Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Mergulhados no fato

Por Monitor de Mídia em 09/12/2008 na edição 515

Nas últimas semanas, as enchentes em Santa Catarina se converteram no principal acontecimento da mídia brasileira. No Vale do Itajaí – a região mais afetada –, desembarcaram os principais repórteres do país, fazendo das cidades inundadas o palco das notícias. Mas e os meios de comunicação locais? Como atuaram nos primeiros dias da catástrofe ambiental que atingiu um milhão e meio de pessoas, e provocou mais de cem mortos? Como foi cobrir a enchente com as águas subindo pelas pernas? O Monitor de Mídia faz um resumo dos veículos de comunicação de Itajaí e região na semana da maior enchente da história no sul do Brasil.

 

A serviço da comunidade

Camila Guerra, Taiana Eberle e Rogério Christofoletti

Entre as emissoras de televisão locais, a RIC Record foi a que mais cedeu espaço na programação para noticiar as enchentes e deslizamentos ocorridos em Santa Catarina. Por ter sucursal em Itajaí, o grupo priorizou os danos causados pela chuva na cidade e se configurou como peça fundamental de assistência à comunidade e à própria administração pública. A RIC entrou no ar na segunda-feira, 24, um dia após a enchente. Até então, apenas a TV Brasil Esperança (TV comunitária de transmissão exclusivamente local) funcionava já que as retransmissoras de Band e RBS-Globo ficaram fora do ar.

A cobertura da RIC foi marcada por tom humanitário. A emissora teve sensibilidade para perceber o momento difícil pelo qual as comunidades passavam e, com isso, ofereceu à população um jornalismo social. De forma inédita, a RIC Record abriu mão da programação nacional e operou integralmente com a geração de imagens e conteúdos a partir de Itajaí. Apresentadores e repórteres se revezavam nos estúdios e nos principais pontos de alagamento. A rotina da emissora foi completamente alterada nos dias de cobertura às enchentes. Nos primeiros dias, era nítido que trabalhavam apenas os profissionais que tinham disponibilidade de chegar até os locais ou mesmo os que não tinham sido atingidos pela tragédia. Alguns apresentadores deixaram de lado paletós e gravatas e comandavam a cobertura dos estúdios com semblantes visivelmente cansados.

A emissora não se limitou a divulgar números e cenas da tragédia, mas veiculou reportagens com as vítimas, mostrando, assim, quem eram os prejudicados pela catástrofe. Ainda, orientou as pessoas sobre como agir diante das situações vivenciadas e incentivou o voluntariado.

Para os telespectadores de Itajaí e região, a atuação da RIC Record foi decisiva: conseguiu reunir as principais autoridades para informar e trazer algum conforto à população; articulou uma rede de apoio entre órgãos públicos, voluntários e atingidos; e fez um jornalismo voltado para o social. Em dias tão tempestuosos, a emissora mostrou vigor, foco e autonomia.

Qualidade da informação

A primeira emissora a fazer plantão de cobertura das cheias foi a TV Brasil Esperança, que desde o sábado (23 de novembro) mantinha apresentadores no estúdio recolhendo informações sobre o desastre. No fatídico domingo, a emissora foi a única a mobilizar seus profissionais para cobrir a inundação e a alarmar as autoridades. A partir de então, o canal não saiu mais do ar, e os poucos apresentadores revezavam-se na frente das câmeras, recebendo ligações de moradores, criticando órgãos de governo, conclamando empresários e voluntários a ajudar.

Com estrutura deficiente e operacionalmente amadora, a TV Brasil Esperança foi driblando suas limitações nos primeiros dias de transmissão. Chegou a sair fora do ar, e montou uma bancada a céu aberto no alto do Morro da Cruz, em Itajaí, para manter sua programação, toda voltada à tragédia. Outros problemas técnicos como entrevistas interrompidas – com a queda de ligações telefônicas –, e mesmo a não veiculação de reportagens eram compensadas com a insistência da cobertura ao vivo.

