anestésico, hoje usado em animais, que causa forte dependência, provoca uma sensação de relaxamento e tem sérios efeitos colaterais, como alucinações psicóticas. ‘Achamos que era muito perigoso e nossos consultores aconselharam que ela não fosse usada’, justifica Marion. Mas não houve restrição à heroína. Filemon apenas pediu que, nesse caso específico, o ‘laboratório’ fosse a casa da sua mãe, onde ele se sentiria mais confortável. Uma das regras do programa é que Filemon pode fazer as experiências quando e onde quiser, desde que acompanhado pelo médico. Ele já começou a gravar os programas e, segundo a BNN, está achando ‘muito interessante’.

Lambendo o dorso do sapo

Entre as drogas previstas, estão cocaína, álcool, LSD, ecstasy e maconha. A estranheza maior provavelmente será o uso que Filemon fará de um exemplar do reino animal. ‘Ele também vai lamber o dorso de um sapo do rio Colorado’, anuncia Marion. Conhecido pelo nome científico de ‘bufo alvarius’, o espécime verde oliva é encontrado nos Estados Unidos (no deserto do Colorado, no Novo México, Arizona e Califórnia) e expele duas substâncias que, juntas, são altamente alucinógenas: a Bufotenin e a Dimethyltryptamin. E, aparentemente, o ‘consumo’ se dá assim mesmo, lambendo o dorso do sapo.

As experiências sexuais serão vividas por Ties que, entre outras coisas, vai participar de um ménage à trois, vai transar sob efeito de remédios como viagra, vai fazer sexo ‘em posições acrobáticas’. Além de receber sexo oral de um homem e de uma mulher, para efeito de comparação. Nada disso será mostrado. Nem haverá um médico acompanhando as aventuras do rapaz. E o uso de camisinhas será recomendado.

‘Ties vai receber um blow job de um cara e de uma mulher, mas isso não será mostrado na TV. Ele vai entrar em um quarto especial sem câmera e à prova de som. O espectador vai vê-lo entrando no local, vão explicar que tipo de experiência ele vai ter e, depois, Ties vai dividir sua experiência com a audiência. Nesse caso, poderá dizer se há alguma diferença entre ser chupado por um homem ou por uma mulher, de qual ele gostou mais e como ele se sentiu’, adianta Marion.

A idéia de ‘Spuiten & Slikken’ surgiu durante uma reunião de criação. A emissora queria criar um programa que falasse de assuntos de interesse dos jovens e também tivesse algum apelo televisivo. ‘Muitas pessoas usam drogas ou são curiosas sobre o assunto. Nós vamos informá-las sobre isso no programa, que será mais na linha do ‘não tente isso em casa’ do que na do ‘faça você mesmo’. Seria ingênuo tentar esconder dos jovens assuntos como sexo e drogas’, explica Marion, que frisa o caráter informativo e educativo do programa. ‘Jovens fazem sexo. O melhor é explicar para eles por que é aconselhável usar uma camisinha do que não tocar no assunto’, avalia.

Apesar dessa ‘preocupação’ informativa, o canal recebeu pressões e reclamações de políticos, mesmo antes de ‘Spuiten & Slikken’ ir ao ar. O porta-voz do governo holandês de centro-direita, Pieter Heerma, tachou o programa de ‘perigoso e um mau exemplo’, afirmando que solicitaria ao ministro da Justiça um posicionamento sobre a legalidade da transmissão e uma avaliação dos perigos e riscos envolvidos. Mas esse tipo de programa não chega a ser novidade para a emissora pública. Em 2003, a BNN levou ao ar ‘Neuken doe je zo!’ – algo traduzível para ‘É assim que se come!’.

Em um dos episódios finais, um dos capítulos tinha o utilitário título de ‘Como fazer sexo em uma boate sem ser notado’. A ‘aula’ foi dada por uma ‘profissional do sexo’ com ajuda de um boneco em tamanho natural, dotado de órgãos sexuais. Atingiu um milhão de espectadores, o recorde do canal. Em um país com pouco mais de 16 milhões de habitantes, é um número nada desprezível. Dois anos depois, a BNN volta à carga, agora sem o boneco. Deve ter sido demitido.’

