Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Mais um caso de omissão da mídia

Por Venício A. de Lima em 25/11/2008 na edição 513

Escorada nos mitos da sua missão de fiscalizadora do poder, da imparcialidade das notícias e no princípio da liberdade de imprensa, muitas vezes a mídia acaba por praticar um jornalismo nos limites de sua responsabilidade social, sobretudo dentro do que já se chamou de uma ‘cultura adversária’ aos poderes da República. A observação crítica da mídia, todavia, nem sempre tem conseguido mostrar a outra face da moeda, isto é, as muitas situações em que a mídia, por interesse e/ou omissão, deixa de cumprir o papel que atribui a si mesma.


Uma dessas situações ocorreu com a assinatura do ‘Acordo entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil’, no último dia 13 de novembro, objeto de vários artigos neste Observatório. Outra, mais recente, está ainda sendo vivida pelos moradores do Distrito Federal e envolve, pelo menos, os principais jornais e TVs locais. Trata-se da reinauguração de estádio na cidade satélite do Gama, na quarta-feira (19/11), com a realização do jogo entre as seleções de futebol do Brasil e de Portugal.


A festa


O governo do Distrito Federal reformou o Estádio Valmir Campelo de Bezerra, conhecido como Bezerrão, homenagem ao ex-administrador do Gama (1974-1981) – ex-deputado federal e ex-senador pelo antigo PFL e hoje ministro do TCU – em cuja gestão o estádio foi inaugurado, em 1977. O Bezerrão se tornou ‘o primeiro estádio do país nos padrões mundiais da FIFA‘ para sediar partidas da Copa do Mundo e o custo total da reforma foi de 50 milhões de reais para os cofres públicos.


A reinauguração foi cercada de enorme campanha publicitária tendo o ex-jogador Romário como ‘garoto propaganda’. Reclames de página inteira nos jornais anunciaram antes do jogo inaugural que ‘A Copa do Mundo é em 2014. Mas aqui ela já começou. E com gol de placa’. Após o jogo, o mote passou a ser: ‘Vitória do Brasil e vitória de Brasília no Bezerrão. O jogo e a festa foram sucesso. Mas o melhor de tudo é o Bezerrão, uma obra para o povo de Brasília usar todo o dia’.


Não se divulgou o custo da campanha publicitária.


Para prestigiar a ‘festa’, boa parte da elite política do país esteve presente ao jogo ao lado de celebridades como Pelé, Felipe Massa e Romário. Estavam lá o presidente e ministros do STF, o procurador geral da República, o governador e o prefeito de São Paulo, senadores, deputados, presidentes de partidos políticos e outros figurões da República.


A cobertura jornalística do evento foi enorme. Clima de festa, manchetes de capa durante toda a semana; cadernos especiais e, claro, ‘quem ganhou com tudo isso foi a torcida brasiliense’.


Dois dias depois do jogo, novamente manchete de capa para o projeto de reforma do estádio Mané Garrincha no centro de Brasília, estrategicamente anunciada após ‘a apoteose’ da reinauguração do Bezerrão. Um investimento de 400 milhões de reais para habilitar o estádio a receber uma partida da Copa de 2014.


O grande ausente


Pouco ou quase nada se disse, no entanto, sobre o grande ausente de toda a festa, justamente aquele em nome de quem tudo isso é feito – e anunciado: o ‘povo’.


A capacidade do estádio é de 20 mil lugares. Pelo que pode ser filtrado das informações divulgadas, pelo menos 6 mil ingressos foram distribuidos pelo GDF para seus ‘convidados’. Dezessete mil moradores do Gama – população de 150 mil habitantes – se inscreveram para concorrer aos minguados 1.500 ingressos que foram sorteados pela administração regional. Consta que os operários da obra também receberiam ingressos. Os restantes 12 mil ingressos foram colocados à venda. A qual preço?


As arquibancadas norte e sul (fundo do campo) custaram 180 e 90 reais (inteira/meia). As cadeiras 200 e 100 reais. E as arquibancadas leste e coberta (laterais do campo) 250 e 125 reais. Os ingressos deveriam ser pagos com ‘dinheiro em espécie’ e a compra pela internet era acrescida de uma ‘taxa de conveniência’ no valor de 20%, ou seja, o ingresso mais barato passaria a ser uma ‘meia’ de 108 reais.


Qual camada da população – do Gama ou das outras regiões do Distrito Federal – pode comprar ingressos a esse preço?


Ausências relevantes


Não caberia à mídia questionar que a ‘festa popular’ – independente da capacidade de lotação do estádio – estava proibida para a grande maioria da população que, mesmo com os altos índices de renda per capita do Distrito Federal, não poderia destinar valores equivalentes a um quarto de salário mínimo para comprar um único ingresso (dos mais baratos)?


Não caberia à mídia questionar também – como já fez corretamente em relação à publicidade oficial do governo federal – que uma obra financiada com recursos públicos se transforme em instrumento de marketing político de um governo?


Os contribuintes torcedores – no Gama e no Distrito Federal – tiveram que se contentar em ver o jogo pela TV, depois das 22 horas, horário de conveniência da televisão, mas, evidentemente, inconveniente para quem trabalha no dia seguinte e depende do transporte coletivo nas primeiras horas da manhã (sobre esse fato – que não se limita à festa do GDF – também a mídia se omite).


Outra curiosidade: o ministro dos Esportes e o presidente da República não compareceram à festa realizada a poucos quilômetros da Esplanada dos Ministérios. A mídia não considerou as ausências relevantes o suficiente para falar sobre elas ou explicá-las.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

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