Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO & GEOPOLÍTICA

Miannmar, a ONU e a mídia

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 09/10/2007 na edição 454

As imagens da brutalidade em Mianmar invadiram nossas casas. A indignação tomou nossos corações e os dos jornalistas. Não foram poucas, nem frias, as matérias escritas nos jornais que exigiram uma firme atuação da ONU. A entidade despachou um diplomata para Miannmar, a TV o mostrou sendo recebido pelo general repressor e conversando com a opositora presa. Nenhuma palavra ou imagem dos presos, torturados ou enterrados. A ausência destes é um triste sinal dos tempos.

A Organização das Nações Unidas foi originalmente criada com a missão de evitar uma terceira guerra mundial. Desde então a legislação internacional passou considerar a guerra justa basicamente em duas hipóteses:

a) defesa em caso de ataque externo não autorizado ou desautorizado pela ONU;

b) agressão militar para restabelecer a ordem interna e internacional com autorização prévia de resolução do Conselho de Segurança ou da Assembléia-Geral da ONU.

Desde que foi criada, a ONU funcionou como um amortecedor para as tensões entre a URSS e o chamado ‘mundo livre’ (muito embora no último existissem ditaduras tão ou mais brutais que a soviética). Entretanto, a ordem internacional instituída no pós-guerra sempre teve limitações. A ONU não tem tropas para obrigar seus membros a cumprirem suas resoluções e muitas delas foram silenciosamente ignoradas (as que obrigam Israel a se retirar das áreas indevidamente ocupadas em 1967 têm sido ruidosamente contestadas). Mesmo não tendo evitado vários conflitos de pequena ou média intensidade, a ONU conseguiu evitar o pior. Apesar dos temores generalizados, não ocorreu um conflito aberto entre as superpotências nucleares.

Só resta o oba-oba

A reação norte-americana aos ataques às Torres Gêmeas mudou definitivamente o cenário internacional. A Casa Branca exigiu e conseguiu a aprovação de uma resolução que praticamente autoriza os gringos a realizarem operações militares de retaliação preventiva em qualquer lugar do planeta. A primeira vítima da ira norte-americana foi o Afeganistão; a segunda, o Iraque. Muito embora o Talibã e o Baath não tivessem ligações com a al-Qaida (que foi criada e é dirigida por Bin Laden, ex-amado/amante da CIA) ou com os terroristas que destruíram o WTC, os militares norte-americanos devastaram Bagdá e Cabul para dar credibilidade à sua nova ordem mundial.

É nesse contexto que cheguei à conclusão que a ONU está morta. Tenho a nítida impressão que os diplomatas só não enterraram seu cadáver por dois motivos.

1º) Eles recebem da ONU para trabalhar nela e gostam de seus cargos e salários;

2º) Não há nada que se possa criar neste momento para suprir a ausência da falecida instituição e, portanto, os governos resolveram embalsamar a ONU e tratá-la como se estivesse viva.

Nesse sentido, perguntar se a ONU fará ou não algo em relação à brutalidade da ditadura de Mianmar é um nonsense. Quando estava vivinha da silva, a ONU pouco ou nada fez contra as ditaduras brutais de Franco na Espanha, Pinochet no Chile, Somoza na Nicarágua, Galtieri na Argentina, Costa e Silva no Brasil etc. Agora, que está morta, o que a ONU pode fazer, além do oba-oba na mídia?

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Advogado, Osasco, SP

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