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Keila Jimenez

04/10/2005 na edição 349

‘A Record está investindo pesado na infra-estrutura para a produção de teledramaturgia. Depois de comprar um área com estúdios na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio), a emissora está locando um terreno de quase 10 mil metros quadrados em uma região próxima a Bragança Paulista, interior paulista.

A área, que é totalmente descampada, longe de residências ou montanhas, será utilizada para a construção da cidade cenográfica de Cidadão Brasileiro, novela de Lauro César Muniz que estréia em 2006 na rede. O folhetim, que começa a ser gravado em janeiro, se passará justamente na mesma época da construção de Brasília, sendo assim necessária a retratação do Distrito Federal naquela época na cenografia.

A Record pretende locar o terreno apenas durante o tempo de gravação da trama. As cenas em estúdio serão gravadas em São Paulo, em um dos quatro estúdios que emissora tem na sede na Barra Funda.

A rede está ainda investindo na construção de três novos estúdios no terreno que comprou no Rio. No negócio, fechado no primeiro semestre, a emissora pagou o equivalente a R$ 8 milhões por um terreno de 44 mil metros quadrados, com quatro estúdios. A área, que pertencia a Renato Aragão, foi durante anos alugada pelas produções da Globo.

Além da cidade cenográfica, outro fato que atravanca a produção de Cidadão Brasileiro – a novela foi anunciada para novembro e adiada – é a escalação do elenco. Lauro César Muniz quer estréia de peso e está esperando algumas das produções em andamento da Globo acabarem para ir atrás de atores contratados por obra, que não são poucos.

Profissionais da parte técnica, como câmeras, devem ser contratados para a trama, que tem previsão de entrar no ar em março.’



ROMA NA BBC
Luiz Carlos Merten

‘Uma babel de cores, energia e caos’, copyright O Estado de S. Paulo, 01/10/05

‘O consultor histórico da rede BBC, Jonathan Stamp, que integra o departamento de arqueologia da emissora, associada da HBO no projeto, diz ao Estado que os personagens Vorenus e Pullo, que aparecem com destaque na minissérie Roma, existiram de fato e são citados por Júlio César pela bravura durante a campanha na Gália (hoje, França). Embora as figuras sejam reais – como todas as outras do seriado, Júlio César, Otávio, Pompeu, Marco Antônio, Átia de Julii, Castor -, pouco ou nada se sabe sobre Vorenus e Pullo. Foi onde entrou a inventividade do roteirista. ‘Bruno Heller criou uma biografia para eles’, diz Stamp. Vorenus é casado, não vê a mulher há anos. Os filhos cresceram longe de seus olhos. Com Pullo, ele termina envolvido nas intrigas da aristocracia. Desenvolve-se uma narrativa épica e intimista sobre mestres e escravos, maridos e esposas, amor e traição.

O telespectador acostumado à alta qualidade das minisséries da HBO precisa ter um pouco de paciência. Ao contrário de outras, Roma não decola imediatamente. O primeiro episódio impressiona pelo visual e pelo detalhismo, mas a dramaturgia é um tanto rala. Os conflitos virão depois. Bruno Heller faz uma comparação interessante entre outra minissérie da HBO, Família Soprano, e a trilogia O Poderoso Chefão. ‘O filme de Francis Ford Coppola romantiza a Máfia; Família Soprano brutaliza e a mostra como é.’ Da mesma forma, em Roma, ele quis mostrar que a cidade, que representava um império, não era o frio mármore das ruínas que os turistas visitam. ‘Roma estava mais próxima da babel de cores, energia, dinamismo e caos de Calcutá e da Cidade do México atuais. Havia uma elite reduzida e massas de pobres. Os problemas não mudaram – crime, desemprego, doença e pressão para preservar seu lugar numa sociedade precária.’ Havia, como hoje, espaço para a mobilidade social.