No estúdio, os esforços foram comandados pelo já polêmico Denísio Dolásio Baixo, apresentador com tom populista e intempestivo. Prestigiado e popular na cidade, Denísio conseguia doações vultosas no meio da transmissão. Ao mesmo tempo, repassava informações não devidamente checadas pelos jornalistas da casa, causando confusões. Denísio cometeu erros maiores, como quando chegou a incentivar a população aos saques nas comunidades ainda sem mantimentos de emergência. A incitação ao crime foi mais grave pelo fato de o apresentador ser um popular advogado na cidade. Incansável, Denísio chegou a se alimentar na frente das câmeras, em plena bancada, para não ter que abandonar a programação, dando contornos mais sensacionalistas à cobertura.

Em sua cobertura da tragédia, a TV Brasil Esperança mesclou amadorismo na condução dos fatos, sensacionalismo e alarmismo. Mas também prestou serviços à população, facilitando a ligação entre diversas organizações. Não se pode negar que a emissora não tenha servido à população, mas as enchentes de 2008 podem sinalizar à TV Brasil Esperança novos rumos para um ajuste maior em suas operações. Quem sabe mais preocupada com a qualidade da informação e com mais cuidado nas coberturas locais, já que o veículo é estratégico para a região.

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Panorama da destruição

Karis Regina Cozer

A TV Litoral Panorama em Balneário Camboriú, que retransmite parte da TV Cultura de São Paulo , também cobriu as enchentes, detendo-se, quase que exclusivamente, naquele município e no vizinho Camboriú. Com estrutura jornalística limitada, o canal não dispensou muito tempo da programação para noticiar o desastre, embora inserisse plantões durante os intervalos comerciais.

Foram feitas várias entrevistas com fontes oficiais para esclarecer a população sobre o que estava acontecendo e até mesmo para divulgar as medidas que seriam tomadas. Um dos entrevistados foi o vice-governador de Santa Catarina Leonel Pavan, que na ocasião elogiou a cobertura da emissora, mesmo sendo seu proprietário.

Nos dias de rescaldo, a emissora veiculou spots informando os locais para entrega de donativos e os produtos mais prioritários. A limitação operacional e a pouca vocação jornalística engessaram a cobertura da TV Panorama. Apesar de ser uma emissora com sinal educativo, o canal contribuiu aquém de sua capacidade e alcance.

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Um blog faz a diferença a partir de Blumenau

Joel Minusculi

‘Estava no centro Espírita Fé, Amor e Caridade e começou a chover muito forte, por volta das 15:30h. A chuva continuou forte por mais duas horas. Da janela podia-se ver a rua de acesso que estava transformada em um rio’. Com esse prelúdio, escrito pela publicitária Juliana Maria da Silva, o blog AllesBlau (‘Tudo Azul’, em alemão, mas é usado como uma expressão para ‘Tudo Bem’) começou a contar de forma coletiva a história do maior desastre natural em Santa Catarina.

O espaço foi criado com a intenção de ‘manter o mundo informado sobre o que acontece nesse canto do Vale’, principalmente da cidade. Porém, devido à proporção dos acontecimentos, o espaço se tornou referência na cobertura online da catástrofe.

Juliana não estava sozinha na empreitada. Junto com ela, o jornalista Fábio Ricardo e o publicitário Ariel Gajardo. O trio começou a postar informações recolhidas em conversas com amigos de outros bairros e de outros meios, principalmente do Twitter e do Orkut. ‘A intenção é trazer notícias atualizadas em tempo real, quando a grande mídia não consegue isso, muitas vezes’, explica Fábio Ricardo. Em pouco tempo, através da divulgação ‘link-a-link’, a equipe começou a receber ligações e e-mails com informações.

