Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & POLÍTICA

Leia Lazarsfeld em ano eleitoral

Por Rafael Duarte Oliveira Venancio em 17/06/2008 na edição 490

No Brasil, quando é época de eleições, não é só o governo que é visto com outros olhos. A imprensa também sente a pressão do processo em seu trabalho. Um dos exemplos está na coluna do ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, no domingo (15/6). Nela, ele indica que, na referida semana, recebeu ’42 mensagens de leitores que se queixavam de falta de apartidarismo da Folha. Destas, 37 diziam que o jornal foi a favor do PSDB em diversos episódios e cinco achavam que ele favoreceu o PT’.

Após deixar claro que o apartidarismo faz parte da linha editorial do jornal desde 1984, Lins da Silva não pode deixar de concluir que ‘ser apartidário num ambiente de divisão política acirrada é muito difícil. Ser visto como imparcial por todos é impossível. O pior é que não basta ser: é preciso parecer ser. Nestes três casos, a Folha muitas vezes não pareceu ser’.

Provavelmente escutaremos mais reclamações como estas e que abrangerão todos os veículos de imprensa do país. Algumas serão injustas e outras estarão bem fundadas graças, principalmente, ao fato que a mídia será a principal veiculadora de informações sobre o pleito devido aos horários gratuitos e às restrições de publicidade eleitoral.

Efeito bumerangue

Para aqueles que pretendem criticar ou mesmo utilizar a imprensa no escopo eleitoreiro, recomendo um cientista social pouco falado nos estudos brasileiros em Ciências da Comunicação: Paul Felix Lazarsfeld. Nascido em 1901, em Viena, ele se forma em Matemática e faz parte do ‘Círculo de Viena’.

Em 1933, é convidado para pesquisar nos Estados Unidos e é na Columbia University que conduz os dois estudos mais interessantes para a análise da imprensa: um sobre rádio (Radio Project) e um sobre as eleições (The People´s Choice). Se o primeiro é conhecido por explicar que 25% das pessoas acreditaram na veracidade da transmissão, por Orson Welles, da Guerra dos Mundos via rádio; o segundo tem informações interessantes sobre como o eleitor norte-americano escolhia o seu candidato a presidente em 1940.

Entre outras informações, Lazarsfeld e seus colegas Bernard Berelson e Hazel Gaudet encontraram que a alta exposição do candidato republicano Wendell Willkie, pelos veículos que o apoiavam, foram ‘um bumerangue contra ele mesmo já que [tais veículos] estavam lá para trabalhar a seu favor’.

Um dos exemplos disso é a fala de um eleitor indeciso citado pelo estudo: ‘Eu escutei alguns dos discursos de Willkie e não gostei dele… Tudo que ele faz é condenar Roosevelt. Ele não diz como ele fará as coisas se for eleito. Roosevelt nunca disse algo contra Willkie.’

Notícias demais

O que o estudo de Lazarsfeld indica é que as notícias, mesmo com intenções propagandísticas, fazem o eleitorado pensar criticamente sobre o assunto. Notícias demais sobre um candidato podem acabar, ‘sem querer’, mostrando os defeitos antes imperceptíveis.

Isso não vale apenas para The People´s Choice. Oito anos depois, Lazarsfeld, junto com Bernard Berelson e William McPhee, estudam novamente as eleições presidenciais em Voting. A conclusão é na mesma linha: ‘Maior exposição na campanha pelos meios de comunicação de massa, mais correta informação os eleitores terão sobre os candidatos e mais correta sua percepção sobre a opinião deles sobre as questões da campanha.’

Assim, os republicanos Willkie (1940) e Dewey (1948), celebrados como favoritos pela grande mídia, perdem para os democratas Roosevelt e Truman, respectivamente. Para eles, notícias propagandísticas demais foram um bumerangue na imagem pública perante o eleitor.

Reflexão ou partidarização?

Agora, sessenta anos depois e em um país com configuração eleitoral e midiática totalmente diferentes dos Estados Unidos, é necessário estar atento para verificar se a imprensa brasileira possui o mesmo efeito. Será que, em 2008, quanto mais informações, propagandísticas ou neutras, tivermos sobre os nossos prefeitos e vereadores mais saberemos sobre eles?

Em um país com histórico de polêmicas envolvendo a grande mídia e as eleições será que é possível para as notícias causarem conseqüências críticas, e não as chamadas ‘massificadoras’? No país do Proconsult e do debate de 1989, apenas as pesquisas poderão nos dizer se a imprensa é um veículo público ou eleitoreiro.

Apenas dessa forma acabará uma das maiores polêmicas na academia: estamos para Lazarsfeld ou para Perseu Abramo? Nossa imprensa conduz à reflexão da opinião pública ou, como afirmava o jornalista e sociólogo brasileiro, ‘se os órgãos [de imprensa] não são partidos políticos na acepção rigorosa do termo, são, pelo menos, agentes partidários, entidades parapartidárias, únicas, sui generis. Comportam-se e agem como partidos políticos’?

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Pesquisador de Iniciação Científica em Jornalismo do Centro de Estudos da Metrópole (CEM-Cebrap) e da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), São Paulo, SP

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