DIGNIDADE E HONRA

Bruno Heller tem o crédito de co-criação, com William J. MacDonald e John Milius. Os três também são produtores executivos e Milius você sabe quem é – o roteirista e diretor de Conan, o Bárbaro, com fama de reacionário, por seu apego a valores anacrônicos como dignidade e honra. O elenco é conhecido, mesmo por quem não se lembra do nome dos atores. Kevin McKidd está em Cruzada; Ray Stevenson, em O Rei Arthur; Polly Walker, em Jogos Patrióticos. Repetem como uma lição decorada – ‘Falamos do passado, mas da perspectiva presente. Dois milênios depois, os problemas sociais e a ambição humana por poder e dinheiro continuam. É só olhar em volta.’ Mas Heller nega que o Império de Roma seja uma metáfora para discutir os EUA imperiais de George W. Bush. ‘Estamos trabalhando há muito tempo nesse projeto. Os excessos do sr. Bush vieram depois.’’



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‘Os inventores da modernidade’, copyright O Estado de S. Paulo, 01/10/05

‘Tudo tem de ser superlativo quando se fala de Roma. A minissérie que estréia dia 9 na TV paga é a mais cara já produzida em toda a história da televisão. Roma custou mais de US$ 100 milhões, numa parceria da HBO com a BBC e a RAI (que deu apoio logístico). Foi a primeira série da TV de língua inglesa integralmente filmada no estrangeiro. Para garantir a autenticidade, foi construído no lendário estúdio de Cinecittà, em Roma, o maior cenário do mundo – uma cidade inteira, com casas, ruas, templos e palácios ocupando cinco acres.

A idéia de fazer um épico sobre a antiga Roma surgiu em 1998, quando a produtora executiva Anne Thomopoulos era vice-presidente sênior da HBO. Dois anos depois, o roteirista Bruno Heller foi incorporado à equipe de criação. Virou produtor executivo. Desde o começo, a proposta era fazer um épico sobre o Império Romano, mas não do ângulo das classes dominantes, como o cinema costuma fazer. ‘Anne queria um outro olhar’, explica Bruno Heller, numa rodada de entrevistas em Los Angeles, prévia ao lançamento de Roma na TV americana (em 28 de agosto).’ As pesquisas chegaram aos nomes de Lucius Vorenus e Titus Pullo, dois legionários de César, que existiram de verdade, mas cuja história foi toda inventada.

Heller arrisca-se a dizer que, por mais importante que tenha sido a contribuição dos gregos à filosofia e à política, foram os romanos que inventaram a modernidade. ‘De uma perspectiva dramática e atual, acho que eles nos são mais próximos. Não tinham deuses prosaicos para dizer o que é certo ou errado. Os gregos tinham um conceito mais elevado da ética. A moral dos romanos era estritamente pessoal e prática. O que definia o certo e o errado dependia, na maioria das vezes, da aprovação dos poderosos. Existe coisa mais atual do que isso? Não digo concordando, mas porque o poder e o dinheiro ditam as regras no mundo atual, ou você acha que estou exagerando?’

DOIS AMIGOS

Compaixão era uma fraqueza; crueldade, uma virtude. Só importavam a honra pessoal, a fidelidade a si mesmo (e à família). Vorenus e Pullo foram sendo construídos assim. Dois amigos que fizeram a guerra na Gália, integrando a 13.ª legião de Júlio César, e agora desembarcam em Roma num momento crucial da República. Todos os velhos valores pelos quais se pautaram estão ruindo e eles, especialmente Vorenus, terão de fazer escolhas. Pullo é um hedonista, Vorenus volta para a mulher e os filhos. Como reconstruir a família após oito anos de ausência? Como passar das brutalidades da guerra para as obrigações da civilização? O fundo é real, a história é fictícia. ‘Tínhamos equipes de historiadores e pesquisadores à disposição’, conta Heller. ‘Eu próprio li bastante, visitei museus e as ruínas de Herculano e Pompéia, mas as maiores informações consegui nas inscrições mortuárias. As tumbas, com suas inscrições sucintas, nos dizem muito sobre a vida cotidiana das civilizações passadas.’.’



