Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

Mario Vitor Santos

01/07/2008 na edição 492

‘A cobertura da campanha eleitoral em São Paulo começou no iG. Começou de maneira tímida, embora respeitável. Nas últimas duas semanas, o jornalista Leandro Beguoci entrevistou o deputado Aldo Rebelo, candidato do PC do B, e a vereadora Soninha, do PPS. A entrevista com Soninha abordou todos os temas mais relevantes que a biografia e a candidatura de Soninha despertam.

Foi também uma ocasião para um diagnóstico de problemas da cidade. Soninha pôde apresentar seus planos e propostas para aperfeiçoar São Paulo. Respondeu a diversas perguntas enviadas pelos internautas ao iG, todas muito relevantes. O clima foi amistoso, mas jornalístico. Faltou talvez submeter a candidata a um teste maior de argumentação que explicite sua capacidade de suportar a tarefa extremamente difícil e tensa a que ela se candidata. De qualquer forma, o Último Segundo marcou um ponto. Ainda há muito a progredir. É preciso iluminar melhor o estúdio, cuidar dos detalhes e diminuir a impressão de improvisação: alguém de fora do quadro estendeu um copo dágua para o entrevistador, que passou-o para a candidata no meio da entrevista. O nome do entrevistador não foi informado, por exemplo. É importante também dominar melhor os recursos audiovisuais de forma a tornar o programa mais televisivo. A entrevista durou uma hora e a gravação está disponível aqui.

Tudo é relativo (27/6/08)

Enquanto o iG dava esses primeiros passos, entrevistas da Folha com Marta Suplicy, e da Veja com a mesma Marta e Gilberto Kassab, provocaram rumorosas decisões da Justiça Eleitoral, que aplicou multas aos dois veículos e proibiu a publicação de entrevistas em que aparecessem propostas dos pré-candidatos antes do dia 6 de julho. Na quinta-feira, o TSE cancelou o artigo da lei eleitoral que dava margem a essas decisões judiciais de restrição à liberdade de informação e opinião.

Diante disso, a cobertura do iG incipiente. Não consegue influenciar num cenário mais amplo e dá a impressão de já estar chegando atrasado e fora do passo. Já deveria ter entrevistado os principais personagens da disputa. Mas anuncia um debate, que talvez seja o primeiro dessa eleição.

A disputa é longa, ainda há terreno a ser conquistado. Envolve não apenas uma corrida entre candidatos, mas também entre veículos. Para fazer trabalho relevante é preciso ter inteligência e recursos. É necessário organizar, planejar e realizar o que foi planejado. Não há que ceder aos lances de espetáculo. Basta fazer o mais importante: jornalismo. O restante é conseqüência do trabalho, e da sorte.

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Os comentários e a baderna (26/6/08)

É lamentável o espetáculo apresentado pelos comentários que o iG vem publicando junto ao noticiário sobre a morte da antropóloga Ruth Cardoso. Ao ler o relato da cerimônia fúnebre de Ruth, hoje, de autoria do repórter Ricardo Kotscho, o internauta depara-se, ao final do texto refinado e sensível, com xingamentos, expressões de péssimo gosto e intolerância.

Isso não tem nada a ver com uma internet dos leitores, reprodução virtual das opiniões de indivíduos reunidos em comunidade. Ao contrário, tende a afastar a cidadania e dar espaço aos instintos mais negativos e autoritários, liberados sem qualquer responsabilidade.

Já passou da hora de o iG assumir o controle do que publica. Deve-se garantir a liberdade de opiniões, mas banir a delinqüência. A internet dos leitores de verdade exige que haja editores do iG para examinar os comentários e até participar dos debates, e para garantir que eles de fato ocorram em termos civilizados. Sem isso, como está, o leitor, leitor mesmo, se recolhe.

