Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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l’Humanité: cem anos de engajamento

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 20/04/2004 na edição 273

Era a primavera de 1904.

Ao lançar seu jornal no dia 18 de abril, o socialista Jean Jaurès não imaginava que ele completaria 100 anos. Mas a vontade de durar e sua garra na defesa dos ideais socialistas estavam expressas no editorial de primeira página: ‘Fazer existir um grande jornal sem que ele esteja subordinado a nenhum grupo econômico é um problema difícil, mas não insolúvel’.

O jornal se auto-proclamava ‘diário socialista’, tinha formato grande e Jean Jaurès nele era ‘diretor político’. O deputado socialista, historiador do socialismo e pacifista, assassinado às vésperas da Primeira Guerra Mundial, deixou para a posteridade um jornal que esteve presente em todos os debates importantes da história francesa do último século. Em 1921, o jornal de Jaurès passou a se proclamar ‘diário comunista’. Em 1923, torna-se ‘órgão do comitê central do Partido Comunista Francês’.

Como tal, l’Humanité nunca se limitou a informar. Era um órgão de imprensa mas também instrumento de comunicação política. Tomava posições claras sobre todos os assuntos. Quem não queria um jornal militante, assumidamente comunista, comprava outro. O leitor de l’Huma, como é chamado carinhosamente pelos franceses, sabia que nele encontraria o engajamento e a defesa dos ideais comunistas, além do noticiário factual do país e do mundo. Era nele que os jornalistas, comunistas na grande maioria, denunciavam os abusos do capitalismo, faziam a defesa dos interesses dos trabalhadores e mais tarde, dariam espaço generoso às lutas altermundialistas.

Tarja preta

Ser comunista implicou, numa época, também refletir as contradições e lutas internas do Partido Comunista Francês em alguns momentos e, em outros, as divergências entre o partido francês e o regime soviético.

Em 1939, l’Humanité foi proibido — em francês se diria proibida, a concordância é feita no feminino, uma peculiaridade a mais do jornal — de circular depois da assinatura do pacto germano-soviético. De 1939 a 1944, sob ocupação alemã, foram publicados 317 números clandestinos do jornal comunista engajado na luta anti-nazista.

O jornal noticiou a morte de Stálin com uma tarja preta na primeira página. Durante a guerra da Argélia, entre 1954 e 1962, o jornal foi impedido de circular 27 vezes por suas posições anti-colonialistas.

Mesmo depois de suprimir a frase ‘Órgão do Partido Comunista Francês’ desde 1994 e depois de retirar do logotipo a foice e o martelo em 1999, o jornal não deixou de se identificar como um jornal comunista. E são os militantes comunistas, a maioria dos leitores, que atendem aos apelos de contribuição maciça quando o jornal está em crise.

Pelo pluralismo

A história heróica do jornal foi abalada por uma tempestade sem precedentes. Completar 100 anos passou a ser um desafio para a geração dos atuais jornalistas do l’Humanité, que lutaram contra todos os obstáculos para ver o jornal se juntar ao clube restrito dos centenários La Croix (1883) e Figaro (1826).

O jornal vendia 100 mil exemplares no fim da década de 1980 e hoje vende em média 48 mil, de segunda a sexta-feira, e 70 mil da edição de fim de semana, que sai no sábado. A queda nas vendas reflete não somente a crise da imprensa escrita francesa mas também o declínio do comunismo no mundo inteiro.

Essa curva descendente do jornal, que chegou a vender 250 mil exemplares na sua fase de maior prestígio, foi acompanhada de perto pela perda de eleitores do Partido Comunista Francês. Uma campanha de assinaturas para salvar o jornal e manter o pluralismo da imprensa lançou há poucos meses uma petição ‘Pour le pluralisme de la presse’, assinada por mais de 40 mil pessoas até agora. Essa petição vai ser enviada ao presidente Chirac como um pedido de socorro para a sobrevivência do jornal. Ao mesmo tempo, l’Humanité lançava um pedido de contribuição a seus leitores, militantes comunistas e simpatizantes em geral. Arrecadou 810 mil euros.