WEBTVs
Antonio Brasil

‘TVs ao vivo na Internet’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 30/09/05

‘Você já imaginou ter a sua própria TV? Produzir e estrelar aqueles programas que não encontra na telinha? Mas vou logo avisando: TV de verdade é ‘ao vivo’. Gravação ou VT é TV ‘ao contrário’. Não tem a mesma graça. Com poucos recursos e novas ferramentas disponíveis na rede, você pode se comunicar com o mundo. O problema não é mais técnico ou financeiro. A questão principal é o conteúdo diferenciado. Como seria a sua TV? Para que serve uma TV com a capacidade de transmitir ‘ao vivo’ na Internet? Quando me perguntam o que estou fazendo aqui nos EUA, respondo de imediato: pesquiso o futuro da TV. Quero ver a reinvenção do meio e aposto na Internet.

Acredito numa televisão mais diversificada e democrática. Em vez de alguns poucos canais, teremos milhões de opções. Nesse novo cenário, produzir televisão se torna tão acessível ou difícil quanto escrever um bom livro ou criar um novo site na Internet. Tanto faz. Um programa de TV, uma publicação ou um novo portal na rede como o nosso Comunique-se é antes de tudo o produto de uma boa ‘idéia’. Programas ou canais de TV não deveriam ser diferentes ou limitados. Ninguém imagina uma biblioteca restrita a algumas ‘centenas’ de livros. Não há limites para a criatividade humana. Quanto mais, melhor. Milhões de produtos disponíveis para quem está em busca de qualidade em meio à diversidade. A maioria desses canais de TV na Internet, certamente, serão muito ruins. Mas assim como a democratização do vídeo proporcionou uma revolução de imagens, a TV na Internet oferece novas possibilidades e desafios. Nas últimas semanas, pude comprovar o potencial desse novo meio.

Intercom e Comunique-se ao vivo

Queria muito ter comparecido a dois eventos importantes que aconteceram no Brasil. Primeiro, o 28º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2005 realizado na Uerj (ver aqui). Também queria muito prestigiar a entrega do Prêmio Comunique-se em São Paulo. É tão bom e raro ver no Brasil uma boa idéia crescer, ser reconhecida pelas empresas, jornalistas, e, principalmente, ser prestigiada pelo público. Para mim, tanto a festa do Comunique-se como o Congresso da Intercom estão relacionados com o poder cada vez maior da mídia em nossas vidas. Segundo uma pesquisa da Ball State University (ver aqui), os americanos, por exemplo, gastam uma média de 9 horas diárias com a utilização dos meios como a Internet, TV, rádio ou telefone. Nenhuma outra atividade consome tanto o nosso tempo. Em meio a tantas críticas e crises, a comunicação ainda é fundamental. E eu queria muito assistir ao Congresso da Intercom e à festa do Comunique-se.

Para minha tristeza, por diversos motivos, não pude ir ao Brasil. Mas a distância não me impediu de assistir ‘ao vivo’ a esses eventos. As promessas do futuro se tornam realidade com a TV na Internet. Surge uma nova forma de comunicação que desafia o conceito de TV como veículo de massa restrito a poucos poderosos. A segmentação ultrapassa os limites restritivos das TVs a cabo. Com um custo mínimo, a TV online começa a mostrar o seu potencial, a sua razão de ser.

Em relação ao Congresso da Intercom fiquei ainda mais emocionado. Os mesmos alunos que produzem a TV Uerj online (ver aqui) – a primeira TV universitária brasileira ao vivo na Internet – foram novamente ‘pioneiros’. Transmitiram pela primeira vez ao vivo um dos principais eventos do Congresso da Intercom 2005. Pude assistir aqui nos EUA à mesa-redonda com os jornalistas da Rede Globo Ali Kamel, Fátima Bernardes, William Bonner e Zileide Silva, mediada pelo Prof. João Pedro Dias Vieira, jornalista e diretor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

Os palestrantes abordaram diversos temas relacionados à produção do JN e a experiências pessoais de coberturas específicas. Kamel, por exemplo, falou do chamado ‘padrão globo de qualidade’, relatando a preocupação da emissora com seus noticiários. Segundo ele os altos índices de audiência do jornalismo da emissora se devem à qualidade de seus programas.’Não vou discutir. Cada um defende o emprego que tem da melhor forma possível. E o tema dessa coluna é o poder de uma nova TV na Internet’. De qualquer maneira, segundo os últimos relatórios divulgados aqui nos EUA, a TV aberta tende a se tornar obsoleta e telejornal tende a desaparecer (ver aqui). Mas, isso é uma outra história.

