Matar ou morrer? | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & VIOLÊNCIA

Matar ou morrer?

Por José de Souza Castro em 27/05/2008 na edição 487

Não sei quantas vezes li – e quantas eu mesmo escrevi – que os jornais deixaram de investir em grandes reportagens. Portanto, preciso comemorar a reportagem que a Folha de S.Paulo publicou ontem (19/05), assinada por Raphael Gomide, repórter da sucursal do Rio. Para apurar o assunto, ele fez em junho de 2007 um concurso para ingressar no Curso de Formação de Soldados da PM. Eram 25 mil candidatos fazendo provas no Maracanã, na primeira etapa e ele foi aprovado em 67º lugar, nas provas de português, redação e matemática. O objetivo era conhecer o perfil de quem se aventura a enfrentar a morte diariamente por R$ 909,49 mensais brutos e estabilidade no emprego.

O principal aprendizado, no curso, é como permanecer vivo. Diz Gomide, na abertura da reportagem: ‘Em 2007, 151 PMs foram assassinados no Estado, um a cada 2,5 dias. As polícias do Rio mataram 1.330 pessoas (recorde histórico), média de 3,64 por dia.’

Para apurar, o repórter trabalhou como recruta entre os dias 3 e 25 de janeiro deste ano, quando pediu o afastamento da PM. Estou curioso para conhecer os bastidores dessa reportagem. Por que, com um assunto quente como este nas mãos, o jornal demorou quase quatro meses para publicar? Deve ter sido coisa de consultores jurídicos…

‘Arriscar a carcaça’

Espero que a decisão de reter por tanto tempo a reportagem não tenha partido da alta direção da redação do jornal, como suspeito que esteja ocorrendo em Minas. Por inferir que os jornais mineiros têm, por decisão própria – mas provavelmente induzidos pelo governo do estado – restringido bravamente as reportagens policiais, sobretudo aquelas que mostram a inoperância da polícia mineira, li com um pé atrás esse trecho, na reportagem de Gomide:

‘Com o aumento da violência, a PM adotou procedimentos mais agressivos de abordagem. A técnica é usada para suplantar a surpresa: as abordagens devem ser na posição ‘caçador’ (arma apontada) e em superioridade numérica – o que é freqüentemente desrespeitado.

‘Se não diminuir a margem de risco, pode não voltar para casa. O Rio é o estado mais perigoso do Brasil, não tem jeito. É o único em guerra. Se não estiver bem preparado, vai cair’, diz um aspirante. ‘Arma é sempre apontada. É grosseiro? Pode ser. Mas quem senta a bunda na viatura 12 horas correndo risco é o PM. Sem deixar de ser cortês, mas vai arriscar sua carcaça de madrugada? O Rio não é Minas Gerais’, diz outro.’

‘Vão ter troco’

Parece indicar que a idéia, lá no Rio, é que Minas é um lugar muito seguro. Se é seguro, por que a população de Belo Horizonte cerca suas casas e prédios com muros e grades tão altas? Por que têm medo de sair às ruas, principalmente os idosos e as mulheres? O que leva essas pessoas a terem medo? Certamente, não é o noticiário. Será que notícias de violência estão se espalhando ao modo antigo, quando não havia ainda imprensa, ou seja, de boca a boca? Nesse paraíso midiático, creio que antigos leitores de um jornal valente, como o Hoje em Dia, se surpreenderam ao abrir hoje o caderno ‘Minas’ e ver lá uma reportagem de Carlos Calaes, revelando:

‘A execução a tiros de três adolescentes, na tarde do último sábado, nas proximidades do shopping Del Rey, reacendeu o clima de tensão e sentimento de vingança na favela ‘Buraco Quente’, situada na pedreira Prado Lopes, noroeste de Belo Horizonte. Os adolescentes W.S.C., 15 anos, G.D.A., o ‘Julimarzinho’ e N.A.M., o ‘Fait’, ambos de 16 anos, supostos usuários de drogas e integrantes do tráfico de uma das gangues da favela, foram executados por dois rapazes que estavam numa motocicleta Honda Titan prata, placa não anotada. Um agente da Polícia Civil, que estava de plantão ontem no Departamento de Investigações (DI), confirmou que as mortes deixaram a situação bastante tensa no ‘Buraco Quente’. Ele disse que, hoje, a Divisão de Crimes contra a Vida (DCcV) vai iniciar as investigações.

Na tarde de ontem, dois homens, que estavam sentados nas proximidades da entrada da favela, falaram com a reportagem rapidamente e sem se identificar. ‘Eles mataram os meninos de graça. Agora podem esperar que vão ter troco, vão ter o deles. Vocês vão ter notícia amanhã (hoje)’, disse um deles, dando a entender que integrantes do ‘Buraco Quente’ vão vingar as mortes dos adolescentes.