‘Somos hoje totalmente independentes do partido e eu definiria o l’Humanité de hoje como um jornal de criação comunista’, diz o atual diretor Patrick Le Hyaric. ‘Esperamos manter o ritmo de crescimento do ano passado e ganhar de 1500 a 2000 compradores por ano atingindo o ponto de equilíbrio econômico de 53 mil exemplares vendidos no primeiro trimestre de 2006’.

O ritmo de crescimento de que ele fala foi obtido graças a muito esforço e uma campanha de marketing premiada que tinha diversos cartazes com o slogan ‘Num mundo ideal, l’Humanité não existiria’. Entre as muitas imagens surpreendentes que ilustravam essa frase, Bush usando uma camiseta com o retrato de Che Guevara. Segundo dados de uma pesquisa divulgada em março deste ano, l’Humanité foi o cotidiano francês que mais cresceu em 2003: 4,52%.

Os cem anos do jornal foram pretexto para muitas entrevistas e reportagens sobre o diário comunista. A mídia francesa cobriu com grandes espaços os 100 anos do concorrente que não é visto como tal, mas como um patrimônio da história da imprensa nacional.

Patrick Le Hyaric, que assumiu o cargo em 2000, quando o jornal vivia uma das piores crises, não nega as contradições do passado: ‘O jornal conheceu períodos de cegueira e de enclausuramento, quando era um órgão de propaganda. Mas há muitos anos passou a ser um jornal como os outros, com todas as editorias de um jornal de informação. E além disso, somos uma referência para os movimentos sociais. Mas somos um jornal político, como muitos’.

Durante as greves e passeatas para lutar contra os projetos do governo que ameaçam direitos dos trabalhadores, nas passeatas anti-guerra como no ano passado, a capa do l’Humanité, quase sempre com uma manchete-slogan feita sob medida no seu formato tablóide, é exibida pelos manifestantes. A vocação comunista do jornal é confirmada na leitura diária: ele não é propriedade de um só leitor, cada exemplar passa de mão em mão diariamente, lido por cerca de sete leitores. São esses fiéis adeptos do jornal que fazem o sucesso da ‘Fête de l’Huma’, um grande evento político-cultural já tradicional no calendário anual de Paris, destinado a arrecadar fundos para o jornal.

Para comemorar os cem anos, três livros estão sendo publicados: o primeiro chamado ‘Um siècle d’Humanité: 1904-2004’, sob a direção do ex-diretor de redação Roland Leroy. Esse livro pretende ser uma outra maneira de reler o século XX através de artigos de grandes intelectuais e políticos publicados no jornal. Entre os nomes que assinam artigos, Anatole France, Leon Tolstoi, Máximo Gorki, Romain Rolland, Leon Trotski, Paul Eluard, Jean-Louis Barrault, Pablo Picasso, Louis Aragon, Jorge Amado e André Wurmser. Outro livro, ‘l’Humanité: 1904-2004’, escrito pelo romancista e historiador Bernard Chambaz, tem uma diagramação comparável à dos grandes livros de arte. Com um texto primoroso, ele conta o século por meio dos títulos e das principais capas do jornal. Para escrevê-lo, Chambaz mergulhou na intimidade de 36.500 números do jornal. O terceiro reúne uma série de artigos de cem grandes intelectuais franceses, como Jean Genet e Roland Barthes, que escreveram artigos para o jornal sob o tema ‘Lire le pays’.

Além desses livros que celebram o centenário de l’Huma, o próprio jornal publicou um número especial do centenário de 196 páginas contando ano a ano os fatos mais importantes do século através de suas reportagens. Com uma tiragem de 250 mil exemplares a 10 euros, o número especial de aniversário foi vendido nas ruas e praças de Paris por novos e antigos militantes, muitos deles intelectuais conhecidos como Elisabeth Roudinesco, na manhã de domingo, dia 18 de abril. Em dois dias, foram vendidos mais de 70 mil exemplares.

No mesmo dia, um grande banquete para 5 mil pessoas, na tradição dos grandes banquetes republicanos do século passado, reuniu na Grande Halle de la Villette autoridades como o prefeito de Paris Bertrand Delanoë, o ex-ministro da Cultura Jack Lang, o atual ministro da cultura e da comunicação Renaud Donnedieu de Vabres — interrompido várias vezes por vaias do público quando lia seu discurso de saudação ao jornal — além de personalidades como a representante da Autoridade Palestina em Paris, Leila Shahid, artistas e intelectuais que se misturavam aos milhares de militantes e simpatizantes comunistas.