Na Internet, estamos presenciando a reinvenção da televisão. Uma TV que mostra os programas que queremos ver e não os programas impostos pelas redes. O meio televisivo deixa de ser refém absoluto dos princípios de uma ‘comunicação de massa’. A comunicação fragmentada a ponto de ser individual se torna possível, para quem quiser, é claro. Para aqueles que apostam nas grandes redes que priorizam ou consideram essencial a predominância da grande audiência, o futuro reserva surpresas e decepções.

Como montar uma TV na Internet

Então se você está insatisfeito com a qualidade da nossa TV pare de reclamar, desligue a TV e comece a produzir a sua própria programação na Internet. Alguns sites oferecem dicas preciosas e acessíveis. Alguns estudantes da Universidade do Texas em Austin também desenvolveram técnicas e ferramentas que podem ajudar muito quem se dispõem a fazer TV na rede (ver aqui). Não é tão difícil como vocês imaginam. Até mesmo um acesso a uma simples webcam já oferece a oportunidade de ver e ser visto na rede.

Alguns telejornais na Europa passaram a convocar a participação ‘ao vivo’ de telespectadores com muito sucesso (ver aqui). São idéias simples e econômicas que transformam as limitações da linguagem televisiva. As webcams passaram a ser utilizadas com enorme sucesso por alguns telejornais assim como os telefones se tornaram essenciais para os programas ao vivo nas rádios.

Rede internacionais independentes de TV na Internet também já começam a surgir e desafiar a hegemonia das redes mundiais como a CNN ou a BBC. Por enquanto, são experimentais. Mas, um dia, redes poderosas como a própria CNN também foram motivos de ‘piada’. O projeto da Independent World Television é ambicioso e já pode ser visto em qualquer lugar do mundo, (ver aqui).

As novas formas de produzir TV na Internet ou IPTV (International Protocol TV) também são objeto de estudos em centros de pesquisas. A BBC divulgou em artigo recente (ver aqui) um relatório da Lovelace Consulting and Informitv em que descreve as mudanças dramáticas na TV com a introdução da conexão por banda larga. Mas tem sempre aquele leitor que vai dizer que ainda não tem banda larga e sequer Internet. Eu me recuso a ser refém da miséria. Não consigo aceitar o comodismo de ignorar o futuro e o potencial transformador das novas tecnologias só porque a maioria dos brasileiros ainda vive na miséria. Exclusão social ou digital não nos impede de investir em novas idéias e modelos de gestão. Comunicação mais eficiente pode ser um instrumento poderoso para eliminar a miséria ou a fome.

E quanto à introdução cada vez mais acelerada de banda larga é mera questão de tempo. Segundo o Washington Post, o crescimento nos EUA foi da ordem de 34 % em 2004. No Brasil o crescimento é menor, mas considerável. As novas tecnologias avançam apesar das limitações. A penetração do celular, por exemplo, que hoje é de 62%, será, em algum tempo, maior que a da TV aberta (com 97%) e do rádio (87%). Ou seja, apesar do pessimismo de alguns e da incompetência para eliminar a fome ou a miséria, avançamos no campo da comunicação.

No Brasil, já temos alguns bons exemplos de TV ao vivo na Internet e você pode conferir alguns exemplos aqui. Deve-se destacar os projetos mais ambiciosos como a TV UOL (ver aqui), a TV Terra e a pioneira allTV. Para surpresa dos ‘apocalípticos’ e alegria dos ‘integrados’, continua no ar com uma programação ainda meio radiofônica. Mas o começo de qualquer novo meio de comunicação é assim mesmo.

