Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > CNN, 30 ANOS

Larry King pediu o chapéu

Por Fábio M. Barreto, de Los Angeles em 06/07/2010 na edição 597

A saída de Larry King é o mais recente percalço enfrentado pela CNN, que se esforça para ser o terceiro canal mais assistido, vê, pouco a pouco, sua relevância ir embora e busca na nova geração de ouvintes e profissionais a saída para seu dilema ao completar 30 anos de existência.

A visão inicial de Ted Turner para seu canal de notícias 24 horas fez sentido por muito tempo. Mas lá se vão 30 anos desde a inauguração da Cable News Network, ou melhor, uma das siglas mais famosas do mundo: CNN. Responsável por coberturas históricas, como as guerras do Golfo, escândalos políticos e até mesmo a morte de Michael Jackson, no ano passado, a emissora já vinha perdendo espaço e, curiosamente, degringolou depois do falecimento do Rei do Pop. Embora seja motivada por razões pessoais, a CNN se prepara para perder sua majestade com o anúncio do término do programa de Larry King, o mais longevo do gênero na história. Renovação promove evolução, mas ultimamente esse tem sido o ponto fraco da emissora, que não sabe se populariza seu conteúdo, se aposta de vez na internet ou se mantém seu formato decano.

Larry King tem 76 anos de idade e passou os últimos 25 entrevistando os nomes relevantes da política, entretenimento, educação, sociedade e até mesmo os monstros criados pelo mundo dos reality shows e celebridades instantâneas. Vai encerrar o programa para passar mais tempo com a esposa e a família.

Agora entendi as razões pelas quais ele andou negando entrevistas, justamente no momento do aniversário de 25 anos de seu programa. Faz todo sentido e é justo. Afinal, foram mais de 40 mil entrevistas no horário nobre, algo que Barbara Walters deveria pensar antes de se gabar tanto. E esse reinado vai acabar. Não agora, mas em breve, assim que a CNN encontrar um substituto para King, se é que tal escolha é possível. Um novo programa deve surgir no horário ou, no caso de extrema ousadia, um novo entrevistador surgirá para ocupar a cadeira e os suspensórios do veterano.

Terceiro lugar

E aí surge o maior problema da CNN: renovação. Sem rumos e, recentemente, sem muitas estrelas próprias, a rede do Turner Broadcasting System luta por seu lugar, uma vez soberano e anos-luz à frente da concorrência. Esse cenário é comum no jornalismo e corriqueiro no cenário moderno com a inclusão das novas mídias e ferramentas online e portáteis. Teoricamente, isso não seria problema para a CNN, que sempre inovou em termos tecnológicos, se dispunha a abastecer os norte-americanos e, depois da fundação da CNN International, o mundo. Certa vez, ouvi que a revista Veja, do Brasil, não vende informação: vende opinião. O leitor consome, concorda ou não, e tem assunto para a semana toda. A CNN aposta no espectador inteligente, ou melhor, no formador de opinião. E, pelo jeito, errou na decisão. Ela ainda influencia a quem pretende, mas falha com a massa.

Embora com política alinhada ao governo democrata de Bill Clinton, por exemplo, a CNN optou oficialmente por um caminho ético e direto: não-partidarismo e foco nos fatos. Como todo jornalista sonha ser até encontrar a dura realidade da política da imprensa, a rede insistiu na postura neutra. Construiu nomes monstruosamente famosos e poderosos nesse período, como Wolf Blitzer, Christiane Amanpour, Larry King, Anderson Cooper e, talvez, John King. Isso sem contar o lendário Lou Dobbs, que já tirou o time de campo. Nomes relevantes para um público adulto e altamente qualificado. Dinossauros para a nova geração, que compra manchetes rápidas e opinião curta e impactante. Já uma realidade causada pelo efeito Twitter?

