Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA DA COPA

Mais do mesmo? Que bom!

Por Marinilda Carvalho em 31/05/2006 na edição 383

A Copa do Mundo está de volta. Um colírio para torcedores veteranos, estressados com os ‘grandes lances’ do Brasileirão, tipo Marcelinho Carioca no Corinthians, Ney Franco no Flamengo… que tortura! Ver craques reunidos para jogar bola é um prazer indescritível, que supera até a mesmice na cobertura da seleção brasileira pelos jornais, dolorosamente chata, tudo já visto nas telas. Na verdade, pouco lhes sobra para contar. TV e internet mostram tudo, analisam tudo, comentam tudo o dia inteiro, provando que futebol, definitivamente, é hoje um espetáculo eletrônico. Os cadernos da Copa estréiam neste domingo: vamos ver se os colunistas outsiders convocados agregam algo além do patético besteirol que tem ocupado as páginas.


Dificilmente: o show-circo vai se dar mesmo é na TV. A Globo exibirá todas as partidas do Mundial, o que é ótimo para o público que gosta da emissora e daquela barulheira toda que marca as transmissões dos jogos da seleção. Para ouvidos mais sensíveis – e mais abonados, claro – a saída é a TV paga. O assinante da Net pode, pela primeira vez, comparar os eternos rivais ESPN Brasil e Sportv, já que nas copas anteriores o padrão Globo de exclusão impedia que a Net, empresa teoricamente independente, exibisse os canais da concorrente. Agora, essa espécie provinciana de ganância foi derrubada: já está na grade da Net a ESPN Brasil (como também o pacote HBO).


Então, quem está fazendo a melhor cobertura pré-Copa? Há vários critérios a considerar: imagem e recursos técnicos em geral, amplitude do noticiário, qualidade dos comentários. O fator determinante, porém, é extrajornalístico: peso econômico. A Globo e seu sistema compraram a exclusividade de diversos eventos, inclusive de jogos amistosos da seleção. Resultado: a ESPN Brasil não pôde transmitir sequer um reles jogo-treino do Brasil contra um ridículo combinado de Lucerna na Basiléia, Suíça. Por acordo que alguns descrevem como ‘secreto’ entre Globo, CBF e Thermoplan, fabricante suíço de cafeteiras que financiou a estada brasileira em Weggis (como se os ‘acordos’ CBF-Globo fossem alguma vez transparentes), esse jogo-treino foi classificado de ‘amistoso’: o time usa uniforme de jogo, as estatísticas da partida contam como oficiais. E Galvão Bueno transmite ao vivo.


Poluição insuportável


Ou seja, as demais seleções encaram times (República Tcheca x Costa Rica, Inglaterra x Hungria, França x Dinamarca, Alemanha x Japão foram alguns amistosos da semana), e o Brasil ‘terça’ sua força diante de Lucerna – com exclusividade da Globo. A CBF se apressou a mostrar em seu site que este foi o 14º ‘amistoso’ de seleções brasileiras contra combinados. OK, tudo bem. Mas a Globo tentou impedir a ESPN Brasil de transmitir até os treinos-treinos dos brasileiros na Thermoplan Arena, onde a seleção se prepara. No início da cobertura, se havia sol a equipe da ESPNb ficava ao ar livre, às vezes na arquibancada. Com chuva, corria para um prédio próximo. A equipe do Sportv tem lugar cativo em área VIP.


Tem também sinal de satélite disponível a toda hora e por longo tempo, ao contrário da ESPNb, que visivelmente economiza nesse ‘luxo’ indispensável. Então, tecnicamente fica difícil comparar. O elenco global reúne 187 profissionais e todos os recursos possíveis. Nos treinos-treinos, a imagem do Sportv, que dedicará três canais aos jogos da Copa – fora a Globo na freqüência aberta –, é perfeita; é ruim a da ESPNb, que conseguiu formar parceria com a ESPN Internacional (americana) e contará com dois canais, muito menos gente, recursos limitados. Ocorre que os deuses às vezes decidem ser generosos. A despeito de todo o poderio global, foi um cinegrafista da ESPN Brasil que enquadrou com perfeição momento mágico do malabarista Ronaldinho Gaúcho ao receber uma bola de surpresa.


Tecnicamente, o som do canal pago da Globo também vence: não há falhas, ao contrário do que ocorre na concorrente. A voz dos comentaristas da ESPNb some a toda hora, sabe-se lá por quê. Profissionalmente, contudo, o Sportv perde. Vem adotando cada vez mais o padrão Globo de ruído. O telespectador amante do sossego é obrigado a ver os treinos de controle remoto em punho, já que é insuportável o número de vezes em que Luiz Carlos Jr. interrompe sua narração dos treinos, por sinal bem formal, para, elevando o tom da voz, informar que ‘você está acompanhando a preparação da seleção brasileira para a Copa do Mundo aqui no Sportv, o canal campeão, a maior cobertura do Mundial, com três canais…’. Insuportável, poluição sonora tão freqüente quanto desnecessária. Felizmente, diga-se, ainda não atingiu os decibéis de Galvão Bueno.


‘Uma dádiva’


Ao lado dele, o comentarista Alex Escobar é bom, mas traz do rádio o hábito das frases muito curtas – fica-se querendo mais dele. Paulo César Vasconcelos também é bom, mas, ao contrário, dele fica-se querendo menos: formado em jornal impresso, fala como escreve, e suas frases intermináveis são freqüentemente interrompidas pelos companheiros. Um deles já descreveu seu estilo como ‘sentencioso’… Estão ótimos Telmo Zanini e Armando Nogueira, um pela irreverência acompanhada de informações relevantes, outro pelos causos do passado, que conta como ninguém. Parte sempre dessa dupla alguma rara contestação, na equipe global, ao que porventura haja de errado na seleção, na CBF, no futebol em geral, como o escândalo das apostas na primeira divisão do calcio italiano, tema há muito destacado na ESPNb.


Na ESPN Brasil, a narração dos treinos é informal. João Palomino não perde tempo em nominar jogadores, por demais conhecidos do ‘fã de esportes’ – no Sportv, o tratamento é ‘assinante’ mesmo… Seus companheiros comentaristas, o do-contra José Trajano, que diz tudo o que a CBF espera que não seja dito, e o ‘estrategista’ Paulo Vinicius Coelho, que sabe tudo de tática e estatística, preferem analisar esquemas táticos e debater qualidades e fraquezas do Brasil. O que, convenhamos, é bem proveitoso para o telespectador. Lances logo detectados na ESPNb são observados e comentados dias depois no concorrente.


Nas matérias de campo, os dois Andrés da ESPNb, Plihal e Kfouri, são bem melhores do que os repórteres do Sportv. Assim, a ver com se saem os canais pagos na transmissão dos jogos do Brasil na Copa. De qualquer modo, poder ver o Mundial fora da Globo já é muita sorte – ‘uma dádiva’, como escreveu um fã de esportes no mural da ESPNb. Talvez a solução seja botar dois aparelhos de TV lado a lado e aproveitar as qualidades de ambos.


Nota


Na manhã de 31/5 (tarde em Weggis), a ESPB Brasil furou o concorrente anunciando ao vivo o corte do volante Edmilson, porque cobria entrevista do médico José Luís Runco. O Sportv transmitia o treino da seleção, e em seguida passou a exibir a entrevista. Posteriormente, mostrou imagens das divididas entre Adriano e Edmilson – que nada tinham a ver com a lesão do volante: ele sentia dores do joelho desde o Barcelona.

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