A TV na Internet ainda procura uma linguagem própria. Por enquanto, imita os meios conhecidos como o rádio e a própria TV. Um dia será algo completamente ‘único’ e diferenciado de tudo que conhecemos. Ainda não temos dados suficientes para prever o seu futuro. O importante é que TVs como a allTV produzem uma programação ao vivo que não encontramos em canais tradicionais, dão espaço para novos talentos e produzem novas idéias. O grande desafio da TV na Internet, no entanto, não se resume a buscar somente grande audiência. TV na Internet, para sobreviver, tem que buscar conteúdos diferenciados.

Monopólios e privilégios

Mas, no Brasil, nem todos parecem muito satisfeitos com o potencial ‘libertário’ da TV na Internet ou em celulares. Afinal, ao contrário da TV tradicional, a Internet não é um meio ‘passivo’. Para quem sonha em continuar controlando as mentes e os votos dos brasileiros, o desenvolvimento da Internet no Brasil é uma ameaça.

Esta semana, no encontro de novas mídias promovido pela Tela Viva, ‘os radiodifusores brasileiros defenderam a tese de que TV no celular ou na Internet é comunicação social e que, portanto, estaria sujeita às mesmas regras das TVs. Obviamente, esta é a mesma posição defendida pelo ministro global, Hélio Costa. E isso não nos surpreende’.

Mas nem todos concordam com essa interpretação da lei que visa à preservação de privilégios. Segundo o mesmo noticiário, a advogada Regina Ribeiro do Vale traz uma tese polêmica sobre a possibilidade de serviços de conteúdo audiovisual. Na visão dela, não existe respaldo para impedir empresas de celular, por exemplo, de oferecerem serviços de TV. ‘Hoje, existe uma legislação certamente desatualizada. Há muita coisa que precisa ser melhorada, mas a interpretação mais razoável que se pode fazer é que os serviços de TV no celular são de valor adicionado’, diz.

Ela ainda lembra que a ‘constituição traz como princípios a liberdade de expressão, a liberdade de iniciativa e o direito de acesso à informação’. Regina interpreta que ‘as empresas que provêem acesso e conteúdo, seja em plataforma de Internet ou celular, são usuárias de infra-estrutura de telecomunicações. O que se deve buscar em termos de atualização da legislação de comunicação é o controle do monopólio e da concentração, e mecanismos de fomento de conteúdos que valorizem a cultura nacional’.

Mas os radiodifusores insistem: ‘O Brasil é um país que tem a peculiaridade de ter toda a distribuição de televisão aberta diretamente vinculada ao produtor. Ou seja, o radiodifusor produz conteúdo e o distribui por conta própria’.

Pasmem! Reconhecemos a tal ‘peculiaridade’, mas insistimos em manter um modelo antiquado e injusto de qualquer maneira. A idéia é incorporar as novas tecnologias como a Internet ou telefone celular às velhas estruturas de poder. Continuamos pensando em maneiras de preservar as ‘capitanias hereditárias’ da comunicação.

Não é a toa que temos um sistema de TV a cabo limitado, falido e sob controle dos mesmos produtores de TV aberta no Brasil. Se não atentarmos para essas ‘discussões’ no Ministério das Comunicações e no Congresso, um dia TV na Internet ou nos telefones celulares só vai transmitir telenovelas.

Com a eterna desculpa da preservação do ‘conteúdo nacional’ a qualquer custo garantimos, sim, a manutenção de monopólios e privilégios. E depois não digam que eu não avisei.’



REALITY SHOWS
Luiz Antonio Ryff

‘Sexo, drogas e audiência’, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 1/10/05

‘A fama de liberalidade da Holanda é um cartão de visita e uma atração turística. Foi o primeiro país a permitir o consumo de maconha, vendida em coffee shops. Há anos mantém uma região de Amsterdã que reúne prostíbulos legalizados onde as mulheres se exibem em vitrines iluminadas à vista de clientes, turistas ou simples passantes.

Mas esse voyeurismo foi expandido a dimensões antes inimagináveis.

