Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Manifesto em pauta

Por Wilton Garcia em 09/06/2015 na edição 854

Aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT, na cidade de São Paulo, como mais uma demonstração coletiva da diversidade no centro financeiro do país. Foi uma experiência emocionante, porque se faz presente alegria, cor, imagem, movimento e música. Em um dia bastante ensolarado, a Avenida Paulista ficou lotada de pessoas para celebrar seu orgulho. Mais que isso, as pessoas estavam na rua para comemorar o respeito e a dignidade nas relações humanas. Ou seja, a diversidade hoje vale cada vez mais.

É o amor incondicional – pleno, completo, absoluto. Por assim dizer, amar o(a) outro(a) significa amar a vida. Ao contrapor Oscar Wilde, “o amor que ousa dizer seu nome” está livre para manifestar afeto, amizade, desejo, erótica, sensibilidade, vontade etc. Pergunte ao seu amigo(ao), companheiro(a), irmão(ã), parceiro(a), vizinho(a) se, nesse momento, está realmente feliz.

O que seria, então, mais emergente hoje que a noção de felicidade?

A felicidade deve ser considerada como estado de plenitude de Ser/Estar do sujeito, capaz de exprimir a natureza humana, de acordo com as possibilidades inerentes ao cotidiano. Ao longo do dia, assistem-se cenas de violência quando há dificuldades que se assolam com a homofobia.

Essa última tem a ver com discriminação e preconceito que determinadas pessoas sofrem desrespeito, no cotidiano, ao serem perseguidas e violentadas – e, às vezes, até assassinadas neste país – em razão de sua orientação sexual. Basta assumir-se gay, lésbica, bissexual ou transgênero que se corre risco de ser afrontado.

Temas de reivindicações contemporâneas

A Parada LGBT de São Paulo representa o povo na rua a reivindicar seu direito de amar. Isso implica liberdade! Sabe-se que não há revolução sem ação. Assim, vale a pena estar de prontidão nas ruas, praças, avenidas e estradas, pois a sociedade contemporânea precisa ouvir essa voz a favor da diversidade.

No conjunto, uma pluralidade de vozes expressam, estrategicamente, fortes discursos entre alteridade, diferença e diversidade. São variantes a projetar ideias e ideais, uma vez que se trata de política de identidade de gênero e sexualidades alternativas. Nesse caso, basta observar que a Parada LGBT, promove debates entre governo, mídia, educação e sociedade, os quais estratificam os impulsos de políticas públicas.

Notadamente, este evento LGBT torna-se uma referência (um exemplo) para o avanço da democracia atual, como exercício de cidadania, no país. De maneira mais ampla, essa questão da diversidade provoca, ainda mais, a indignação da população ávida por melhorias sociais e econômicas. Além disso, desigualdade social, direitos básicos (como educação, saúde e trabalho), justiça, corrupção, segurança e violência, também, são temas efervescentes de reivindicações contemporâneas que permeiam os anseios desesperados do povo nas ruas.

Do hipermidiático

Para que isso ocorra, de fato, a rede mundial de computadores – a internet no uso da banda larga – alavanca e potencializa o desejo de protestar publicamente. A lógica hipermidiática conquistou adeptos e fez da internet um espaço de denúncia e sistematização de informação, para além de entretenimento e consumo, a ponto de constituir um convite-manifesto.

Agora, a cibercultura possibilita uma experiência diferenciada em que os(as) conectados(as) possam, cada vez mais, produzir conteúdos, opinar sem restrição, expressar desejos e/ou angustias a aderir ao chamamento de novo somatório. As tecnologias emergentes, em seus dispositivos móveis como telefones celulares e tabletes digitais, conduzem ao desafio de propor discursos flutuantes, sem necessariamente validar qualquer tipo de hierarquia ou direção.

Se, de um lado, o usuário-interator ajuda a divulgar informações e passa a se comunicar com o uso recorrente das redes sociais, a partir da cultura digital no Brasil e no mundo, surgem vigorosos tecimentos fragmentados de tons críticos em formatos inusitados de imagens, textos e sons no ciberespaço.

De outro, a cobertura jornalística e de blogueiros (re)traduz artimanhas tendenciosas de manipulação das notícias, inclusive com as fontes que negligenciam o número de participantes. Nesta edição, a polícia miliar afirma que não realizou o cálculo de participantes e a Organização da Parada LGBT afirma que foram 2 milhões de pessoas. Normalmente, quando divulgados, nas edições anteriores são números díspares, que não expressam, de fato, a informação precisa.

Consequentemente, emaranhados de proposições contundentes agrupam “novas/outras” dinâmicas identitárias e/ou políticas, nem tão ideológicas. São proposições que tentam (re)formular pensares capazes de transformar um valor numérico que justifique o pedido de paz pelos manifestantes. Sim, é apenas um pedido simples de paz sobre a diversidade contemporânea.

Da Universidade

Portanto, todo cuidado seria pouco. A situação merece profundo debate e reflexão, pois isto não é brincadeira e pode, sim, ter sérias consequências!

Desse contexto, cabe à Universidade refletir a respeito da diversidade LGBT no país. Com isso, propor um conjunto de debates e reflexões – diante das diferentes áreas do conhecimento – em prol dos valores humanos mais coerentes com a realidade. Seria, assim, um percurso instigante para que a academia não perca o trem da história. Tal situação, no enlace teoria e prática, registra pouca participação dos que se afirmam doutos do conhecimento. O intelectual, em sua pesquisa – preocupado em derrubar paradigmas –, precisa contribuir diretamente para o desenvolvimento humano.

Afinal, o que você tem feito como esforço, de modo efetivo, para a vida em grupo?

***

Wilton Garcia é artista visual, doutor em Comunicação pela ECA/USP e pós-doutor em Multimeios pelo IA/Unicamp, professor da Fatec-Itaquaquecetuba e do Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso; autor de Feito aos poucos_anotações de blog (2013), entre outros.

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