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As vidas de Ruth e o uso do jornalismo (25/6/08)

‘Tinha luz própria’. Foi ‘primeira-dama só comparável a Raissa Gorbatchev e Hillary Clinton’; ‘introdutora do Bolsa-família’. Foi ‘a melhor primeira-dama do Brasil moderno’. Esses são apenas alguns dos juízos elogiosos emitidos no iG hoje em relação à trajetória da antropóloga Ruth Cardoso, que morreu ontem.

Nesse momento, é difícil buscar um equilíbrio entre respeitar a dor da família e exercer o jornalismo, que é necessariamente contraditório e aponta pontos positivos e negativos. Agora, é natural haver uma certa contenção, que se permita uma trégua. É também natural e necessário ser generoso e procurar ressaltar contribuições positivas. Num país tão carente em termos de formação educacional e intelectual, entende-se um endeusamento de quem chegou ao cume da carreira acadêmica. Admite-se até que a emoção tome conta de alguns textos.

Apesar disso tudo, é obrigatório exercer o jornalismo. Como? Procurando fazer o julgamento mais equilibrado possível. É preciso ouvir não apenas as vozes favoráveis, mas também as opiniões de quem se disponha a apontar aspectos mais criticáveis. Não da pessoa Ruth Cardoso, mas daquilo que ela fez e produziu, inclusive porque ela desempenhou função pública. É possível fazer isso, e ainda assim respeitar a dor dos que a cercavam.

Recentemente, o vazamento de suposto dossiê elaborado pelo governo Lula, sobre os gastos pessoais da família do então presidente Fernando Henrique Cardoso, pagos com cartões corporativos, foram objeto de extenso noticiário. Também o programa Comunidade Solidária, presidido por Ruth Cardoso, recebeu críticas tanto de setores da imprensa quanto de adversários e intelectuais, que apontavam falta de eficácia do órgão no combate à pobreza. Tudo isso, também faz parte da biografia da ex-primeira-dama. Trazer ao exame da sociedade agora talvez seja a melhor forma de respeitar sua trajetória de intelectual.

O pior é a impressão de que avaliações exageradamente positivas, inclusive de aspectos pessoais como a ‘discrição de dona Ruth (em muitos casos até o Dona tem sido escrito com inicial maiúscula), parecem não se limitar ao passado, mas a induzir a comparações e julgamentos sobre o presente, sobre o governo Lula, em especial sobre sua mulher, ‘dona’ Marisa. O iG não é o único a se deixar tomar por esse noticiário que parece isento e do bem, como se diz, mas no fundo não é. Cabe zelar para que o noticiário seja isento, eqüidistante e equilibrado, até o fim.

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Um novo começo (24/6/08)

Retorno hoje da participação na conferência anual da Organization of News Ombudsmen, realizada em Estocolmo, e amplamente noticiada neste blog, e seguida de um período de férias.

A novidade é a renovação do contrato entre o iG este ombudsman por mais um ano. Trata-se de um passo importante para a instituição. Demonstra interesse da direção do iG na consolidação da função e em sua incorporação como elemento rotineiro de um trabalho voltado para a qualidade, a ética e a interatividade.

Tentei fazer um trabalho de crítica do trabalho do iG durante este ano que passou. Procurei ser um canal aberto para que os internautas pudessem apresentar suas reclamações e exigir um trabalho mais eficiente da equipe do portal.

Certamente não fui perfeito. É preciso evoluir no acompanhamento mais detalhado do Último Segundo, a área mais especificamente jornalística do iG. Estabelecer mais e melhores vínculos com os leitores. Cobrar mais qualidade da reportagem e dos articulistas.

O iG tem que ter uma política de correção de erros que efetivamente funcione. Precisa corrigir mais os erros que comete. Para isso, precisa estar mais aberto aos leitores. Estimular a participação e mostrar aos internautas que suas manifestações não são ignoradas. Ao contrário, mostrar que elas são bem-vindas e geram ações em benefício dos próprios internautas que acessam o portal. Além disso, precisa divulgar melhor os valores que defende e ser coerente com eles. Essas são boas prioridades para este segundo mandato que agora se inicia.’

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