A Holanda é o país que criou e desenvolveu, em 1999, o conceito de reality show que hoje grassa no mundo inteiro. Seu principal mentor foi John de Mol, dono da Endemol e pai da franquia do Big Brother, presente em 31 países, inclusive o Brasil. Ele define o gênero como ‘novela da vida real’. O sucesso de Big Brother suscitou o aparecimento de diversos outros produtos, como ‘Extreme Makeover’. Graças a esse tipo de programa, John de Mol amealhou uma fortuna de US$ 2 bilhões e hoje é listado como a 321ª pessoa mais rica do mundo pela ‘Forbes’.

Em edições anteriores, exibiu nudez, sexo, brigas e já teve um transexual como vencedor. Mesmo assim, a audiência começou a cair. Na edição atual do Big Brother Holanda, que começou no mês passado, o principal chamariz na casa é a presença de Tanja. Aos 27 anos, a moça está no oitavo mês de gestação e, se tudo corresse como previsto, daria à luz a uma menina ao vivo diante de milhões de telespectadores.

A possibilidade de a criança ser filmada ininterruptamente 24 horas por dia, desde o nascimento, causou polêmica. O governo holandês proibiu que o parto seja transmitido e restringiu as imagens do Bebê Big Brother – como provavelmente ficará conhecido – a uma gravação por dia durante oito dias. Quando não estiver sendo filmada, a criança -cujo nome ameaça ser Lorena Savannah – deve ficar ao abrigo das câmeras, em local a que a mãe poderá ter acesso livre.

Explorar uma mãe grávida e um bebê recém-nascido ainda não é o limite para a TV holandesa. A BNN, uma emissora pública voltada para os jovens, está decidida a ultrapassar todas as barreiras em um programa que vai tratar de sexo e drogas usando a linguagem jovem e tendo o público entre 15 e 34 anos como alvo principal.

Spuiten & Slikken

Previsto para ir ao ar em 10 de outubro, ‘Spuiten & Slikken’ deve ser veiculado até às vésperas do Natal. Será exibido às segundas-feiras, durante 11 semanas, às 23 horas. O nome do programa é um jogo de palavras difícil de traduzir, já que ‘spuiten’ e ‘slikken’ têm duplo sentido, usado tanto para sexo quanto para drogas. Mas é algo na linha ‘Enfia e engole’.

O título dá uma idéia da abordagem crua e direta que esses temas terão. A apresentadora Sophie Hilbrand vai conduzir o programa, entrevistando jovens sobre suas experiências nos dois assuntos. Mas ‘Spuiten & Slikken’ também acompanhará as peripécias de dois jornalistas participativos em suas experiências com sexo e drogas. Filemon Wesselink, 26, experimentará as drogas. E Ties Van Westing, 25, foi encarregado das aventuras sexuais. Eles descreverão as sensações vividas durante os experimentos.

É justamente aí que mora a controvérsia de ‘Spuiten & Slikken’. As experiências dos dois rapazes serão gravadas e transmitidas pela emissora pública. Curiosamente, o sexo terá uma abordagem mais pudica em um país que costuma exibir filmes de sexo explícito na TV. Justamente por isso. ‘Nós não queríamos que parecesse um filme pornô’, disse Marion Van Dam, porta-voz da BNN, a NoMínimo.

O uso de drogas, no entanto, será absolutamente explícito. Está previsto que Filemon usará heroína – uma droga proibida no mundo inteiro, inclusive na Holanda. E todo o processo – do preparo, passando pelo consumo, aos efeitos da droga – será transmitido para todo o país.

Um médico acompanhará todas as experiências com drogas. Não só para agir em caso de problema, mas também para explicar, do ponto de vista médico e fisiológico, os efeitos de cada droga no organismo, seus riscos e efeitos colaterais. ‘Ele vai monitorar constantemente todas as experiências com drogas’, explica Marion. ‘E os espectadores vão ver tudo.’

