Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > PROFESSORA INOCENTADA

Mídia não reparou erro

Por Juliano Schiavo Sussi em 22/03/2005 na edição 321

Não faz muito tempo, mas memória de brasileiro é como garrafa pet: descartável. Lembram-se do caso da professora de Nova Odessa (interior de São Paulo) Tânia Regina Araújo de Castro? Aquela acusada de ter obrigado um aluno de 7 anos a ficar parado mais de uma hora em frente a uma parede, no canto da sala? O menino teria permanecido no local horas e, não conseguindo sair da escola para casa no horário habitual, deixou os pais preocupados. Lembram-se?

Lembro-me perfeitamente de como essa notícia foi publicada. Primeiro nos jornais da região de Nova Odessa, depois, à medida que o tempo passava, a notícia foi tomando dimensões nacionais. Estava instaurado um período de terror para Tânia.

Com sensacionalismo barato, a imprensa absorveu esse furo de reportagem, tomando-o como se fosse a mais pura das verdades, esquecendo-se de que a ‘verdade’ tem dois lados: o da vítima e do acusado.

Buscando o lucro, os meios de comunicação se agarraram a ‘uma verdade’ e, com isso, fizeram com que a professora fosse crucificada, sem ao menos poder se defender de acusações injuriosas que faziam a seu respeito. Ela era apenas uma notícia quente, não um ser humano com direito de resposta assegurado por lei. A mídia fez dela uma marionete a seu dispor, colocando-a como a ‘bruxa malvada’ que castiga os ‘pirralhos’ que não faziam a lição de casa.

Dor eterna

O que eu gostaria de deixar claro aqui é que o ‘fato’ de ela ter maltratado o menino, sem provas, serviu de pretexto para letras garrafais em vários jornais e revistas, como também para a ‘bomba’ passada aos telespectadores dos jornais televisivos de maior audiência. E o mais revoltante ainda é que, agora, após ter sido absolvida, os mesmos jornais, revistas e TVs não deram a mesma importância à inocência dela. Usaram e abusaram do nome dela e, em seguida, descartaram-na, sem ao menos corrigir um erro causado por eles: incriminação sem provas.

Concordo em que a imprensa deva ser livre, mas é necessário ter em mente que liberdade deve andar junto com responsabilidade. Se acusaram Tânia de ter maltratado um aluno, por que muitos jornais não deram a mesma importância à inocência dela?

Não conheço Tânia, mas posso imaginar o quanto ela sofreu e ainda sofre, pois o que fizeram com ela foi um erro. E nem ao menos tentaram repará-lo.

As folhas de jornais amarelam, mas a dor de ser incriminado sem provas é eterna.

******

Estudante de Jornalismo, 17 anos, Americana, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/03/2005 Eduardo Guimarães

    Juliano Schiavo Sussi (Feitos e desfeitas, ‘Mídia não reparou o erro’) tem 17 anos. Escreve melhor do que a esmagadora maioria dos adultos – inclusive, melhor do que muito jornalista profissional – e tem uma capacidade de se indignar com injustiças que é rara nos jovens de hoje.

    Esse jovem promete…

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