Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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FEITOS & DESFEITAS > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

02/05/2006 na edição 379

‘O jornal ‘O Globo’ publicou a primeira reportagem, no domingo passado, e a Folha acompanhou, nos dias seguintes. Segundo o diário do Rio, empresas relacionadas pelo PMDB como doadoras da pré-campanha de Anthony Garotinho à Presidência não funcionam nos endereços declarados.

Era a ponta de um caso que foi sendo destrinchado ao longo da semana. Na terça-feira, a Folha informou que uma das empresas doadoras tinha tido como sócio-fundador um assaltante que está preso. No dia seguinte, o jornal trouxe a informação mais importante: os financiadores apresentados pelo PMDB são ligados a um instituto – contratado sem licitação – que presta serviço ao governo do Estado do Rio. Os dois jornais continuaram investigando as empresas e descobriram novas conexões entre os doadores e a contratação de serviços sem licitação.

Na quinta-feira, Garotinho assim se defendeu: ‘Tudo isso que vem acontecendo é uma perseguição contra mim desde que eu cresci nas pesquisas. Meus adversários, que são poderosos, como os bancos e as Organizações Globo, têm feito uma perseguição implacável para ver se recuo’. E acrescentou: ‘Por que ninguém está questionando quem pagou o avião no qual o Alckmin veio ontem a Brasília?’.

Tomei essa cobertura e as declarações do peemedebista como exemplos porque contêm questionamentos sérios e comuns em relação à imprensa.

Os jornais têm razão, na minha opinião, quando despendem esforços para desvendar as caixas-pretas dos financiamentos eleitorais, fonte mais freqüente de corrupção na política.

A falta de vontade do Congresso para criar regras e punições para os financiamentos ilegais, para o uso de caixa dois e para o desvio de recursos públicos para campanhas eleitorais exige da imprensa brasileira um trabalho contínuo e especializado. Está provado que este é um dos focos mais resistentes de corrupção. Garotinho tem razão, portanto, quando pede mais investigações.

Mas ele tem razão quando se queixa de perseguição?

Garotinho não foi o único político a reclamar da imprensa nas últimas semanas. Já tinha citado em outra coluna reclamação mais polida do tucano Geraldo Alckmin diante do noticiário negativo sobre a sua gestão no governo paulista: ‘O interessante é que tudo isso apareceu depois que virei candidato a presidente. Uma coisa totalmente oportunista’.

Nesta semana, a senadora petista Ana Júlia Carepa usou argumentos semelhantes para responder à CPI da Biopirataria, que pediu ao Ministério Público Federal o indiciamento de cinco petistas acusados de montar, em 2004, no Pará, um esquema para arrecadar dinheiro para campanhas eleitorais municipais por meio de liberação irregular de madeira. ‘Quando o Lula sobe nas pesquisas, infelizmente vêm as acusações.’

O ataque mais violento da semana veio de outro petista, o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu. Ele também se queixou da ‘perseguição’ que estaria sofrendo: ‘Só no período da Oban, do DOI-Codi [referências aos órgãos de repressão da ditadura militar], a imprensa brasileira desceu tanto como está descendo neste momento da vida política nacional’.

O fato de políticos de partidos adversários e com interesses eleitorais antagônicos atacarem a imprensa não é em si uma evidência de equilíbrio na distribuição de denúncias nem significa que ela esteja cumprindo bem o seu papel de fiscalização.

Como já assistimos em outras ocasiões, a disputa necessária entre os meios de comunicação muitas vezes resulta na publicação de informações incompletas ou erradas. Mas é certo também que muitos políticos e partidos usam o argumento da perseguição para tentar neutralizar a ação da imprensa.

A campanha eleitoral mal começou, mas já está evidente que a imprensa continuará no meio do furacão. É bom que ela seja questionada. Isso vai exigir mais pessoal preparado para as investigações jornalísticas e mais atenção nas edições. Uma combinação de cautela e eficiência, sem se deixar intimidar.’

***

‘A imprensa e a CPI’, copyright Folha de S. Paulo, 30/4/06.