A condição básica dos dois jornalistas foi não tomar parte de nada que não quisessem. Práticas mais heterodoxas, principalmente no campo sexual, ficaram de fora. Filemon não vai usar ketamina, a droga da moda na Holanda, por exemplo. A ketamina é um anestésico, hoje usado em animais, que causa forte dependência, provoca uma sensação de relaxamento e tem sérios efeitos colaterais, como alucinações psicóticas. ‘Achamos que era muito perigoso e nossos consultores aconselharam que ela não fosse usada’, justifica Marion. Mas não houve restrição à heroína. Filemon apenas pediu que, nesse caso específico, o ‘laboratório’ fosse a casa da sua mãe, onde ele se sentiria mais confortável. Uma das regras do programa é que Filemon pode fazer as experiências quando e onde quiser, desde que acompanhado pelo médico. Ele já começou a gravar os programas e, segundo a BNN, está achando ‘muito interessante’.

Lambendo o dorso do sapo

Entre as drogas previstas, estão cocaína, álcool, LSD, ecstasy e maconha. A estranheza maior provavelmente será o uso que Filemon fará de um exemplar do reino animal. ‘Ele também vai lamber o dorso de um sapo do rio Colorado’, anuncia Marion. Conhecido pelo nome científico de ‘bufo alvarius’, o espécime verde oliva é encontrado nos Estados Unidos (no deserto do Colorado, no Novo México, Arizona e Califórnia) e expele duas substâncias que, juntas, são altamente alucinógenas: a Bufotenin e a Dimethyltryptamin. E, aparentemente, o ‘consumo’ se dá assim mesmo, lambendo o dorso do sapo.

As experiências sexuais serão vividas por Ties que, entre outras coisas, vai participar de um ménage à trois, vai transar sob efeito de remédios como viagra, vai fazer sexo ‘em posições acrobáticas’. Além de receber sexo oral de um homem e de uma mulher, para efeito de comparação. Nada disso será mostrado. Nem haverá um médico acompanhando as aventuras do rapaz. E o uso de camisinhas será recomendado.

‘Ties vai receber um blow job de um cara e de uma mulher, mas isso não será mostrado na TV. Ele vai entrar em um quarto especial sem câmera e à prova de som. O espectador vai vê-lo entrando no local, vão explicar que tipo de experiência ele vai ter e, depois, Ties vai dividir sua experiência com a audiência. Nesse caso, poderá dizer se há alguma diferença entre ser chupado por um homem ou por uma mulher, de qual ele gostou mais e como ele se sentiu’, adianta Marion.

A idéia de ‘Spuiten & Slikken’ surgiu durante uma reunião de criação. A emissora queria criar um programa que falasse de assuntos de interesse dos jovens e também tivesse algum apelo televisivo. ‘Muitas pessoas usam drogas ou são curiosas sobre o assunto. Nós vamos informá-las sobre isso no programa, que será mais na linha do ‘não tente isso em casa’ do que na do ‘faça você mesmo’. Seria ingênuo tentar esconder dos jovens assuntos como sexo e drogas’, explica Marion, que frisa o caráter informativo e educativo do programa. ‘Jovens fazem sexo. O melhor é explicar para eles por que é aconselhável usar uma camisinha do que não tocar no assunto’, avalia.

Apesar dessa ‘preocupação’ informativa, o canal recebeu pressões e reclamações de políticos, mesmo antes de ‘Spuiten & Slikken’ ir ao ar. O porta-voz do governo holandês de centro-direita, Pieter Heerma, tachou o programa de ‘perigoso e um mau exemplo’, afirmando que solicitaria ao ministro da Justiça um posicionamento sobre a legalidade da transmissão e uma avaliação dos perigos e riscos envolvidos. Mas esse tipo de programa não chega a ser novidade para a emissora pública. Em 2003, a BNN levou ao ar ‘Neuken doe je zo!’ – algo traduzível para ‘É assim que se come!’.

Em um dos episódios finais, um dos capítulos tinha o utilitário título de ‘Como fazer sexo em uma boate sem ser notado’. A ‘aula’ foi dada por uma ‘profissional do sexo’ com ajuda de um boneco em tamanho natural, dotado de órgãos sexuais. Atingiu um milhão de espectadores, o recorde do canal. Em um país com pouco mais de 16 milhões de habitantes, é um número nada desprezível. Dois anos depois, a BNN volta à carga, agora sem o boneco. Deve ter sido demitido.’

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