Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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FEITOS & DESFEITAS > PRESIDENTE-PROPAGANDA

Lula e Casas Bahia, era essa a notícia

Por Rolf Kuntz em 02/05/2006 na edição 336

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva converteu-se na semana passada em garoto-propaganda. Foi à inauguração de um depósito das Casas Bahia, em São Bernardo do Campo (SP). Discursou de improviso, como de costume, e identificou sua opção de governo com a estratégia comercial de uma lucrativa rede varejista.

‘A minha concepção de tratamento deste país’, disse Lula ao empresário Samuel Klein, ‘é a concepção que o senhor teve de estabelecer a sua parceria com a parcela pobre da população.’

‘Estou convencido’, disse também, ‘de que vai acontecer neste país o mesmo que aconteceu nas Casas Bahia.’

A declaração foi pública. Quem poderá reclamar se Klein usar a declaração de Lula nas campanhas de sua rede? Seus concorrentes?

A maior parte da imprensa deu pouca importância à atuação do presidente como garoto-propaganda. Ou menosprezou o detalhe ou contou a história sem destaque, como se fosse normal e rotineira. Mas não é.

Não é habitual um presidente da República aparecer na inauguração de um depósito – ou de um centro de distribuição. A construção do depósito pode ser importante para as Casas Bahia, mas não acrescenta uma novidade à economia brasileira. Poderia justificar uma nota, nas seções de negócios.

Concepção privada, política pública

Também não é habitual um presidente da República endossar as opções mercadológicas e financeiras de uma empresa privada, conferindo-lhes o selo de aprovação da chefia do governo e do Estado. ‘Quanto mais tempo a gente der de prestação e quanto mais barata a prestação, mais as pessoas vão poder comprar, porque no meio da parte mais pobre da população, eles não têm a preocupação se [sic] vai custar cinco ou seis vezes mais.’

Nenhum pauteiro parece ter tido a idéia de mandar um repórter ligar para o Procon ou para o Idec, para ouvir algum especialista em defesa do consumidor. Será que o comentário do presidente não valia esse cuidado?

O Estado de S. Paulo deu em manchete os elogios de Lula às Casas Bahia. O assunto apareceu também no alto da 10ª página, mas explorado com boas maneiras. Folha de S.Paulo e O Globo mencionaram os comentários do presidente sobre a estratégia comercial da rede, mas sem destaque especial e sem evidenciar sua anomalia.

Presidente sai no lucro

No balanço geral, a cobertura de todos os jornais, sem exceção, foi lucrativa para o candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Na maior parte dos meios de comunicação, a propaganda comercial e moral das Casas Bahia foi tratada como fato normalíssimo. Ganharam importância os ataques à oposição e os auto-elogios – uns e outros, sim, fatos perfeitamente rotineiros, ainda mais em campanha eleitoral. Pelo menos uma emissora de rádio gastou bom tempo contando a história do Íbis, conhecido como o pior time de futebol do mundo, citado pelo presidente na comparação de seu governo, equiparado ao Corinthians, com o de Fernando Henrique Cardoso.

Mais uma vez Lula mostrou que sabe usar a imprensa. Sabe que pode fazer e dizer qualquer coisa, porque os jornais não negarão espaço nem destaque a seus discursos e atos de campanha, embora nada os obrigue – moral, política ou tecnicamente – a entrar nessa armadilha. Esses mesmos jornais, com o pretexto de que não se briga com a notícia, prestarão sempre um bom serviço a políticos espertos. Isso ocorreu, por exemplo, com Jânio Quadros, que ora cortava, ora deixava crescer a barba para ganhar espaço nos jornais. E sempre conseguia.

No entanto, notícia não é, necessariamente, o que ocorre segundo a agenda oficial e rotineira. Nesse episódio, a melhor notícia, o homem mordendo o cachorro, foi a atuação de Lula em relação às Casas Bahia. Para começar, como explicar a presença de um presidente da República naquela inauguração?

Uma boa história poderia começar por aí.