‘A imprensa brasileira cumpriu, no caso da CPI dos Correios e da crise política que se arrasta desde maio do ano passado, o papel que dela se espera numa democracia? Publico hoje as avaliações de um leitor e de dois editores de jornal.

Um roteiro

Adjútor Alvim, leitor

‘1. A imprensa foi eficiente em demonstrar os desvios do governo Lula. Leviandades foram uma exceção concentrada em alguns órgãos e jornalistas. A maioria das denúncias foi comprovada.

2. A imprensa não foi capaz de demonstrar por que os desvios do governo FHC não repercutiram tanto quanto os do governo Lula. Incompetência deste em abafá-los? Interesse das elites representadas no Congresso em desgastar o governo? Conspiração das elites? Luta de classes, conforme sugeriu Marilena Chaui?

3. A imprensa está sendo ineficiente em discutir por que a popularidade de Lula continua em alta apesar das denúncias. Somos tolerantes com a corrupção? A oposição não tem credibilidade para as denúncias? A popularidade continua alta nas classes C, D e E porque elas não têm acesso à informação ou porque estão satisfeitos com o governo Lula?

4. A imprensa tem sido ineficiente em analisar se temos opções políticas que não executam as mesmas práticas de PT-PSDB-PFL-PMDB? Os deputados do PSOL não se beneficiaram do caixa dois do PT? A prática é realmente sistêmica? Vamos votar em outubro sabendo que elegeremos corruptos?

5. A imprensa tem sido tímida em apontar saídas para a crise. Temos possibilidade de sair dela pela via eleitoral? Precisamos mudar a legislação? Quais são as reformas políticas e eleitorais possíveis?

6. Há paralelo na crise que vivemos hoje com outras crises do passado? Há risco de crise institucional se o impeachment for levado à frente? O cenário de hoje é parecido com o de 1954 ou 1964?

Acho que todos esses assuntos, embora já tenham sido mencionados na imprensa, devem ser aprofundados em ano de eleição presidencial.’

Um ou outro senão

João Bosco Rabello, diretor da Sucursal de Brasília de ‘O Estado de São Paulo’, e Claudio Augusto, editor de Nacional

‘Talvez o melhor exemplo do acerto e da seriedade do trabalho da imprensa na cobertura da crise de corrupção no governo Lula seja a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Ela absorve quase a totalidade das denúncias publicadas e confirma a gênese dos crimes praticados pela cúpula do PT no governo. A base aliada ao Palácio do Planalto procurou o tempo todo desacreditar as investigações. Tudo era ‘invenção da oposição’ com apoio de uma ‘mídia golpista’. No fim, o parecer do procurador foi mais contundente que o da CPI dos Correios, produzido sob pressão do PT.

É verdade que a imprensa, por vezes, ficou a reboque das CPIs. Mas é impraticável imaginar que uma cobertura com documentos comprometedores manuseados por poucos parlamentares produziria revelações decorrentes exclusivamente da apuração dos repórteres. Vale observar que, em comparação com escândalos anteriores, a imprensa foi muito mais proativa. A crise nasceu de um depoimento não espontâneo: a célebre gravação revelada pela ‘Veja’ em que o funcionário dos Correios Maurício Marinho aparece recebendo propina. Na seqüência, vieram a entrevista do ex-deputado Roberto Jefferson à Folha e, ao final, o depoimento do caseiro Francenildo dos Santos Costa ao ‘Estado’.

O processo de apuração foi complexo. Antes de publicar o depoimento do caseiro, por exemplo, o ‘Estado’ obteve seus contracheques, buscou testemunhas de que trabalhava na mansão da República de Ribeirão, além de confirmar que, ao lado de um motorista, entregou dinheiro ao chefe de gabinete de Palocci.

Neste período de investigações e duro trabalho jornalístico, caíram a cúpula do PT e o chamado núcleo duro do governo. Jefferson e José Dirceu foram cassados. A imprensa, com um ou outro senão, cumpriu seu papel.’’

