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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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ENTRE ASPAS > MÚSICA & INTERNET

Lobby das gravadoras balança

Por Ramon Moreno em 27/05/2008 na edição 487

Antigamente, até o ano 2000, funcionava assim: as gravadoras gravavam quem elas queriam e achavam que faria sucesso. Então, faziam a divulgação em rádios e TVs.

Na maioria das vezes, fechava-se um pacote. Por exemplo, fechou pacote com a Globo, fechou com TV e seus variados programas com variados públicos; fechou também com rádios AM e FM e seus variados públicos, mais jornais, revistas e sites em território nacional. Não é pouca coisa. E não é barato. É caro. Muito caro.

Mas depois dos computadores, da grande rede e da pirataria (graças a Deus), o jogo mudou um pouco.

O ministro das Comunicações continua privilegiando e sendo indicado pelos conglomerados de comunicação e suas rádios e TVs (meios diferentes, mesmos donos) e deputados e senadores são donos das afiliadas das grandes redes em seus estados.

Tentativas tímidas

Mas as gravadoras sofreram mais.

Com a pirataria, perderam dinheiro e com a internet perderam muito de sua influência e credibilidade no meio musical. Se antes, ter um contrato era um sonho quase incansável por qualquer músico que se prezasse, hoje o mesmo é quase um pesadelo indesejável pois pode ser uma geladeira de anos para a maioria deles.

E nisso, o mercado independente cresceu como nunca e tem hoje seu maior boom. Qualquer um hoje pode botar a boca e mostrar sua arte, o que é muito democrático e bom.

Incrivelmente, não se vê a mesma ‘independência’ nas rádios e TV’s. O lobby das gravadoras com os meios de comunicação e seus donos ainda é fortíssimo e quase – quase? – não se vê artistas independentes nas grandes redes de comunicação. Na TV, nos programas mais assistidos, só se vêem os mesmos poucos e privilegiados artistas de gravadoras que ainda têm ali o seu espaço intocado.

As tentativas ainda são muito tímidas. Existe um quadro chamado ‘Pistolão’, no Domingão do Faustão, mas ainda tem que ser amigo de alguém muito famoso para poder fazer.

‘Negócios’ ilegais

Partindo deste princípio, penso que as gravadoras não devem estar assim tão falidas.

Como pode a internet mostrar tantos artistas, bons artistas e ótimas músicas e somente os artistas de gravadoras terem espaço na TV e no rádio?

Claro que a concentração de mídia na mão de poucos donos, a chamada propriedade cruzada (na qual não se pode ser dono de mais de um veículo de mídia, jornal, TV ou rádio, como normalmente acontece aqui) influi totalmente na disparidade do espaço dado aos artistas contratados pelas grandes empresas que têm poder, dinheiro e influência política e os outros que estão sozinhos e têm tão somente a boa música.

Com essa influência toda, não é de se espantar que nossos políticos não votem e não discutam sobre isso. Para que discutir, quando você também é dono de canais de rádios e TV’s e retransmite o sinal das grandes empresas de comunicação que recebem para manter estes artistas lá? É incoerente para os negócios, não é verdade?

Ah, mas alguém pode dizer que ‘os negócios’ são ilegais e que os deputados não podem, ou não poderiam, ser donos de canais de rádios e TV’s. Sim, isso é verdade. Eles não poderiam. Mas são. Até o ministro das Comunicações tem a sua rádio (ver aqui).

A política é outra

Dizem que com a rádio digital o número de canais no rádio vai aumentar. Na TV, ainda nada. Mas se isso acontecer provavelmente vai aumentar e melhorar muito o mercado independente de música, que sobrevive graças à internet. Poderá, inclusive, sair do meio internet e entrar no meio rádio, muito mais popular e ainda muito mais democrático, e ganhar as ruas e tocar país afora.

Hoje só se ganha dinheiro fazendo shows, mas fazer shows ainda é muito difícil. Dificilmente alguém contrata um show de quem não toca na rádio. Se você não toca na rádio, você não existe, não é conhecido; e se você não é conhecido, por que trazê-lo para fazer show? Que empresário contrata para perder dinheiro?

Com a regulamentação de propriedade cruzada e a abertura do espectro de rádios e TV’s a mais empresas e mais diferentes tipos de negócios, podemos ter com isso a abertura a bandas independentes. O mercado independente vai de vez conseguir se auto-gerir sem somente auto-sobreviver e depender de festivais que não pagam cachê – mas recebem dinheiro através de patrocinadores, que geralmente não é repassado aos artistas. Ou seja, estes não recebem mesmo tocando.

Enquanto isso não acontecer e a regulamentação não for sequer discutida – como se não fosse necessária ao país –, teremos 20 artistas muito famosos fazendo muitos shows e tocando na rádio e ganhando dinheiro com mega-shows lotados em estádios de futebol e publicidade enquanto todo o resto – sabe-se lá o número de artistas independentes e populares – vai continuar na vontade de querer estar fazendo shows e vivendo de música. Sem poder se dedicar àquilo e mesmo sem gerar empregos, já que num espetáculo musical geram-se muitos empregos.

Mas nossa política, infelizmente, é outra.

Se não mudarem as regras…

Desestimulamos a criatividade do nosso povo e vetamos que o próprio povo possa decidir sobre o que quer ouvir, deixando isso por anos na mão de executivos de gravadoras, que sempre pensaram primeiro no lucro das empresas em que trabalhavam ou das quais eram donos. E isso continua assim nas TV’s e rádios.

Será que isso um dia muda?

Talvez no dia em que regulamentem a propriedade cruzada. Ou talvez no dia que a internet cobrir 95% do território nacional, assim como a televisão.

É, esse dia deve vir mais rápido.

Isso se não mudarem as regras da internet.

******

Músico, Niterói, RJ

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