Cem tiros, oito mortes

Para o sargento Carlos Dornelas, do 34º BPM, que atendeu à ocorrência, os três adolescentes podem ter algum tipo de envolvimento com o tráfico de drogas e teriam sido executados por vingança ou acerto de contas, por ordem de Washington Freitas, o ‘Xitão’, um dos líderes rivais do tráfico das ruas Marcazita e Guapé. No sábado, o taxista Evandro José Vaz, 38 anos, que dirigia o Palio placa GWV-8327 e que foi poupado pelo atirador, conseguiu dirigir o veículo, crivado de balas, com os três adolescentes sangrando e agonizando – um no banco da frente e dois atrás – até o Hospital Odilon Behrens, onde chegaram mortos.

No ano passado, pelo menos 18 pessoas morreram em virtude da guerra e do ódio entre traficantes que dominam pontos no ‘Buraco Quente’, aliados, ou ‘primos’, da Rua Carmo do Rio Claro, que dominam a parte alta da pedreira Prado Lopes, e seus rivais, que atuam nas ruas Marcazita e Guapé. Na noite de 24 de fevereiro de 2007, o corpo de Wellington Sales Vieira, 23 anos, que teria envolvimento com traficantes das ruas Marcazita e Guapé, estava sendo velado em uma casa do bairro Santo André, quando dois homens encapuzados chegaram em uma motocicleta, entraram na sala do velório e abriram fogo contra várias pessoas. Dois homens morreram na hora.

A vingança aconteceu em junho, quando três homens foram assassinados a tiros, na favela do ‘Buraco Quente’. Em setembro, Tiago Henrique, 14 anos, Fabiano Alves Gregório, 16, Marcelo Teixeira de Souza, 27 anos, e Odilon Dias, 35, que seriam aliados de ‘Xitão’, foram fuzilados. Em setembro, oito atiradores encapuzados, armados com pistolas 9 milímetros, invadiram um sítio e disparam perto de cem tiros contra os convidados, em uma festa em Ribeirão das Neves. Ao todo, oito pessoas morreram.’

Teto salarial

Parece-me que os leitores lavaram a alma. Sabem agora que não estão ficando neuróticos sem motivos. A violência se espalha sem controle, diante de uma polícia mal preparada, mal paga e sem perspectivas de avanços dignos na carreira. No ano passado, o governo de Minas mandou à Assembléia Legislativa, que aprovou, a Lei Complementar 95/2007, que estabelece novas regras para a promoção na Polícia Militar. Os sargentos tinham que esperar em média 12 ou 13 anos para serem promovidos de 3º para 2º sargento e outro tanto para chegar a subtenente.

A nova lei prevê uma redução desse período, mas em outubro de 2007 o deputado Sargento Rodrigues escreveu ao comandante-geral da PM, coronel Hélio dos Santos Júnior, reclamando que a lei estava sendo mal interpretada. Exemplificou: no primeiro semestre de 2006, foram promovidos 63 primeiros sargentos, no segundo semestre 39, enquanto no segundo semestre do ano passado, já na vigência da lei, foram promovidos apenas 10.

Enquanto isso, os altos oficiais da PM estão lutando para a aprovação de uma nova lei, a PEC 40/2007, que permitiria que os servidores das polícias Civil e Militar e do Corpo de Bombeiros tenham o limite máximo salarial elevado dos atuais R$ 10.500 (salário do governador) para R$ 24.500 (salário dos desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas). É verdade que esses limites são ultrapassados. Mais de mil servidores do Executivo ganham mais que Aécio Neves, sob a forma de salários pagos pelo erário mineiro. E no Judiciário, em novembro de 2006, último levantamento divulgado, eram 318 os que recebiam acima do limite fixado.

Lucro com ações

Falei do Rio e de Minas. Não posso me esquecer de São Paulo. No Estadão de hoje (20/05), reportagem de Bruno Tavares:

‘A Polícia Militar de São Paulo matou 55% a mais de pessoas no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2007. Foram 107 mortes em confronto, ante as 69 registrados entre janeiro e março de 2007. Índices correlatos, como prisões em flagrante e feridos em tiroteios com PMs, se mantiveram estáveis.

A maior alta foi em janeiro, quando a Secretaria da Segurança Pública (SSP) registrou 41 embates com mortes – 17 a mais do que em 2007. O mês foi violento, após o assassinato do coronel José Hermínio Rodrigues, comandante da PM na zona norte. No dia seguinte à sua morte, uma chacina deixou sete mortos na região. As suspeitas do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) são de que a autoria de ambos os crimes tenha sido de PMs.

Mas nem tudo vai mal. A Folha de S. Paulo trata de nos alegrar. Diz ela, também hoje, em reportagem de Fernando Canzian, que apesar da elevação dos juros, o primeiro trimestre deste ano trouxe aumento real (acima da inflação) de 10% na receita líquida e de 4% no lucro das 200 maiores empresas com ações negociadas na Bovespa.

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Jornalista, Belo Horizonte, MG

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