Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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FEITOS & DESFEITAS > MARKETING POLÍTICO

Lei anti-showmício e a democracia

Por Gil Castillo em 02/05/2006 na edição 336

Bato na tecla das reformas da Lei Eleitoral porque considero que estamos relegando essa discussão a um plano secundário. Embora, provavelmente, não seja colocada em prática ainda neste ano, as novas regras são o embrião de um tema polêmico, afinal, conquistamos o direito à liberdade de expressão e nossa sociedade evoluiu o suficiente para saber que uma campanha sem atrativos, aliada à crescente desmoralização dos nossos sistemas políticos, pode levar à apatia do eleitor.

Por analogia, vamos nos imaginar presos a uma sala de aula, monótona e cansativa, com um professor, um quadro negro e um giz, às 8 da noite, depois de termos trabalhado um dia inteiro. O conteúdo da matéria certamente é valioso e o professor pode até ser muito bem-intencionado, mas quem consegue assimilar, espontaneamente, o que está sendo ensinado? Você assistiria a essa aula hipotética se pudesse escolher, ou se não fosse obrigado? Sabemos que essa fórmula é antididática e os professores hoje lançam mão, cada vez mais, de atrativos como músicas, vídeos, filmes, leituras, internet. E com a mensagem política não pode ser diferente.

Há até uma campanha educativa do governo federal, veiculada atualmente que, com visual moderninho, tenta mostrar ao povo que ‘política tem tudo a ver com você’. Que contra-senso, então, transformar a discussão política numa coisa enfadonha e retrógrada. Justamente agora que os meios de expressão são cada vez mais acessíveis: temos sites, blogs, fotoblogs, podcasts e pode-se produzir conteúdo até mesmo com um celular. A comunicação está ao alcance de todos e querem cercear a comunicação política?

É claro que a única justificativa para isso são os interesses de alguns representantes da própria classe política, que hoje ditam as regras. Segundo o colega Carlos Manhanelli, consultor político, em seu artigo intitulado ‘O que vai sensibilizar o eleitor na decisão do voto?‘ [rolar a página], temos:

A luta é desigual. Os deputados existentes não querem sair do posto de jeito nenhum e tudo fazem para isso. As novas lideranças tentam mostrar seus programas, ideologias e postura e são barradas pela legislação. A renovação fica cada dia mais difícil, e se for aprovada esta lei, que proíbe até outdoor, não apenas o voto será secreto, mas os candidatos também.

Grande audiência

Na outra ponta, segundo as palavras do senador Aloizio Mercadante (PT), autor da emenda que proíbe o uso de imagens externas na TV, a medida justifica-se assim: ‘Vamos perder qualidade dos programas, mas as campanhas serão mais autênticas, mais baratas e compatíveis com o preço que a democracia está disposta a pagar.’ Pensemos bem: será que o custo não é a própria democracia?

Adotar critérios coerentes para coibir corrupção, uso indevido do dinheiro público ou uso exacerbado de recursos, que tornam a disputa desigual, é medida necessária, mas essa ‘Lei Falcão moderna’, que tentam nos impor, é somente uma afronta à democracia e não tem relação com a moralização dos gastos de campanhas. Se assim fosse, não teríamos, segundo afirma reportagem de 19/4 do jornal Folha de S.Paulo, página A8, a retirada de trechos do projeto que se referiam a um teto para gastos eleitorais, à redução do tempo de campanha e à criação de medidas para responsabilizar o tesoureiro, e não apenas o candidato em caso de irregularidades no financiamento e na prestação de contas. Ou seja, estão se preocupando com a forma e se esquecendo do objetivo.

E, para os que afirmam que ninguém assiste ou ouve ao horário eleitoral gratuito, lembro-me de ter anotado os dados de uma pesquisa, realizada em eleições passadas, pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), sobre o comportamento do brasileiro quanto ao horário eleitoral gratuito. Em linhas gerais, foram apontados os seguintes dados:



** A média de audiência na TV é apenas 10% menor que as médias da programação normal para o horário.



** 90% do público assistem ou ouvem pelo menos um programa por semana.

Bem valioso

Mesmo criticando ou reclamando do horário gratuito, é através dele que o eleitor reúne elementos para decidir sobre o seu voto. Torna-se o assunto das rodas de discussão do dia seguinte. Daí a sua importância.

Lembro-me também que, quando o governo divulgou a intenção de criar uma agência reguladora para o jornalismo, todos os profissionais e a sociedade ficaram indignados, com muita razão. E foram ouvidos.

Infelizmente a imagem do marketing político está equivocadamente manchada pelos acontecimentos recentes. Acontecimentos que, longe de estarem ligados à comunicação, dizem respeito à corrupção. Por isso, provavelmente o desfecho dessa história seja uma indiferença ao que essas medidas realmente representam. Aliás, constatando tristemente a realidade, cabe-me a pergunta: quantos prestarão atenção a esse meu protesto, num país em que encontramos manchetes, em jornais conceituados, afirmando que o próprio presidente da República usa toda a sua força para dificultar uma CPI, como se isso fosse algo normal?

A democracia é um bem valioso. Precisamos cuidar melhor dela.

******

Publicitária, consultora de marketing político, diretora de relações públicas da Associação Brasileira de Consultores Políticos e editora do site marketingpolitico.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/05/2006 Edno Costa Lima

    Há uma relação um pouco equivocado ao se comparar os recursos utilizados por um professor , a fim de maximizar o aprendizado de seus alunos, com os recursos utilizados pelas campanhas políticas. Aquelas visam a ensinar, assimilar e essas a enganar. Vide o exemplo da propaganda governamental que informava a respeito dos ‘avanços’ da agricultura familiar em que eram mostradas cenas de uma fazenda privada como sendo um modelo de propriedade do programa de agricultura familiar. O partido dos corruPTos e o pc do b, este ao menos no Rio de Janeiro, fizeram campanhas milionárias, dinheiro oriundo provavelmente da corrupção. Foi uma luta desigual em relação aoutros partidos de esquerda, que não tendo de onde tirar dinheiro, fizeram bancadas ínfimas, se comparadas ao corruPTos.É uma luta desigual. E um professor, um giz e um quadro negro, nunca serão monótonos se o professor for bom e o aluno interessado. Política deve prender a atenção por si mesmo e não por shows pirotécnicos. Quem necessita disso para pretar a atenção num programa político merece os governantes que temos.

  2. Comentou em 08/05/2006 Edno Costa Lima

    Há uma relação um pouco equivocado ao se comparar os recursos utilizados por um professor , a fim de maximizar o aprendizado de seus alunos, com os recursos utilizados pelas campanhas políticas. Aquelas visam a ensinar, assimilar e essas a enganar. Vide o exemplo da propaganda governamental que informava a respeito dos ‘avanços’ da agricultura familiar em que eram mostradas cenas de uma fazenda privada como sendo um modelo de propriedade do programa de agricultura familiar. O partido dos corruPTos e o pc do b, este ao menos no Rio de Janeiro, fizeram campanhas milionárias, dinheiro oriundo provavelmente da corrupção. Foi uma luta desigual em relação aoutros partidos de esquerda, que não tendo de onde tirar dinheiro, fizeram bancadas ínfimas, se comparadas ao corruPTos.É uma luta desigual. E um professor, um giz e um quadro negro, nunca serão monótonos se o professor for bom e o aluno interessado. Política deve prender a atenção por si mesmo e não por shows pirotécnicos. Quem necessita disso para pretar a atenção num programa político merece os governantes que temos.

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