Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DA FOLHA

Manipulação na entrevista de Gay Talese

Por Carlos Eduardo Pestana Magalhães em 02/01/2006 na edição 362

A imprensa brasileira tem uma fixação muito forte com alguns jornalistas americanos e, em especial, para com o jornalão nova-iorquino The New York Times. O Washington Post, a bem da verdade, também causa alguma espécie nas redações tupiniquim.

No dia 26 de dezembro, na ‘Entrevista da Segunda’ (pág. A-16), o jornal Folha de S.Paulo publicou uma entrevista com o jornalista e escritor americano Gay Talese. O foco foi o atual papel da imprensa americana, que para Talese tem sido extremamente parcial desde o 11 de Setembro. A mídia e os veículos de imprensa fizeram mais propaganda do que jornalismo; e se tivessem mais jornalistas investigativos e responsáveis, talvez a invasão do Iraque não tivesse acontecido.

A imprensa aceitou e continua aceitando os argumentos e as mentiras do governo Bush, como foram os episódios das armas de destruição em massa no Iraque e a ligação de Saddam Hussein com al-Qaeda. Tudo mentira, fatos que ainda não foram devidamente esclarecidos para a população dos EUA, segundo Talese.

No entanto, apesar do foco da entrevista ser o da manipulação das informações por um grande veículo de imprensa dos EUA, a Folha também colaborou nesta tarefa inglória e hipócrita de manipular a entrevista. Quem leu a entrevista no próprio jornal, na última página do caderno principal, e teve a oportunidade de comparar com a íntegra da entrevista de Talese na Folha Online, com certeza ficou surpreendido.

A que foi publicada no jornal é diferente da que foi divulgada na Folha Online. Nesta, a entrevista é muito mais completa, com informações e análises de Talese que não estão na versão em papel do jornalão paulistano. São opiniões mais contundentes, que questionam mais a fundo não só o papel da mídia, mas ajudam a entender melhor o atual momento histórico dos EUA de Bush.

A edição feita para o jornal, seja lá por qual motivo – tamanho da página, economia de espaço, pretensa facilidade para leitura etc. – teve como resultado final uma evidente manipulação da informação. Será que não poderiam diminuir a foto da mulher carregando um cartaz escrito ‘mentiras’ e assim abrir mais espaço para publicar a entrevista na íntegra? A edição privilegiou a aparência gráfica em detrimento do conteúdo da entrevista, resultando numa manipulação grosseira das informações.

Comparando as versões

Só para exemplificar, a última questão da entrevista mostra bem como foi a edição-manipulação da entrevista.

Folha – O sr. ainda se considera um ‘outsider’?

Talese – Sim. Eu jamais seria um ‘embutido’.’

Na outra entrevista, apresentada integralmente, a mesma pergunta tem a seguinte resposta:

Folha – O sr. ainda se considera um ‘outsider’?

Talese – Sim. Eu jamais seria um ‘embutido’. Não posso culpar os jornalistas que o fizeram, eles foram enviados para uma missão. Os donos dos jornais e editores tomaram a decisão de permitir que os repórteres viajassem nos tanques e escrever sobre a chamada ‘vitória militar’. E eles continuam usando a palavra ‘vitória’. Eles também seqüestraram a palavra. Recentemente eu contei 44 vezes a palavra vitória em um discurso de Bush. Continuam martelando.’

O que fica deste episódio é que a Folha, com esta atitude, só reforça as opiniões de Talese sobre a imprensa e a atual falta de credibilidade para com os leitores. É o entrevistado quem declara o seguinte:

‘Os jornais [americanos] estão muito preocupados com a queda na circulação, com os altos custos e se os jornais podem sobreviver. E com razão, pois o produto que vendem é muito ruim… O problema real é que o jornalismo fracassou. O governo mentiu e o governo fracassou. É uma mancha para a história do jornalismo. Até agora as pessoas continuam desinformadas, porque não recebemos a verdade.’

Alguém duvida que este comentário também não é válido para a imprensa brasileira?

A mídia do país está perdendo credibilidade exatamente em função das manipulações, campanhas, sensacionalismo que vêm sendo feitos, com denúncias vazias, sem investigação, sem nada. Há quem acuse parte da imprensa brasileira de estar agindo como a mídia venezuelana, que fez, e ainda faz, uma feroz campanha contra o presidente Hugo Chávez. Exageros à parte, há por parte da grande imprensa do Brasil um comportamento e uma prática muito semelhante ao que aconteceu na Venezuela.

O manto da liberdade de imprensa, fundamental para a existência e manutenção de uma sociedade democrática, não pode ser usado para campanhas, manipulações, mentiras, propaganda. Sem ética, responsabilidade social e equilíbrio é impossível ser independente, valor tão caro e tão defendido pelos veículos de imprensa do Brasil. Só a retórica e o corporativismo rastaqüera da mídia, como o que tem acontecido, é insuficiente para manter a imprensa no seu papel de mostrar a realidade como ela é, ajudando na fiscalização e na manutenção da democracia. O resto é conversa ‘para boi dormir’.

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Jornalista

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