Notícias que a mídia não dava

Para se ter uma idéia da audiência, o blog recebeu no primeiro dia 80 mil visitas. No segundo, o contador já registrava mais 125 mil. Em 48 horas, o AllesBlau alcançou 300 mil visitas. Cada vez mais, internautas enviavam informações por comentários, e-mail e até mesmo por telefones. Além disso, a equipe sofria com problemas em suas conexões. Juliana Maria da Silva chegou a ficar sem energia durante a cobertura e Fábio Ricardo, apesar de ter ficado a maior parte do tempo online, teve que ‘arregaçar as mangas e ir ajudar os vizinhos e amigos que estavam pegando água em casa’. Assim, mais pessoas foram convidadas a postar informações, para manter o blog sempre atualizado.

Com o crescente número de visitas e informações, o blog teve que mudar de endereço, mas a intenção continuou a mesma. De 22 de novembro até 2 de dezembro, foram 1118 postagens – uma média de 100 por dia – com conteúdo variado: informações do nível do rio Itajaí-Açu, a situação dos bairros, notas oficiais e acidentes causados por alagamentos e desmoronamentos. Tudo baseado no testemunho da equipe e de outras pessoas espalhadas pela cidade.

Fábio Ricardo considera o fato de diversas pessoas poderem atualizar o conteúdo de vários pontos o diferencial do AllesBlau. ‘Já trabalhei em um monte de empresas jornalísticas, e todas sofrem por manter muitos jornalistas no mesmo lugar. Estamos hoje em umas dez pessoas, cada um em um lugar diferente. Muitos de nós nem nos conhecemos pessoalmente, estão temos grupos de amigos dispersos para colher informações’. O jornalista ainda explica que o sucesso é porque o blog trouxe notícias que a mídia não dava e, depois, que ela não conseguia atualizar na internet.

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Redes sociais informam com agilidade

Joel Minusculi

Enquanto os blogueiros de Blumenau concentravam conteúdo, os usuários da rede social Twitter despejavam muitas informações na internet através postagens de até 140 caracteres. Com o motor de busca Twitter Search é possível conferir o que as pessoas tinham a dizer das cheias, através dos canais #blumenau, #itajai, #sc, #cheias, entre outros. O que se via eram pessoas que buscavam informações sobre situação de ruas e outros que divulgavam o que sabiam.

Um dos momentos mais tensos do Twitter aconteceu no canal #blumenau, na noite de 23 de novembro, quando diversos usuários começaram a relatar que viram e sentiram uma grande explosão, vinda da direção da empresa têxtil Dudalina. Por cerca de meia hora, diversos usuários discutiram a procedência e a causa da explosão. Links de fotos e vídeos eram enviados, mas sem confirmações. Até que quase uma hora depois, um usuário postou que tinha conversado com os guardas da empresa e que a explosão poderia ter vindo de um gasoduto – que, mais tarde, deixou Rio Grande do Sul e Santa Catarina sem abastecimento de gás.

Em Itajaí, surgiu uma rede voluntária de apoio às vítimas e enchentes em Santa Catarina. Através do Arca de Noé, um site em formato de fórum, as pessoas se cadastram e postam informações referentes ao desastre. Tudo organizado por tópicos dos mais variados temas: localização de abrigos, pedidos de suprimentos, informações oficiais, entre outros. Durante a semana de maior impacto das águas, o endereço trouxe informações sobre todas as cidades afetadas, porém, as notícias mais freqüentes são sobre a foz do Rio Itajaí-Açú e a cidade de Itajaí.

Velocidade e organização

Também em Itajaí foi criado o blog Desabrigados. O espaço tem o objetivo de ‘ser um portal de comunicação entre pessoas de todas as distâncias’. Tudo através de listas de desalojados e desabrigados da cidade, que as pessoas podiam consultar através de um sistema de busca. Durante a semana das cheias, o blog foi muito usado para a localização de familiares e amigos. As listas eram atualizadas periodicamente, com saídas e entradas. Outras informações relevantes, como procedimentos e orientações eram postados para o esclarecimento da população. Em pouco mais de três dias de existência, o blog alcançou 30 mil visitas e teve o apoio de vários colaboradores, através de comentários e envio de listas. Além disso, mais de duas mil pessoas deixaram comentários com apelos por informações.