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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

02/05/2006 na edição 379

‘O jornal ‘O Globo’ publicou a primeira reportagem, no domingo passado, e a Folha acompanhou, nos dias seguintes. Segundo o diário do Rio, empresas relacionadas pelo PMDB como doadoras da pré-campanha de Anthony Garotinho à Presidência não funcionam nos endereços declarados.

Era a ponta de um caso que foi sendo destrinchado ao longo da semana. Na terça-feira, a Folha informou que uma das empresas doadoras tinha tido como sócio-fundador um assaltante que está preso. No dia seguinte, o jornal trouxe a informação mais importante: os financiadores apresentados pelo PMDB são ligados a um instituto – contratado sem licitação – que presta serviço ao governo do Estado do Rio. Os dois jornais continuaram investigando as empresas e descobriram novas conexões entre os doadores e a contratação de serviços sem licitação.

Na quinta-feira, Garotinho assim se defendeu: ‘Tudo isso que vem acontecendo é uma perseguição contra mim desde que eu cresci nas pesquisas. Meus adversários, que são poderosos, como os bancos e as Organizações Globo, têm feito uma perseguição implacável para ver se recuo’. E acrescentou: ‘Por que ninguém está questionando quem pagou o avião no qual o Alckmin veio ontem a Brasília?’.

Tomei essa cobertura e as declarações do peemedebista como exemplos porque contêm questionamentos sérios e comuns em relação à imprensa.

Os jornais têm razão, na minha opinião, quando despendem esforços para desvendar as caixas-pretas dos financiamentos eleitorais, fonte mais freqüente de corrupção na política.

A falta de vontade do Congresso para criar regras e punições para os financiamentos ilegais, para o uso de caixa dois e para o desvio de recursos públicos para campanhas eleitorais exige da imprensa brasileira um trabalho contínuo e especializado. Está provado que este é um dos focos mais resistentes de corrupção. Garotinho tem razão, portanto, quando pede mais investigações.

Mas ele tem razão quando se queixa de perseguição?

Garotinho não foi o único político a reclamar da imprensa nas últimas semanas. Já tinha citado em outra coluna reclamação mais polida do tucano Geraldo Alckmin diante do noticiário negativo sobre a sua gestão no governo paulista: ‘O interessante é que tudo isso apareceu depois que virei candidato a presidente. Uma coisa totalmente oportunista’.

Nesta semana, a senadora petista Ana Júlia Carepa usou argumentos semelhantes para responder à CPI da Biopirataria, que pediu ao Ministério Público Federal o indiciamento de cinco petistas acusados de montar, em 2004, no Pará, um esquema para arrecadar dinheiro para campanhas eleitorais municipais por meio de liberação irregular de madeira. ‘Quando o Lula sobe nas pesquisas, infelizmente vêm as acusações.’

O ataque mais violento da semana veio de outro petista, o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu. Ele também se queixou da ‘perseguição’ que estaria sofrendo: ‘Só no período da Oban, do DOI-Codi [referências aos órgãos de repressão da ditadura militar], a imprensa brasileira desceu tanto como está descendo neste momento da vida política nacional’.

O fato de políticos de partidos adversários e com interesses eleitorais antagônicos atacarem a imprensa não é em si uma evidência de equilíbrio na distribuição de denúncias nem significa que ela esteja cumprindo bem o seu papel de fiscalização.

Como já assistimos em outras ocasiões, a disputa necessária entre os meios de comunicação muitas vezes resulta na publicação de informações incompletas ou erradas. Mas é certo também que muitos políticos e partidos usam o argumento da perseguição para tentar neutralizar a ação da imprensa.

A campanha eleitoral mal começou, mas já está evidente que a imprensa continuará no meio do furacão. É bom que ela seja questionada. Isso vai exigir mais pessoal preparado para as investigações jornalísticas e mais atenção nas edições. Uma combinação de cautela e eficiência, sem se deixar intimidar.’

***

‘A imprensa e a CPI’, copyright Folha de S. Paulo, 30/4/06.

