Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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FEITOS & DESFEITAS > INGRID BETANCOURT LIVRE

“Lenin, acorde, eles ficaram loucos!”

Por Alberto Dines em 08/07/2008 na edição 493

Em 21 de agosto de 1968, quando o Kremlin resolveu enviar os seus tanques para encerrar a Primavera de Praga, os estudantes tchecos saíram à rua para protestar. Conforme conta Jan Puhl no Der Spiegel, alguns picharam num muro os seguintes dizeres: ‘Lenin, acorde, eles ficaram loucos!’


A condenação de Fidel Castro aos seqüestros cruéis e anti-revolucionários praticados pelas FARC relembra os 40 anos do levante tcheco e sugere uma nova pichação: ‘Lenin, acorde, eles continuam loucos!’.


‘Eles’ não são apenas as FARC, são também a mídia dita ‘progressista e antiimperialista’ ainda encarapitada num imaginário Muro de Berlim policiado pela Stasi. ‘Eles’ também são a mídia dita liberal, cada vez menos livre.


Jornalistas, em geral, funcionam como radares dos novos tempos, barômetros que antecipam mudanças, drásticas ou graduais. Barack Obama, pós-racial e pós-ideológico, desconcertou os fundamentalistas de direita e esquerda porque a mídia americana e a internacional – uma realimentando a outra – continuam presas aos dilemas e esquemas da Guerra Fria, incapazes de perceber que jornais saem todos os dias e todos os dias algo se move. Jornalistas fazem jornais, porém não lêem jornais – no máximo aqueles em que trabalham.


Ingrid Betancourt pulou do helicóptero que a trouxe da selva com um repertório audacioso de idéias, como se os seis anos que passou acorrentada não tivessem acontecido, como se acabasse de sair de um seminário sobre a agenda do futuro.


A cada dia dispara uma idéia desconcertante, sensacional, tirada de uma cartilha de convergências, onde há lugar para todos. Excluída da vida durante um lapso tão grande vingou-se: excluiu a exclusão.


Torta e mal-explicada


No primeiro dia deu luz verde para o terceiro mandato de Álvaro Uribe, no dia seguinte estimulou o presidente equatoriano a esquecer zangas e trabalhar pela paz regional. Na segunda-feira (7/7) foi em frente e declarou que Hugo Chávez é indispensável para um diálogo com as FARC. [Em tempo: e na terça-feira (8/7), afirmou que ‘é preciso conversar até com as pessoas que odiamos’.]


Ingrid parece disposta a abrir todos os cadeados, quebrar todos os engessamentos, liquidar todos os preconceitos. Tem, evidentemente, um projeto, talvez um projeto político. Mas por enquanto dá vazão a um projeto intelectual, engenhosa mistura de utopismo sul-americano com cartesianismo francês: como as ideologias não conseguiram evitar as sucessivas catástrofes do nazi-fascismo, do stalinismo e a próxima, ambiental-alimentar, melhor aposentá-las.


Parafraseando Clemenceau (o mancheteiro do ‘J’Accuse’, ver abaixo), ‘a vida é séria demais para ser comandada por frases-feitas’. Frases feitas que políticos midiáticos e midiáticos politizados inventam todos os dias para preencher as páginas em branco.


Ainda há muita coisa obscura, torta e mal-explicada na história da milagrosa libertação da refém das FARC. No entanto, sua extraordinária recuperação com apenas seis dias de liberdade não nos impede de refletir sobre a carência crucial do nosso tempo: a falta de fabulistas e fabuladores. Em plena Era da Informação percebemos que o que falta realmente é imaginação.


***







Georges Clemenceau, político e jornalista, redator-chefe do L´Aurore quando Emile Zola lhe entregou a carta-aberta ao presidente da República Francesa denunciando a injustiça contra o capitão Alfred Dreyfus. Com ela produziu a mais conhecida manchete de todos os tempos (13/1/1898). Quatro anos antes, dissera que Dreyfus era uma ‘alma imunda’. Ao assumir o comando das forças francesas no fim da 1ª Guerra Mundial escreveu: ‘A guerra é coisa séria demais para ser entregue aos generais’.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/07/2008 Paula Oliveira

    ‘Em plena Era da Informação percebemos que o que falta realmente é imaginação.’ Pelo menos falta imaginaçao que se identifique com o século 21. Essa História de ‘amor-a-américa, pós-trauma na mata’, faz pensar que ainda falta um Rambo, carregando todos em seu ombro.

  2. Comentou em 10/07/2008 Ivan Moraes

    ‘extraordinária recuperação com apenas seis dias de liberdade’: Dines, voce acreditou nisso? Eh marketing. Chama se ‘tutoring’. Nao vou falar mais nada porque quero a **Colombia** morta. E enterrada.

  3. Comentou em 10/07/2008 Thiago Silva

    A operação de resgate de Ingrid nada passa de uma tentativa de melhorar a imagem dos EUA e de Uribe, além de Sarcozy (França), todos de direita pró-Estados unidos.

    Por que não comentam nada de um lugar muito pior: A Baía de Guantanamo, onde presos políticos são torturados pelo exército dos EUA?

    Não defendo as FARC, que eram antes apoiadas pelos soviéticos, e hoje, pelas drogas. Mas a extinção deles, em nada vai mudar, o poder do tráfico passará a ficar em outras mãos. Uribe é responsável pelo escândalo da parapolitica onde utiliza de forças paramilitares de extrema-direita a seu favor.
    http://www.estado.com.br/editorias/2008/06/28/int-1.93.9.20080628.1.1.xml

  4. Comentou em 09/07/2008 Gilberto Gonçalves

    Na verdade entendo que ela passou mesmo esse tempo todo em seminário sobre a agenda do futuro e não tratada como cão conforme declarou logo ao saltar do helicoptero.
    Duvido que ela tenha passado esse tempo todo acorrentada pelo pescoço como também vem declarando.
    Duvido que tenha sido obrigada a andar descalça pela selva para ser picada ‘por aranhas, escorpiões e concas – formigas grandes que picam e são venenosas’ como também declara em sua entrevista publicada hj pelo Estadão.
    Quem passa todo esse tempo na selva tratada como ela diz que foi, jamais sobreviveria e muito menos sairia de lá tão bem como ela saiu.
    Vamos esperar para ver se os resultados dos exames médicos realizados na França serão divulgados para o mundo.
    Esse tempo todo na sela entre ‘porcos animais’ como ela os chama e nenhum deles ousou tocar nela. Até a sua assistente cedeu e saiu do mato grávida…
    Ela não! Ela saiu de lá praticamente tão bela como chegou.

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