Os endereços listados acima foram os principais expoentes da cobertura online das cheias em Santa Catarina. Outros (muitos) blogs também contribuíram, através da visão pessoal de seus autores. Porém, além do tema, todos os citados aqui têm em comum o fato de serem criados e desenvolvidos por iniciativa popular e por mais de uma pessoa – ou seja, sem ligação a um órgão oficial ou grande imprensa. Através deles houve a chamada construção coletiva do conhecimento, em que cada um contribuiu com o pouco que sabia para sanar a ânsia por informações das pessoas atingidas. O total das informações resultou em bancos de dados ricos e organizados. Em um momento de desolação, a velocidade e a organização da internet mostraram-se eficientes em atender as pessoas em sua ânsia por informação.

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Rádios operam até debaixo d´água

Joel Minusculi

Um dos meios mais tradicionais, o rádio, também foi de grande valia para a população durante as enchentes em Blumenau. Durante o primeiro final de semana de chuvas, alagamentos e desmoronamentos, a Rádio Nereu Ramos – AM foi uma das emissoras que acompanhou em regime emergencial os acontecimentos.

Durante toda a programação, os locutores davam boletins da situação de bairros, pronunciamentos oficiais e atendiam ligações da população em busca de ajuda ou que também tinham informações. O fluxo de informações era tão grande que o tradicional programa Voz do Brasil deixou de ser veiculado no dia 25 de novembro. Mesmo com todas as dificuldades, como isolamento do prédio dos estúdios por água e o cansaço dos locutores, a equipe transmitiu durante três dias consecutivos até as 5 horas da madrugada, para retomar logo às 8 da manhã. Os locutores faziam revezamentos regulares, sem deixar em nenhum momento de informar. Houve momentos em que o sinal da emissora era interrompido, mas mesmo assim, os trabalhos continuavam através da transmissão via internet.

Em Balneário Camboriú, a Rádio Menina FM também manteve horas e horas de programação voltadas à tragédia, mesclando jornalismo e prestação de serviços. Em Itajaí, a Univali FM contou com voluntários para dinamizar sua cobertura. Eram professores e alunos do curso do Jornalismo que montaram esquema de revezamento durante os primeiros dias da inundação. Com dificuldades operacionais, a TV Univali teve seu sinal prejudicado, o que incentivou as equipes da emissora de televisão e de rádio trabalharem em conjunto.

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Dificuldades na circulação dos jornais

Rogério Christofoletti

Durante a passagem do furacão Katrina na Flórida em 2005, alguns jornais locais deixaram de circular e passaram a transmitir notícias em seus sites, a única maneira de chegar aos seus leitores. Passados três anos, a saída foi a mesma para alguns dos diários do Vale do Itajaí. O Diário do Litoral, por exemplo, criou um blog de emergência já no início da tarde da segunda, 24 de novembro. A maioria dos exemplares não chegara às bancas porque as estradas estavam interrompidas. O Diarinho na Chuva foi a solução para informar, contaram os editores. Em menos de 24 horas, 16 mil visitas foram registradas no contador de acessos. Uma semana depois, no domingo (30 de novembro) e 242 posts, o jornal voltou a circular normalmente, encerrando o expediente no blog.

Em Blumenau, o Jornal de Santa Catarina não chegou a circular na segunda, 24. A edição conjunta de sábado e domingo já alertava para as fortes chuvas da semana. O caminho foi abastecer o ClicRBS e a versão online do Santa com notícias e informações. As primeiras páginas do jornal nos dias seguintes dão uma medida da destruição das águas e da perplexidade da população.

O concorrente Folha de Blumenau também sentiu dificuldades para circular, mas o fato de não ser diário deu mais fôlego à equipe para cobrir os estragos e caos local.

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Monitor de Mídia

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