Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > JORNAL NACIONAL

Liberdade para desinformar?

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 17/11/2009 na edição 564

Em 10/11/2009, o Jornal Nacional novamente produziu uma excelente peça de jornalismo desinformativo. Primeiro, os pupilos de Ali Kamel se desmancharam em elogios a Israel ao fazer a cobertura da visita de Shimon Peres. Depois disseram que Tel Aviv se preocupa com a aproximação entre Lula e Mahmoud Ahmadinedjahd, que estaria querendo produzir bombas atômicas.

Este é mais um caso em que aquilo que o JN não disse é mais relevante do que disse.

No Brasil, a política externa é formulada pelo Itamaraty. Portanto, não é Lula que está se aproximando de Ahmadinedjahd, mas é o Estado brasileiro que está se preparando para travar relações bilaterais com o Estado iraniano. Relações estas que não serão políticas, mas comerciais.

Quem fomentou a corrida nuclear no Oriente Médio não foi o Irã, mas Israel. Ao construir centenas de bombas atômicas e se recusar a assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o regime de Tel Aviv se transformou numa ameaça regional. Não bastasse isto, desde a Guerra do Sinai Israel adota a doutrina dos ataques militares preventivos. Portanto, seus vizinhos têm razões para desconfiar das supostas intenções pacíficas dos israelenses.

Quem formula a política externa é o Itamaraty

A doutrina dos ataques militares preventivos de Israel é ilegal. A legislação internacional em vigor somente possibilita ações bélicas em dois casos: legítima defesa contra um ataque externo; e operações militares autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Nada, nem mesmo o Holocausto, ocorrido há 50 anos, é capaz de legitimar a doutrina militar israelense que provoca a instabilidade no Oriente Médio.

O jornalismo tem, ou deveria ter, um compromisso ético com a não distorção dos fatos. Omitir informações relevantes com o intuito de colocar opinião pública contra uma política estatal lícita conduzida pelo órgão competente é antiético. Isto é mais grave quando envolve um jornal televisado.

A Rede Globo opera uma banda de transmissão concedida pelo poder público. Suas obrigações éticas são, ou deveriam ser, maiores do que as das empresas privadas que podem livremente explorar as notícias em benefício próprio, de seus anunciantes, amigos e padrinhos.

No Brasil, quem formula a política externa é o Itamaraty. Portanto, nem a Rede Globo, nem Tel Aviv, nem o Departamento de Estado americano têm direito de sabotar a aproximação entre Brasil e Irã. Caso não perceba o mal que está produzindo ao país e aos telespectadores brasileiros, o JN vai acabar obrigando o Brasil a adotar o mesmo tipo de legislação restritiva que foi aprovada na Argentina. Quem pretende desfrutar de uma ampla liberdade de imprensa não pode praticar jornalismo desinformativo.

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Advogado, Osasco, SP

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