No menu, a boa e tradicional cozinha francesa, bons vinhos e um espetáculo de música e variedades pontilhado de mensagens lidas pelo mestre de cerimônia da festa. Entre elas, a do presidente Jacques Chirac e dos cantores Charles Aznavour e Jean Ferrat.

Leia a seguir a entrevista com os jornalistas Charles Silvestre e Lucien Degoy. Silvestre começou a trabalhar no jornal l’Humanité em 1966 e Degoy, em 1989.

Quantos jornalistas trabalham no jornal? Ser comunista é condição sine qua non para trabalhar no l’Humanité?

Lucien Degoy: Somos cerca de 75 na redação. É recomendável ser comunista de opinião, ou de sensibilidade comunista, com variantes à esquerda, mas não necessariamente membros do Partido Comunista Francês. Mas esse tipo de recrutamento, que durante muito tempo foi exclusivo, não é contra-indicado!

Quais os laços que unem atualmente o jornal l’Humanité e o Partido Comunista Francês do qual ele foi o ‘órgão oficial’?

Charles Silvestre: L’Huma não é mais o órgão central do PCF desde janeiro de 1994 (novos estatutos do PCF) mas se torna então ‘jornal do PCF’. Em março de 1999, esta indicação desaparece da primeira página, bem como a foice e o martelo. A designação do diretor do jornal depende, desde então, de um diretório e não mais do comitê nacional do PCF. Mas o Partido Comunista Francês continua sendo o acionário de referência ou ‘determinante’. O capital do jornal foi aberto em 2000 a quatro sociedades: a Sociedade dos Leitores (presidente Henri Malberg, do PCF); a Sociedade dos Empregados (presidida por Françoise Germain-Robin, jornalista da editoria Internacional); a Sociedade dos Amigos de l’Humanité (presidida pela escritora Edmonde Charles-Roux); a Sociedade Humanité Investissement Pluralisme (presidida por Alfred Gerson, associado à administração do jornal) com a participação financeira de grupos privados, principalmente Lagardère e Bouygues, que, no entanto, não têm juridicamente nenhum poder de decisão.

Qual a importância do jornal l’Humanité na história da imprensa francesa?

Charles Silvestre: Apesar da queda histórica da tiragem, o papel de l’Humanité na história da imprensa é importante. É o jornal fundado por Jaurès, o grande tribuno socialista, grande homem da imprensa. É um dos três jornais centenários (com Le Figaro e La Croix). Foi o primeiro jornal de partido no sentido moderno do termo, primeiramente socialista, depois comunista, após o Congresso de Tours em dezembro de 1920. Outros jornais de partido existiam em 1945, oriundos da Resistência, aos quais o Conselho Nacional (CNR) consagrou, com o renascimento da imprensa, um capítulo inteiro de seu programa da primavera de 1944. Enfim, mesmo enfraquecido, é o único jornal exceto La Croix, ligado à igreja, que não é controlado por grupos econômicos privados.

A grande crise dos jornais diários já foi superada?

Lucien Degoy: Não, ao contrário, os fatores de crise da imprensa escrita se agravaram, ligados à crise de credibilidade todas as instituições, da política, mas também a condições econômicas ameaçadoras (aumento das tarifas postais, da distribuição, do preço do papel etc). O Estado não enfrenta suas responsabilidades dadas pela Constituição em matéria de liberdade de informação.

Em que sentido a queda do muro de Berlim pode ser responsável pela crise do jornal que perdeu uma grande parte de seus leitores nos anos 90?

Charles Silvestre: A onda de choque do desmoronamento dos países socialistas continua a ser sentida, como se o ‘comunismo’ fosse apenas fracasso e drama. Mas a crise ideológica não se limita a esses dados externos. Pensamos que o rompimento dos laços de solidariedade e de luta com as classes populares, preço pago por uma demora na condenação do stalinismo, também fez muitos estragos.

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