‘A imprensa brasileira cumpriu, no caso da CPI dos Correios e da crise política que se arrasta desde maio do ano passado, o papel que dela se espera numa democracia? Publico hoje as avaliações de um leitor e de dois editores de jornal.

Um roteiro

Adjútor Alvim, leitor

‘1. A imprensa foi eficiente em demonstrar os desvios do governo Lula. Leviandades foram uma exceção concentrada em alguns órgãos e jornalistas. A maioria das denúncias foi comprovada.

2. A imprensa não foi capaz de demonstrar por que os desvios do governo FHC não repercutiram tanto quanto os do governo Lula. Incompetência deste em abafá-los? Interesse das elites representadas no Congresso em desgastar o governo? Conspiração das elites? Luta de classes, conforme sugeriu Marilena Chaui?

3. A imprensa está sendo ineficiente em discutir por que a popularidade de Lula continua em alta apesar das denúncias. Somos tolerantes com a corrupção? A oposição não tem credibilidade para as denúncias? A popularidade continua alta nas classes C, D e E porque elas não têm acesso à informação ou porque estão satisfeitos com o governo Lula?

4. A imprensa tem sido ineficiente em analisar se temos opções políticas que não executam as mesmas práticas de PT-PSDB-PFL-PMDB? Os deputados do PSOL não se beneficiaram do caixa dois do PT? A prática é realmente sistêmica? Vamos votar em outubro sabendo que elegeremos corruptos?

5. A imprensa tem sido tímida em apontar saídas para a crise. Temos possibilidade de sair dela pela via eleitoral? Precisamos mudar a legislação? Quais são as reformas políticas e eleitorais possíveis?

6. Há paralelo na crise que vivemos hoje com outras crises do passado? Há risco de crise institucional se o impeachment for levado à frente? O cenário de hoje é parecido com o de 1954 ou 1964?

Acho que todos esses assuntos, embora já tenham sido mencionados na imprensa, devem ser aprofundados em ano de eleição presidencial.’

Um ou outro senão

João Bosco Rabello, diretor da Sucursal de Brasília de ‘O Estado de São Paulo’, e Claudio Augusto, editor de Nacional

‘Talvez o melhor exemplo do acerto e da seriedade do trabalho da imprensa na cobertura da crise de corrupção no governo Lula seja a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Ela absorve quase a totalidade das denúncias publicadas e confirma a gênese dos crimes praticados pela cúpula do PT no governo. A base aliada ao Palácio do Planalto procurou o tempo todo desacreditar as investigações. Tudo era ‘invenção da oposição’ com apoio de uma ‘mídia golpista’. No fim, o parecer do procurador foi mais contundente que o da CPI dos Correios, produzido sob pressão do PT.

É verdade que a imprensa, por vezes, ficou a reboque das CPIs. Mas é impraticável imaginar que uma cobertura com documentos comprometedores manuseados por poucos parlamentares produziria revelações decorrentes exclusivamente da apuração dos repórteres. Vale observar que, em comparação com escândalos anteriores, a imprensa foi muito mais proativa. A crise nasceu de um depoimento não espontâneo: a célebre gravação revelada pela ‘Veja’ em que o funcionário dos Correios Maurício Marinho aparece recebendo propina. Na seqüência, vieram a entrevista do ex-deputado Roberto Jefferson à Folha e, ao final, o depoimento do caseiro Francenildo dos Santos Costa ao ‘Estado’.

O processo de apuração foi complexo. Antes de publicar o depoimento do caseiro, por exemplo, o ‘Estado’ obteve seus contracheques, buscou testemunhas de que trabalhava na mansão da República de Ribeirão, além de confirmar que, ao lado de um motorista, entregou dinheiro ao chefe de gabinete de Palocci.

Neste período de investigações e duro trabalho jornalístico, caíram a cúpula do PT e o chamado núcleo duro do governo. Jefferson e José Dirceu foram cassados. A imprensa, com um ou outro senão, cumpriu seu papel.’’

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