Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA REGIONAL

O Popular: governo de GO mandou parar investigação sobre Cachoeira

Por Mauro Malin em 30/08/2012 na edição 709

 

 O jornal O Popular, de Goiânia, publicou na quarta-feira [29/8] reportagem que mostra como um delegado da Polícia Civil conseguiu, sem aparato, mapear em três meses a organização do bicheiro Carlos Cachoeira. O delegado Alexandre Lourenço não chegou ao vértice do esquema Cachoeira, mas muito perto dele. Apurou também a participação de policiais no esquema. Isso tudo foi feito antes das investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

O trabalho não teve sequência depois que Lourenço entregou seu relatório à Gerência de Operações de Inteligência. O episódio revela, entre outras coisas, a extensão do que a imprensa (do país todo) ignora; o preço que paga pela subordinação à estratégia de comunicação das autoridades policiais; e que, num contexto organizacional, não há segredo que perdure eternamente: a questão é gastar tempo (dinheiro) e ter competência para desencavá-lo, como fez o jornal goiano.

Abaixo, a reportagem de Alfredo Mergulhão no Popular [29/8/12].

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Operação Monte Carlo– Polícia goiana sabia de esquema 5 meses antes

Em 3 meses de investigação, delegado chegou até braços operacionais de Carlinhos Cachoeira e foi afastado

Cinco meses antes da deflagração da Operação Monte Carlo – que completa um semestre hoje – um trabalho investigativo da Polícia Civil goiana identificou uma rede criminosa de exploração da jogatina. O grupo tinha estrutura organizada e infiltração no poder público, com participação de policiais no esquema.

Essa investigação chegou ao nome de Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e antecipou o que seria revelado tempos depois pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF).

Mas desde que o delegado Alexandre Lourenço, responsável pelo caso, entregou o relatório feito pela Gerência de Operações de Inteligência (GOI), a Polícia Civil não deu continuidade à investigação.

O Popularteve acesso exclusivo ao relatório de Lourenço, cuja existência já havia sido noticiada, assim como o afastamento do delegado, em março pelo jornal. O conteúdo do documento, com mais de 298 páginas, mostra que ele chegou bem perto de Cachoeira.

Em apenas três meses de apuração – sem interceptações telefônicas e com equipe reduzida – o delegado conseguiu elaborar um organograma parcial da quadrilha e descrever o modo de atuação do grupo. Lourenço chegou ao ‘baixo clero’, mas deixou claro a necessidade de ‘buscar o topo da pirâmide’ da organização criminosa.

Mesmo com a brevidade da investigação, o delegado identificou a participação do representante operacional de Cachoeira em Goiânia, Arnaldo Rúbio Júnior, denunciado na Monte Carlo.

E também descobriu a participação de um membro da cúpula do grupo, Raimundo Washington de Souza Queiroga, preso na Operação Monte Carlo e que, após o relaxamento da prisão, voltou atrás das grades na semana passada na Operação Jackpot.

No documento, o delegado afirma a existência da prática sistemática dos crimes de corrupção ativa e passiva entre membros da quadrilha e policiais. No fim do relatório, Lourenço escreve que a livre movimentação do grupo na sociedade deve-se ‘aos desvios de conduta de agentes públicos e políticos pouco afeitos à lisura na condução de seus cargos e funções’. Nenhum político é citado nominalmente.

Na página 22 do relatório, Lourenço afirma que um dos membros da quadrilha tinha acesso às unidades policiais. O delegado destacou que essa pessoa propunha a agentes e escrivães da Polícia Civil um pagamento mensal em troca de vistas grossas para as atividades da contravenção.

E o aliciador não escondia de ninguém que estava a serviço de Carlinhos Cachoeira. ‘A corrupção de agentes públicos no contexto da execução da atividade criminosa é uma forte realidade a ser enfrentada’, escreveu.

Durante as investigações, foram apreendidas 306 máquinas caça-níqueis e fechadas 30 casas de jogos ilegais. A partir dos depoimentos dos envolvidos, percebeu-se que Arnaldo Rúbio e Raimundo Queiroga não eram os verdadeiros chefes do esquema. Esses nomes eram mantidos em segredo.

‘Uma aura de ameaça paira dentre todos os envolvidos que transparecem um extremo temor em tratar de quem quer que seja o controlador’, diz Lourenço no relatório. O delegado também menciona um ‘sem número de ameaças e delitos’ para viabilizar o trânsito da organização pela sociedade.

Máfia

Em 90 dias de trabalho, já se vislumbrava uma organização com características mafiosas. O documento revela que a quadrilha tinha estrutura distribuída em funções claras e determinadas, atuação de modo organizado, separação de tarefas de modo estratificado.

Embora não se trate de um inquérito policial, o delegado pediu uma série de providências para desmantelar a organização criminosa. Lourenço sugeriu a prisão temporária de 25 pessoas, buscas e apreensões nas casas de jogos e nas residências e empresas dos envolvidos, além de quebras de sigilos telefônicos e bancários. Nada disso foi feito pela polícia civil.

Procurado pela reportagem, Lourenço disse que não fica à vontade para falar do documento, feito ‘na condição de sigilo’. Por isso, disse que não vai se expor. Ele explicou que já foi convocado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira no Congresso Nacional, onde terá de abordar o assunto. ‘Você pode notar que caminhamos bem e, provavelmente, teríamos chegado onde a Polícia Federal chegou se tivéssemos feito as diligências solicitadas no final do relatório’, observou.

Transferência

Lourenço foi transferido para a Delegacia de Homicídios após a entrega do documento, em setembro de 2011. Em março, ele disse ao POPULAR que foi afastado do caso.

Nas gravações da Operação Monte Carlo, Cachoeira pede informações ao então corregedor da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, delegado Aredes Correia Pires, sobre a portaria que designava Alexandre Lourenço para investigar a jogatina. Cachoeira queria saber quem era Alexandre, e o corregedor disse: É ‘o maior pé no saco do Brasil’, ‘o cara mais chato que existe’ e ‘um rio de xarope é pouco perto dele’.”

 

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