A relevância e credibilidade desse pessoal deveria ser suficiente para manter a audiência, porém a Fox News fez algo inesperado com seu partidarismo descarado: aposta na opinião e sem deixar dúvida ao público de que ali se fala mal de democratas, do presidente e de qualquer tentativa de se criar um ‘Estados Unidos diferente do que seus pais viveram e ensinaram’. Houve polarização e, logo de cara, um grande pedaço dessa audiência foi escutar as besteiras por vezes exageradas e até racistas do concorrente sem pensar duas vezes. A CNN continuou neutra e reformulou seu visual. Então veio a MSNBC com mais dinâmica, outro estilo e bastante integração online e opinião bem pontuada. E a CNN despencou para o terceiro lugar, onde está atualmente e registrando uma queda de 18% de 2009 para 2010.

Riscos do sensacionalismo

A perda de King é a mais recente, mas não menos célebre e notória que a saída de Christiane Amanpour – contratada pela ABC e prestes a apresentar o programa The Week, a partir de agosto – e o fiasco local de Campbell Brown, que ocupa o horário das 20h, o mais relevante em termos de notícias. Curiosamente, o estilo desses três nomes está diretamente ligado à reportagem, noticiário ou entrevista direta e sem tomar partido. Amanpour era um dos grandes pilares da emissora, Larry King, o outro. Brown não chegava perto e, perante sua fraca performance, pediu para sair. No momento, a CNN está bamba e se mantendo às custas de seu terceiro pilar: seu nome.

Tudo isso acontece em meio às férias de Wolf Blitzer, o único grande bastião desses 30 anos. Anderson Cooper é dinâmico, inteligente e mete as caras nas reportagens, mas não é o homem do horário nobre. Seu programa é aprofundado, pensado e extenso. Algo semelhante a um Globo Repórter feito ao vivo e com entrevistados realmente relevantes ao assunto. De qualquer forma, uma válvula de escape para o espectador fiel, que pode dormir tranquilo. O mesmo não pode ser dito sobre a programação diária.

Se já havia sinais claros de falta de rumo na CNN, o caso do Balloon Boy afastou qualquer dúvida. Mas essa festa da mudança maluca continuou acontecendo a cada novo programa e, especialmente, com a aposta infrutífera de abandonar o jornalismo em prol da interação com o internauta – ou melhor, usuários do Twitter e do Facebook – na hora do almoço com Rick Sanchez, cuja pauta se limita a opiniões desconexas de seu âncora, com leitura de tweets e uma tentativa de soar moderno. A ‘Conversa em Âmbito Nacional’ proposta por Sanchez nunca acontece. É um monólogo chato, irrelevante e cheio de pretensões. O cenário só piora com os excessivos comerciais e, por vezes, blocos nos quais o apresentador aparece para fazer a chamada do que está por vir. Esse estilo pode facilmente levar um nome conhecido no jornalismo e, anteriormente, odiado pela CNN: sensacionalismo.

Um futuro inseguro

Como esse time não está ganhando, está na hora de mudar. E as tentativas estão acontecendo, mas sem a menor certeza. Para o lugar de Campbell Brown, o canal contratou uma dupla improvável: Eliot Spitzer (ex-governador de Nova York que foi forçado a renunciar depois de ser flagrado num escândalo sexual) e a jornalista Kathleen Parker, vencedora do prêmio Pulitzer. Spitzer é ótimo debatedor, deu vários shows na mesa-redonda de Bill Maher, na HBO, e foi sondado também pela MSNBC, mas é figura controversa especialmente por seu pequeno incidente. Eles prometem promover um debate mais amplo, incluindo assuntos como, veja só, Copa do Mundo e ir a fundo em tópicos como o recente afastamento do general Stanley McCrystal, que foi derrubado depois de artigo publicado pela revista Rolling Stone. Ou seja, vale tudo, contanto que o pacote seja atraente.

Pensando assim, toda vez que vale tudo é por que não há certeza de nada. A Fox News é burra, partidária e feita para imbecilóides ultranacionalistas, mas encontrou seu nicho no que deveria ser a minoria. Enquanto a CNN continuar apática e acreditando em formato sobrepondo a força do indivíduo na frente da câmera, seu futuro é mais inseguro do que seus focos atuais. Manter-se relevante é o maior dos desafios; e eles têm um longo caminho pela frente.

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