Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Mentiras de heróis

Por Norma Couri em 18/09/2018 na edição 1005

Cena do filme O Retorno do Herói, de Laurent Tirard. (Crédito: Divulgação)

Dois filmes entram em cartaz no momento certo. Na divertida comédia francesa O Retorno do Herói (Laurent Tirard), as mentiras contadas nos 90 minutos de filme por Jean Dujardin na pele do covarde Capitão Neville o transformam para sempre num celebradíssimo herói.

Como afirmou Fernando Pessoa, ele mente tão profundamente que acreditamos em tudo o que ele diz e é quase impossível não nos remeter aos personagens da nossa cena política e suas máscaras. O filme estréia nesta quinta-feira 20/9, enquanto as promessas da campanha eleitoral seguem firmes.

A associação não é só com os políticos atuais. Acaba de sair o livro Você Foi Enganado, da editora Intrínseca, dos jornalistas Chico Otávio, do Globo, e Cristina Targáguila, da Agência Lupa, relatando as inúmeras mentiras contadas pelos presidentes brasileiros desde o general Figueiredo. E haja mentira.

O outro filme, O Paciente (Sergio Resende), contando a via crucis de Tancredo Neves (Othon Bastos) dias antes da eleição que nunca aconteceu, custou 28 anos para sair, o tempo que o autor e médico, Luis Myr levou para conseguir os prontuários dos hospitais e contar toda a história – uma saga que todo jornalista conhece.

Dramático. Foram enganos, mentiras, o medo de Tancredo de não estar presente no momento da eleição (“Figueiredo não vai passar a faixa para o Sarney”, como de fato, não passou, mas deu a posse), o temor de ter um governo de cinco anos com Sarney à frente (“que tragédia!”), a insistência em subir a rampa, os relatórios mentirosos para não assustar a população.

“Quando se veste uma roupa dessas (a camisola hospitalar) já não se manda nada”, reclamava Tancredo, que se negava a ser operado naquele momento. Os médicos do Hospital Geral de Base em Brasília tentavam convencê-lo a se operar porque a situação era grave, e Tancredo recusava, ( “eu estou o pronto para pegar a caneta e vocês, o bisturi…”). “Cobre o meu rosto”, pedia à dona Risoleta (Esther Góes) – o futuro presidente não queria decepcionar os internados no hospital e aparecer como paciente, não como presidente.

Foi esse o erro fatal de Tancredo, era paciente e ponto. Mas foi tratado como presidente pelos médicos, que anteciparam tudo, aceleraram tudo, intuíram tudo, operaram o tumor como divertículo e mentiram ao assessor de imprensa que transmitia as inverdades à população para liberar Tancredo o quanto antes como ele queria.

Foram três operações, uma transferência desastrosa para São Paulo, um sofrimento desnecessário quando seria suficiente aguardar a recuperação do…paciente. E a foto mentirosa, que ocultava o estado terminal de Tancredo, para o Brasil acreditar que teria o primeiro presidente civil em duas décadas de golpe e ditadura. A decepção foi enorme.

Por que o filme nos remete a Jair Bolsonaro? Depois da facada que recebeu, o candidato não queria sair da Santa Casa da Misericódia de Juiz de Fora, foi o SUS que salvou sua vida, mas novamente assessores, políticos, aliados insistiram em removê-lo para o Einstein a 470 km de distância. Como foi feito. Novamente os jornalistas à porta compartilhavam informações desencontradas, engolindo a complexa operação de laparotomia como sendo a pouco invasiva laparoscopia. Só para ninguém acreditar que o caso era grave.

Foi sorte o melhor cirurgião do hospital Einstein, Dr. Antonio Macedo, se deslocar a Juiz de Fora para dar o mesmo diagnóstico dos médicos do Sírio-Libanês, que também pousaram na Santa Casa de Juiz de Fora. Afinal, tratava-se de uma celebridade. O Dr. Macedo celebra pelo menos mil cirurgias por ano e sempre esteve consternado com a forma como a doença de Tancredo foi conduzida ( “pela importância que deram ao paciente”, nos confidenciou há tempos) .

Mas não foi a excelência do Dr. Macedo que fez Bolsonaro optar pelo Einstein. Segundo assessores, Bolsonaro não queria ir para o Sírio-Libanês porque Lula e Dilma foram tratados ali e ele considerava o hospital “dos políticos do PT”.

Como no caso de Tancredo, os médicos do hospital do primeiro atendimento ficaram melindrados, “somos um hospital moderno, de ponta, temos ISSO 9001 e certificado de Hospital-Escola do Ministério da Educação”.

Bolsonaro foi levado para São Paulo num táxi aéreo que só pelo transporte cobrou R$ 20 mil, e o dr. Macedo tem fama de não cobrar menos de três dígitos. (O candidato não mexeu no bolso, o Plano de Saúde da Câmara dos Deputados cobriu as despesas). Seja lá como foi, a opção pelo Dr. Macedo foi iluminada, o médico é também uma celebridade e não erra uma.

Bolsonaro foi operado, fotografado e ainda saiu para a praça pública no mesmo movimento de Tancredo ‘presidente’ e não ‘paciente’, o que lhe custou um retorno à mesa de operação. Agora sua equipe acredita que ele é só um paciente. Enquanto o filho Flávio e o vice, General Mourão, brigam para capitanear a campanha nas ruas, os eleitores do candidato que tem preferência nas pesquisas de opinião, afinal, descansa. O filme sobre a agonia e tragédia de Tancredo, se é que lhe contaram, serviu para colocar o doente no lugar devido.

Descansa?, grava vídeos, chora, ataca… mas não sai da cama

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Norma Couri é jornalista.

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