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/06/2009 JOÃO JESUS DE SALLES PUPO

    MEU CARO DIMES,

    SOMOS DA MESMA IDADE E DE INEGÁVEL EXPERIÊNCIA NO CURSO DE VIDAS BASTANTE INTENSAS – E VARIADAS.
    SEI O QUANTO PREZAMOS O PRINCÍPIO ÉTICO DA EQUIDADE E O JOGO LIMPO DO RESPEITO À PRERROGATIVA DA LIVRE MANIFESTAÇÃO, QUE NECESSARIAMENTE IMPLICA ACESSO AO MEIO DE DIVULGAÇÃO, LI, ATENTAMENTE TUA ANÁLISE DA DECISÃO DO STF NA QUSTÃO DA OBRIGATORIEDADE DO DIPLOMA PARA O EXERCÍCIO DAS PROFISSÕES E REIVEINDICO O DIREITO DE EXPOR MINHA OPINIÃO. QUEIRA INFORMAR COMO ANEXAR UM PEQUENO TEXTO DE 3 LAUDAS OU DEIXE-ME FRUSTRADO COM O IMPEDIMENTO DE FAZÊ-LO, GRATO. SAUDAÇÕES, JOÃO PUPO

  2. Comentou em 04/10/2007 Francine Sayuri Shimizu Shimizu

    Olá! Gostaria de saber se vocês pegam estagiário para o site e para onde devo enviar o currículo.
    Estou no último ano de faculdade, Jornalismo – PUC-SP, e trabalho em um site atualmente.
    Também gostaria de saber se pegam formandos para estagiare.
    Obrigada pela atenção! Parabéns pelo trabalho!
    Francine

  3. Comentou em 09/05/2006 Eduardo Magno Silveira

    O Engraçado, se assim posso dizer, é que a grande maioria tinha medo de votar no Lula e o mesmo precisou disputar acho que três eleições, e agora nós vamos que esperar mais algumas eleições para essa grande maioria perder o medo de votar em outro.

  4. Comentou em 04/05/2006 Paulo Batista

    Acho que infelizmente o que ocorre é a ‘banalizaçao’ das besteiras ditas pelo nosso presidente. A imprensa está tao acostumada com a insensatez de Lula que nem dá mais tanta importancia. Ou entao pode ser que os jornalistas, acostumados a escrever sobre assuntos sérios, ficam até sem reaçao dada a obviedade dos absurdos ditos por Lula. Enquanto isso, com a aproximacao das eleicoes, ele volta a brincar de socialista, voltando a agradar aqueles que o elegeram 4 anos atras e crescendo nas pesquisas.

  5. Comentou em 04/05/2006 Marcio Gama

    O Lula tá exagerando na dose. Depois a imprensa de esquerda defende, mas os princípios da democracia não são respeitados no Brasil. Fica no discurso da luta entre elite e povo, etc.
    Nós temos uma classe política desprezível.

  6. Comentou em 04/05/2006 José Reis

    Lula, Fernando Henrique, Alckmin, ACM, etc. são todos políticos e, principalmente em ano de eleição, fizeram, fazem e farão o que for possível para ‘aparecer’… até comer buchada de bode vale. Visitar as Casas Bahia, a Petrobras, a Daslu, o Memorial do Corinthians, uma montadora, ou um grande banco comercial e privado, na essência, é a mesma coisa. Ou será que Daslu é chique… e Casas Bahia é brega? Para mim isso é preconceito, coisa que, pelo que me consta, em relação ao ‘povão’, o Lula não tem. Nota: Já viabilizei algumas pequenas aquisições via parcelamento de curto/médio prazo, inclusive nas Casas Bahia, e considerei bons negócios. Para quem não tem muitos recursos é assim que funciona.

  7. Comentou em 03/05/2006 Alexandre Souza

    O Sr. Kuntz está agindo como o típico ‘repórter oportunista’. Aliás a maioria na categoria dos jornalistas, nos dias de hoje, está agindo assim, infelizmente. O tipo de jornalista que fica ‘farejando’ cada passo do Presidente para pegar um ‘deslize’, uma ‘gafe’, um ‘erro’ e apresentá-lo como informação pública.
    A ‘indignação’ do Sr. Kuntz é mais pessoal do que jornalística. O texto ficou carente de uma análise mais abrangente daquela visita do Presidente. E as outras visitas que o Presidente fez a outras entidades privadas? Também foram propaganda? Qual critério de escolha deve usar a Presidência da República para fazer a visita uma entidade privada que está investindo no país? O que deve falar o Presidente numa inauguração privada deve haver ou não com o que representa o evento?
    Um bom texto de crítica poderia começar por aí.

  8. Comentou em 03/05/2006 João Rezende

    Presidente, Candidato-presidente, quando fala com o povo é ‘popúlista’, se constroi algo em benefício do pova é ‘assistencialista’, e por aí em fora. A verdade esta na origem, não pertencer ao andar ou andares de cima que deteém a oligarquia-midiática.

  9. Comentou em 02/05/2006 Francisco Batista

    Continuamos como sempre estivemos, nosso jornalismo cada vez mais envolvido com os donos do poder, jamais daria espaço na grande mídia para críticas a dois grandes anunciantes, como casas Bahia e o governo federal.

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