Quinta-feira, 23 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

FEITOS & DESFEITAS > Sexo adolescente

A mídia como bode expiatório?

Por Roxana Tabakman em 11/07/2016 na edição 911

Nas conversas de boteco, a mídia sempre é culpada por tudo o que é mal compreendido. Os que ganham o pão na TV, publicidade, cinema ou fazendo revistas – especialmente as femininas – sabem que quando a pauta da conversa é juventude hiper-sexualizada, eles serão os principais acusados. É um fato que, frente aos problemas da sociedade, é muito difícil discriminar a influência de uma fonte de informação sem considerar a contaminação por outras (lembro agora os outdoors da Playboy que todos os turistas que vinham a Brasil fotografavam como exemplo de exposição involuntária das belezas locais).

Mas a dúvida sempre fica: qual é o verdadeiro impacto da sensualidade onipresente nas decisões mais íntimas que tomam as pessoas? As conclusões de um novo informe isentam a midia de parte da culpa, pelo menos no que se refere ao quesito iniciação sexual adolescente.

Segundo uma avaliação nova de pesquisas pré-existentes, os pais não teriam que se preocupar tanto se os filhos ficam expostos à mídia de alto conteúdo sexual. O link entre esse tipo de conteúdo e o comportamento sexual prematuro é uma verdade habitualmente aceita, mas para a ciência não está provada.  O documento afirma que poderia ser mínima a influência que as imagens ou as letras de músicas que os jovens consomem têm sobre a idade “da primeira vez”. Talvez atue sobre a atitude frente ao sexo, concluem os pesquisadores, mas não sobre o comportamento.

O assunto do poder dos influenciadores na sexualidade adolescente gerou até agora muito mais interesse do que conhecimento real, porque não há unanimidade diante do fato de que há pesquisas com conclusões opostas.

Foi isso o que motivou a Christopher Ferguson, do departamento de psicologia da Universidade Stetson, da Flórida, EUA, a se aprofundar no assunto. Mais precisamente, foi uma investigação pela qual com os mesmos dados, dois grupos de acadêmicos chegaram a conclusões opostas através de enfoques estatísticos diferentes.

Entender adolescentes não é tarefa fácil

Para conhecer qual era a visão científica predominante em relação à influência da mídia na vida sexual dos jovens, o primeiro passo dado pela equipe liderada por Ferguson foi resgatar das redes de comunicação científica toda a informação publicada sobre o assunto. A busca foi feita pela da combinação das seguintes nove palavras-chave: Child, Adolescent, Youth, Media, Mass Media, Television, Music, Videogames e Sex (criança, adolescente, juventude, mídia, grande mídia, TV, música, videogame e sexo).

Com o resultado, fizeram uma nova seleção, estreitando os critérios. A pornografia foi excluída, cada trabalho tinha que ter sido publicado entre os anos 2005 e 2015 e as pesquisas não deviam medir o nível de conhecimento, mas a influência de algum tipo de mídia no comportamento sexual (gravidez, comportamento sexual de risco, iniciação sexual). Finalmente, seriam restritos à referente a faixa etária os indivíduos avaliados com menos de 18 anos. No final da seletiva, a equipe tinha para reanalisar 22 estudos, que abarcavam no total o comportamento de 22.172 pessoas.

Mediante uma técnica estatística que integra os resultados de pesquisas independentes, combinaram os resultados e publicaram o que eles consideram a primeira meta analise do assunto na revista Psychiatric Quarterly. A conclusão principal é a seguinte: em ambiente familiar e social semelhante, a associação entre mídia com alto conteúdo sexual e comportamento sexual dos adolescentes é mínima. “Com estes dados não é possível apoiar a hipótese de que a mídia sexy contribui para a iniciação sexual dos jovens ou influi no comportamento” concluem os pesquisadores. “Nossos resultados não excluem a possibilidade de que a mídia seja mais importante nos jovens com menos convívio social ou familiar.”

Entender aos adolescentes não é tarefa fácil. Nessa idade, a sexualidade é o resultado do conflito entre as mensagens, nem sempre diretas, a favor e contra a abstinência. O ato vai depender de muitos fatores, entre os quais os valores individuais, a biologia, a maturação e a pressão social e familiar. Logicamente, é muito difícil discriminar a influência de cada um dos fatores sem considerar os outros. Mas, para os autores da pesquisa, colocar tanta atenção na influência da mídia como se faz atualmente pode distrair a sociedade de outros determinantes tanto ou mais importantes.

Referência: Ferguson, C. J. et al. (2016). Does Sexy Media Promote Teen Sex? A Meta-Analytic and Methodological Review, Psychiatric Quarterly. DOI 10.1007/s11126-016-9442-2

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Roxana Tabakman é bióloga, jornalista e autora do livro  A saúde na mídia – Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos.

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